11 de janeiro de 2026

‘Precisamos ser sujeitos do desenvolvimento da tecnologia, não só usuários de pacotes prontos’, diz ativista em fórum do Sul Global na China

“Precisamos que o povo e o Estado sejam sujeitos do desenvolvimento da tecnologia e não só usuários dos pacotes prontos, dos marcos prontos, dos modelos prontos da inteligência artificial e de outras tecnologias digitais”, disse Tica Moreno, socióloga e integrante da Coordenação Nacional da Marcha Mundial das Mulheres (MMM), em entrevista ao Brasil de Fato na China.

A ativista participou do painel “Soberania digital e o desenvolvimento pacífico da inteligência artificial no Sul Global”, no Fórum Acadêmico do Sul Global, realizado nos dias 13 e 14 de novembro. O espaço procurou debater como países do Sul Global podem construir infraestrutura digital autônoma e enfrentar desafios atuais como a extração abusiva de dados, vieses algorítmicos e militarização da inteligência artificial.

Moreno participa de dois projetos concretos de cooperação tecnológica entre movimentos populares brasileiros e parceiros chineses. O primeiro envolve parceria com a empresa estatal chinesa Sinomach Digital para desenvolver sistemas de agricultura digital voltados à agroecologia brasileira.

O segundo utiliza modelos de inteligência artificial de código aberto para facilitar o acesso ao conhecimento agroecológico produzido por organizações populares, técnicos e instituições de pesquisa.

A liderança da MMM alerta que alguns países do Sul Global, incluindo o Brasil, abriram mão de se colocar como sujeitos do desenvolvimento. “Pagam dinheiro para as infraestruturas digitais das empresas do Norte Global, as Big Techs dos Estados Unidos, hospedarem e armazenarem nossos dados e com esses dados eles vão fazer o desenvolvimento dos modelos de inteligência artificial deles”, explicou.

Tica Moreno trabalha diretamente com organizações como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e a Baobab, a Associação Internacional para a Cooperação Popular, em iniciativas que aplicam tecnologia à reforma agrária e agroecologia. Para ela, o caminho que a China vem desenvolvendo na IA é um modelo que está em disputa com o das corporações estadunidenses.

“A China justamente faz uma abordagem integral. O desenvolvimento da inteligência artificial é parte da construção do socialismo na China hoje e abrange todas as esferas da sociedade”, destaca a ativista, que considera esse o principal aprendizado da China em relação ao tema.

A especialista enfatiza que essa perspectiva vai além do código aberto de software, incluindo também a infraestrutura física necessária: “se você não tem infraestrutura para rodar o modelo, você não vai conseguir desenvolver nada. Então essa camada do software do código ela vem sempre junto com a dimensão do hardware também”.

Ao deixar de investir em infraestrutura digital, os Estados perdem o controle sobre os dados de sua população e “abrem mão de ser sujeitos da produção de conhecimento”, argumenta.

Confira a entrevista na íntegra:

Brasil de Fato: O que significa colocar o debate sobre desenvolvimento tecnológico nos países do Sul Global nos marcos da soberania digital centrada no povo?

Tica Moreno: Na nossa construção da agenda política, da soberania digital, numa perspectiva popular ou centrada no povo, tem um elemento que é fundamental, que é a gente entender, tanto o povo quanto os nossos Estados, as nossas instituições como sujeitos do desenvolvimento tecnológico.

O que a gente vive hoje é uma situação de que alguns países, inclusive o nosso em grande medida, abriram mão de se colocar como sujeitos do desenvolvimento. Então, pagam dinheiro para as infraestruturas digitais das empresas do Norte Global, as Big Techs dos Estados Unidos, hospedarem os nossos dados, e com esses dados eles vão fazer o desenvolvimento dos modelos de inteligência artificial deles. Ao deixar de investir em infraestrutura, a gente abre mão de ser sujeito da produção do conhecimento porque a gente não tem, justamente, acesso e controle sobre os nossos dados.

O que a gente precisa, portanto, para retomar esse controle ou construir esse controle é justamente que as pessoas, o povo e o Estado sejam sujeitos do desenvolvimento da tecnologia e não só usuários dos pacotes prontos, dos marcos prontos, dos modelos prontos da inteligência artificial e de outras tecnologias digitais.

Isso não é uma coisa nova, isso já existe há bastante tempo. Na agricultura, por exemplo, na Revolução Verde, eles impuseram um pacote tecnológico. O que o povo fez? Os agricultores, as agricultoras, os camponeses afirmaram o seu conhecimento, a sua sabedoria, as suas técnicas de produção e hoje a gente tem uma disputa de modelos de agricultura onde você tem os camponeses como sujeitos da agroecologia e o agronegócio com o seu pacote de sempre que só é a mesma lógica da extração e da produção para exportação. Então é uma disputa de quem é sujeito da produção de tecnologia, mas também de quem é sujeito da própria história.

Na sua apresentação no fórum, você falou de tecnodiversidade. A China tem uma abordagem em relação ao socialismo que desenvolve, que é a de não pretender exportar esses saberes necessariamente como um modelo pronto, mas de interagir e aprender mutuamente. O quê os países do Sul Global devem ou podem aprender, ou absorver na interação com a China para o desenvolvimento tecnológico nesse marco da soberania digital?

O que a gente tem realmente são dois modelos, duas possibilidades históricas para a inteligência artificial e esses dois modelos estão em disputa. Um é o modelo dos Estados Unidos, o projeto imperial onde a inteligência artificial tem um lugar central e está sendo cada vez mais usada para mais extração, mais colonialismo, mais controle, mais ofensiva, inclusive militar; ou seja, o uso da inteligência artificial como arma de guerra. E o outro modelo, a outra possibilidade histórica é o desenvolvimento da inteligência artificial como parte do desenvolvimento e da construção do socialismo chinês.

Quando a gente olha para esse desenvolvimento, a gente vê como a China tem uma abordagem integral, que passa por entender os dados como fator de produção, que passa por entender esse momento das possibilidades da nova qualidade das forças produtivas e organiza uma série de, não só regulações, mas políticas e investimento para esse caminho do desenvolvimento da nova qualidade das forças produtivas.

Parte disso que a China tem feito é investido, por exemplo, no código aberto para o desenvolvimento dos modelos de inteligência artificial. Isso é fundamental para garantir no nosso caso do Sul Global as possibilidades de nos tornarmos sujeitos do desenvolvimento da tecnologia, porque com o código aberto você consegue implementar o modelo e desenvolvê-lo a partir do que já existe.

A partir daí você consegue criar, você consegue ser de fato sujeito desse desenvolvimento. Isso permite desenvolver a partir das suas condições. Você consegue usar os seus dados com autonomia e com soberania para desenvolver o modelo que você quer.

Pode ser para agricultura, pode ser um modelo de linguagem, pode ser… Enfim, as possibilidades são múltiplas se você tem acesso ao código aberto.

Mas, obviamente, a gente sabe que só o código aberto também não garante tudo, porque se você não tem infraestrutura para rodar o modelo, você não vai conseguir desenvolver nada. Então essa camada do software, do código, ela vem sempre junto com a dimensão do hardware também.

É isso que a gente pode aprender com a China. A China justamente faz uma abordagem integral. O desenvolvimento da inteligência artificial é parte da construção do socialismo na China hoje e abrange todas as esferas da sociedade. É o principal aprendizado que a gente pode ter com a China.

Você pode comentar um pouco sobre as iniciativas que movimentos populares no Brasil vêm desenvolvendo com parceiras na China, com esse objetivo da soberania tecnológica e digital?

A gente tem atualmente dois projetos em construção que partem desse aprendizado, dessa cooperação com a China. Um tem a ver com essa dimensão da possibilidade de um sistema de agricultura digital focado na agroecologia, a partir da parceria com uma empresa estatal chinesa, que é a Sinomach Digital. Essa parceria é um processo de construção.

Aqui na China eles têm uma agricultura de base camponesa com uma taxa de mecanização muito alta e eles já desenvolveram sistemas [digitais] para alguns cultivos aqui da China. A gente está levando esse sistema para o Brasil, mas no Brasil a agricultura é diferente, a agricultura é tropical.

A nossa aposta é que, com o conhecimento das organizações camponesas, com o conhecimento das cooperativas, trazendo a necessidade das cooperativas para esse debate de para quê serve um sistema de agricultura digital, a gente vai ter condições de construir um processo em que também as cooperativas, também os agricultores, sejam sujeitos desse desenvolvimento a partir do modelo chinês.

Então a gente leva o modelo, mas a gente desenvolve esse modelo adequado à realidade, aos desafios da agricultura e da agroecologia no Brasil. Para isso precisa de muita coisa, precisa tanto das máquinas como da infraestrutura digital e a formação e capacitação das pessoas, dos agricultores, dos técnicos também, nesse mundo da inteligência artificial, nesse mundo das tecnologias digitais. Esse é um projeto.

O outro, procura usar essa interação mais cotidiana das pessoas com inteligência artificial para facilitar processos de acesso ao conhecimento agroecológico. A gente tem no Brasil uma quantidade de conhecimento agroecológico – produzida pelas organizações principalmente, mas não só, por instituições de pesquisa também.

Como é que a gente coloca essa quantidade de conhecimento produzido na agroecologia pelas organizações populares para apoiar a transição agroecológica, tanto na interação com os agricultores, mas também facilitando o trabalho dos técnicos e técnicas que trabalham com as cooperativas e com os camponeses no cotidiano da produção.

A gente aprendeu essa possibilidade na relação com a China, porque a China, a partir justamente dos modelos de código aberto, da inteligência artificial, tem uma série de experiências em que são montadas bases de conhecimento local que podem tornar esse conhecimento acessível e facilitado na interação com a inteligência artificial, com a linguagem da inteligência artificial.

É isso que a gente tem construído como parte de um processo de construção de uma metodologia de educação popular e inteligência artificial. Como é que a gente massifica também a inteligência artificial? O MST fala bastante dessa estratégia de massificar a agroecologia. Com esse processo e essa discussão aqui com a China, a gente tem visto essa necessidade de massificar a inteligência artificial com essa entrada no povo, com o povo como sujeito. Isso a gente só consegue com uma educação popular massiva, um processo realmente que chegue em cada canto do país.



Fonte ==> Brasil de Fato

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