Kyle Chayka é escritor e um dos críticos culturais mais interessantes atualmente. Ele tem uma coluna na prestigiosa revista The New Yorker e dois livros com temas quentes: “Filterworld” (“Mundo-filtro”) e “Longing for Less” (“Desejando Menos”).
Em setembro de 2024, ele escreveu uma coluna que podemos chamar de premonitória. Seu título era: “O desespero dos photo dumps no Instagram”. O termo “photo dump” diz respeito à atividade de pôr múltiplas fotos no Instagram (ou outras redes sociais).
Em vez de fazer uma postagem solitária, a ideia é criar um “carrossel”, com várias fotos. O objetivo é transmitir não retratos puros e simples, mas comunicar uma “vibe”, um estado de coisas que só um conjunto semialeatório de imagens é capaz de materializar.
No seu artigo, Chayka chega a mencionar que pesquisou com integrantes da geração Z por que tanta gente hoje posta “carrosséis”. As razões são inusitadas. Por exemplo, alguns acham que postar uma foto só é “humilhante”. Outros afirmam que é um “risco social”.
No entanto, a razão maior é algorítmica. O Instagram passou a incentivar ativamente a prática do photo dump, ao permitir até 20 fotos (ou vídeos) em uma única postagem. Não só isso, passou a premiar essas postagens com mais alcance e engajamento.
Uma análise feita pela Hootsuite identificou que posts com “carrossel” têm um alcance em média 1,4 vez maior e levam a até 3,1 vezes mais “engajamento”. Esse prêmio faz sentido não só como experiência (de fato, photo dumps aguçam a curiosidade) mas também ajuda a resolver outro problema: a sede por cada vez mais imagens para treinar inteligências artificiais. Nesse sentido, é muito melhor postar 20 imagens de uma vez do que uma só.
O fato é que os meses de janeiro e fevereiro são aqueles em que uma parte das famílias mais abastadas sai de férias no Brasil. E, por essa razão, essa é também a temporada por excelência dos photo dumps e dos carrosséis.
Como Chayka nos lembra, cada photo dump pode ser lido como uma modalidade de desespero. Seja por visibilidade, seja por reconhecimento, seja até pela busca de escape das próprias férias. Na sociedade do cansaço em que vivemos, tirar férias não é fácil! É um momento de reorganização dos laços de convívio, de mudança de ritmo e de ambiente. Isso leva a emoções afloradas, conflitos e até, acredite, desespero. Tudo porque na maior parte do ano é fácil se entorpecer com a rotina de captura constante da nossa atenção. Quando chega a hora de desacelerar e encarar a si mesmo e aos outros, percebemos o quanto estamos sem prática em direcionar nossa atenção com intencionalidade real.
É nesse momento que fazer um carrossel nas férias é terapêutico. Dá um alívio. Você projeta suas vivências fora da rotina e recebe comentários reconfortantes de conhecidos e desconhecidos. Só que essa é uma terapia dos infernos, na verdade. Serve apenas para lembrar que os momentos de intensidade real durante as férias são passageiros. E que logo estaremos capturados novamente pelo cansaço dos algoritmos.
READER
Já era – Postar uma só foto
Já é – Postar carrosséis, especialmente durante as férias
Já vem – Postar imagens “embelezadas” por inteligência artificial
Fonte ==> Folha SP


