2 de janeiro de 2026

No coração do Mercado Público, Bate-Folhas celebra Ogum, Iansã e a renovação do axé para 2026

Há mais de duas décadas, o coração do Mercado Público de Porto Alegre se transforma em território sagrado durante a realização do Bate-Folhas, rito tradicional de matriz africana realizado sobre o mosaico de pedras e bronze localizado na encruzilhada dos quatro corredores centrais do espaço. O local, ornamentado com sete chaves em homenagem ao Bará, recebeu, entre os dias 28 e 30 de dezembro, o ritual que marcou o encerramento do ano regido por Xapanã e Xangô e a saudação aos orixás regentes de 2026, Ogum e Iansã (Oiá).

O Bate-Folhas foi conduzido pela ialorixá Iya Vera Soares, com a participação de diversas iyas, babás, filhos e filhas de santo, com encerramento ao som da escola de tamboreiros Batuque RS. Durante os três dias, milhares de pessoas passaram pelo banho de folhas, rito de purificação e renovação realizado com ervas sagradas.

Iyalorixá Iya Vera Soares conduz o ritual que marca a passagem dos orixás regentes – Foto: Katia Marko

Entre elas estava a estagiária do Banrisul Raissa Gonçalves Ferreira, que participa do Bate-Folhas há cerca de três anos. Mesmo não pertencendo a uma religião específica, ela afirma acreditar na força dos rituais. “Eu acredito em tudo. Tudo que é ritual eu vou. Se é igreja, eu vou. Umbanda eu vou, espiritismo eu vou, qualquer lugar eu tô frequentando”, contou. Segundo Raissa, o banho de folhas faz diferença: “Entra o ano bem mais tranquilo e renovado”.

Presente ao ritual, o segundo vice-presidente do Centro de Professores do Estado do Rio Grande do Sul (Cpers-Sindicato), Edson Garcia, adepto das religiões de matriz africana, destacou que o banho de folhas é, além de tradicional, um momento de revitalização das energias. “É uma forma que a gente tem de renovar as esperanças, colocar as nossas expectativas num plano de realmente colocar em efetividade”, afirmou. Para Garcia, os orixás trazem energias que se refletem simbolicamente no banho e na proteção colocada sobre os corpos.

Ao comentar a transição espiritual, Garcia explicou que o encerramento do ano de Xangô e a entrada no ano de Iansã representam um novo ciclo de lutas. “Não com menos justiça do que Xangô representa, mas com muita luta. A gente segue com a postura e a força de Ogum para lutar, já que lutar é o nosso verbo”, disse, lembrando também da importância da representatividade feminina de Iansã. Ele afirmou ainda a expectativa de um ano de prosperidade, saúde e força, além do desejo de “governos menos danosos para a classe trabalhadora e para a população em geral”.

O dirigente participou do ritual acompanhado da madrinha de batismo, Maria da Costa, de 100 anos. Emocionada, ela agradeceu aos orixás. “Agradeço aqui a Deus, a todos os bons dias protetores, aos orixás. Parece que eles me puxaram para vir aqui assistir”, afirmou. Segundo Maria, estar presente no Bate-Folhas representa alívio para as dores e alegria por estar entre amigos. “Que me tire todas as minhas dores já é um grande sonho.”

Fé, trabalho e luta social na passagem dos orixás

A organização do ritual mobilizou dias de trabalho. Gislaine Beatriz Gonçalves de Souza, conhecida religiosamente como Iya Giza de Oxum Pandá, explicou que o Bate-Folhas se estendeu por três dias devido à grande procura. “A gente não consegue dar conta em um dia só. As pessoas pedem para fazer com a gente, dizem que a vida melhorou”, relatou. Segundo ela, a cada ano o número de participantes aumenta.

Iya Giza destacou a transição do ano de Xangô e Chapanã para Ogum e Iansã como um período de aprendizado e limpeza espiritual. “Xapanã vem com a vassoura, e às vezes a gente perde e chora, mas depois entende que foi o orixá trabalhando, libertando”, afirmou. Para 2026, ela disse esperar “mais amor, mais solidariedade, mais humildade e mais empatia”, ressaltando que esses valores precisam estar no cotidiano, e não apenas no discurso.

Tradição realizada há mais de duas décadas reafirma o Mercado como território de axé – Foto: Katia Marko

Ela também explicou o significado do Bate-Folhas. “É uma limpeza com as nossas ervas sagradas. Ervas que os nossos ancestrais usavam para se curar, para curar feridas e dores. Depois da limpeza, a gente coloca a fitinha para firmar o novo ano que está chegando, firmando a limpeza naquele que recebeu o axé.”

Força do trabalho e ventos da mudança

Iya Vera Soares conduziu uma fala coletiva no espaço do Bará, destacando a transição imaterial entre os orixás regentes. Ela pediu força para enfrentar as demandas que atravessam a vida cotidiana. “A demanda da miséria, da fome, da doença, da violência causada pelas intolerâncias”, afirmou. Segundo ela, Ogum representa a força do trabalho e da esperança, enquanto Iansã traz o movimento necessário para a mudança. Ela também lembrou que os orixás não trabalham sozinhos e que Xangô permanece como referência de justiça.

“Que o senhor (Xangô) deixe como tarefa para essa nova gestão imaterial a busca da justiça, Que o senhor, Ogum, use o seu facão, a sua espada, minha mãe, Iansã, para cortar os nós que nos embargam, os nós da nossa garganta, os nós que nos traem, os nós que precisam ser cortados para que a gente tenha esperança de um tempo melhor para todos. Que Ogum possa cortar a violência que está colocada em todo momento de cada dia que nasce até dentro das nossas casas.”

A deputada federal Daiana Santos também foi pedir benção e receber o bate-folhas – Foto: Katia Marko

Segundo ela, Ogum é a força que permite atravessar processos difíceis. “Ogum é a força do trabalho. É a força que nos faz chegar aqui depois de todo esse processo. É a força da esperança que nos move para que a gente esteja aqui ouvindo o primeiro meio de comunicação do nosso povo, que é o tambor.”

Em sua fala, Iya Vera pediu que os orixás atuem sobre as estruturas que produzem sofrimento, invocando Iansã como força de transformação. “Que ela, no seu vento sagrado, mude as coisas de lugar. Mude a doença para a cura. Mude a miséria para o direito digno da comida de verdade. Mude o agrotóxico pela comida da agricultura familiar, que nos contempla, que nos alimenta e não nos envenena.”

Iya Vera anunciou ainda a criação do podcast Vozes e Territórios, do Brasil de Fato RS, que irá conduzir, como espaço de comunicação e escuta das religiões de matriz africana. “Um lugar para quem nunca teve fala, para quem ficou no anonimato, no silêncio, com a voz embargada”, afirmou.

Para Baba Phil, fundador do Batuque RS, o Mercado Público é um espaço de resistência. “É um espaço que, após muita luta, conseguiu se manter público. Falar disso é falar da guerra, da luta diária que nós, enquanto povos de matriz africana, enfrentamos”, disse.

Segundo ele, o local é herança cultural dos povos negros e precisa ser reafirmado como território de axé, para aqueles que vieram antes e para as gerações que ainda virão. “Todo momento é necessário reafirmar este como um espaço de resistência, como um espaço de construção coletiva, como uma herança cultural dos povos pretos e daqueles que mantêm o legado dessa tradição viva.”

Terra, território e reparação: Ancestralidade, soberania alimentar e justiça histórica

Ao Brasil de Fato RS, Iya Vera pontuou sobre a importância da terra, do território e da reparação para os povos de matriz africana. A ialorixá destacou que falar de terra é falar de uma história marcada pela violência colonial. “Fomos arrancados da nossa terra-mãe. A maioria de nós não conhece a sua mãe-terra de origem, então conhecemos a nossa mãe adotiva, que é a terra Brasil”, afirmou.

Segundo ela, é nesse território que os povos de terreiro firmaram seus passos, sua ancestralidade e a continuidade de suas gerações. “São mais de 600 anos de luta. Resistir, resistir, resistir. Nós estamos cansados de apenas resistir. Nós queremos direitos.”

A ialorixá ressaltou a relação entre humanidade e natureza, lembrando que os seres humanos têm existência finita, enquanto a terra e suas raízes atravessam séculos. “As árvores centenárias, como o baobá e a figueira, viram muitas gerações passarem e ainda verão muitas outras”, disse, ao defender que o mundo reconheça a terra como grande mãe, sustentada pelas águas sagradas.

Na cosmologia apresentada, a fertilidade da terra depende da água, associada às iabás femininas, como Oxum, Otim e Iemanjá. Sem essa hidratação, a terra se torna árida e improdutiva. “Não é o agrotóxico, não é o veneno que nos dá comida. Toda comida vem do grão, e o grão é raiz”, afirmou, criticando práticas que violam os princípios naturais da vida.

Iya Vera também fez uma conexão direta entre esses saberes ancestrais e as cozinhas solidárias, apontando que elas já realizam, há séculos, aquilo que hoje se reivindica como política pública. Para ela, não se trata de assistencialismo nem de um modelo de economia que exclui, mas de soberania alimentar. “O Estado brasileiro precisa assumir o compromisso com a segurança alimentar do seu povo”, defendeu, lembrando que nos terreiros todos comem comida de verdade, com ou sem dinheiro.

Ao evocar Iansã, orixá dos ventos e das transformações, Iya Vera pediu mudanças profundas nas estruturas de poder que colocam o lucro acima da vida, da saúde e da soberania dos povos. “Não podemos aceitar que alguém decida o que devemos comer apenas a partir do dinheiro”, afirmou, expressando também a frustração com representantes eleitos que não correspondem às expectativas populares. “Nós votamos porque acreditamos, e a decepção dói.”

A fala também resgatou a figura de Ogum a partir de sua origem africana, rompendo com leituras eurocentradas. “Ogum não é um soldado romano. Ele é africano, do estado de Oyó, na Nigéria”, lembrou. Para ela, Ogum representa o trabalho coletivo e a tecnologia ancestral, expressa nos instrumentos da agricultura familiar, como a pá e a enxada. “A força de Ogum não é a guerra, é o trabalho para todos.”

Nesse sentido, Iya Vera relacionou a presença de Ogum ao fortalecimento da agricultura familiar, à justiça social e às reparações, lembrando que essas vitórias também passam pelo campo da justiça, sob o signo de Xangô, e pela comunicação de Exu, que possibilita o diálogo com o povo. Ela destacou ainda o papel do Brasil de Fato e de seus podcasts na construção desse diálogo, valorizando a coragem de trazer os orixás para o espaço público e formativo.

Ao encerrar, Iya Vera afirmou que a luta, sozinha, não sustenta a vida. “Que Ogum nos dê um bom ano, que Iansã traga amor, mudança e reparação para todos nós”, concluiu. Axé.





Fonte ==> Brasil de Fato

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