9 de janeiro de 2026

Centrismo não é garantia eleitoral nos EUA em 2026 – 07/01/2026 – Lúcia Guimarães

Urna de votação com a palavra

Números contam histórias. Em política, números de votos, de popularidade ou de defesa de posições podem ser usados para chegar a conclusões opostas. Ofereço dois aqui.

O novo prefeito socialista democrata de Nova York, Zohran Mamdani, recebeu os votos de 60 mil eleitores de Donald Trump —bem mais do que seus adversários, um democrata relativamente próximo ao presidente e um republicano.

Com base em várias apurações, podemos estimar que entre 7 e 9 milhões de eleitores de Barack Obama votaram em Trump em 2016. Obama continua a ser o político mais popular dos Estados Unidos. Às vésperas da posse, a popularidade de Mamdani disparou, de 55% no momento da eleição, para 61%.

Já o ocupante do Salão Oval amarga um declínio de aprovação pública neste primeiro ano de mandato —a média entre as principais pesquisas, hoje, não passa de 43%. Não há motivo para nó no raciocínio.

Vamos procurar histórias menos convencionais e não sancionadas pela classe de consultores que sussurra no ouvido de candidatos e políticos eleitos.

Um filósofo político da Califórnia talvez ajude a explicar como alguém pode marcar a cruz ao lado de Barack e de Donald; ao lado de Donald e, apenas 12 meses depois, escolher o ugandense americano Zohran.

Jason Blakely publicou o livro “Lost in Ideology” (perdidos em ideologia, em tradução livre), argumentando que a política contemporânea nos desorienta e que não é possível plantar pessoas em rígidos territórios ideológicos. Ele descreve eleitores que circulam entre direita e esquerda num contexto de “ideologias líquidas.” Um eleitor rural de Virginia Ocidental, um estado conservador, pode ser contra o aborto e a favor de uma versão gringa do SUS que o liberte da medicina privada.

Uma história que ganhou impulso recentemente foi a dos candidatos de centro como salvação para os democratas que perderam o controle do Congresso e da Casa Branca em 2024. Nesta narrativa, pouca atenção foi dada à importância do custo de vida através do espectro político. O que pode explicar por que Zohran, o jovem muçulmano esquerdista demais para líderes democratas, quando sua campanha emergiu do nada, empurrou até Donald Trump para se juntar ao desfile da Gaviões da Fiel da acessibilidade.

Medir temperaturas “à esquerda e à direita” dificilmente deve servir de termômetro para a oposição congelada fora do poder neste ano eleitoral americano. Convém evitar clichês como a “maioria silenciosa” que elegeu Richard Nixon no dramático ano de 1968.

Mais números? Analistas de dados apuraram que a importância do centrismo e da moderação para eleitores despencou 80% desde 2000, quando George W. Bush foi eleito de raspão. A balcanização dos americanos é uma realidade que não pode ser enfrentada apenas alinhando itens de agenda no universo de dois partidos.

E os homens jovens que ajudaram a consolidar a vitória republicana na eleição presidencial de 2024? Uma pesquisa considerada de boa qualidade por quem sabe mais do que eu apurou que os rapazes estão profundamente desencantados com o estado das coisas, preocupados com a experiência que vivem, não com arroubos ideológicos.

De acordo com o projeto SAM —acrônimo do inglês “conversando com homens americanos”—, quando consultados sobre política, os jovens “avaliam o desempenho, a justiça e a credibilidade, em vez de posições ideológicas fixas”.



Fonte ==> Folha SP

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