Acuada, a pantera se coloca em posição de defesa. Ela não ataca, protege. Por isso, a pantera negra foi escolhida como símbolo e nome do Black Panther Party, fundado em 1966, em Oakland, na Califórnia, em um momento de violência policial sistemática contra a população negra nos Estados Unidos.
A proposta inicial do partido era monitorar ações policiais em bairros de maioria negra para impedir abusos. Como o porte de armas era, e continua sendo, permitido no país, carregavam revólveres e escopetas à mostra. Grupos seguiam viaturas policiais, e quando um jovem negro era abordado, os panteras negras se aproximavam, armados, dizendo que conheciam a lei e que estavam ali para observar.
Naquele contexto de prisões arbitrárias, espancamentos e assassinatos cometidos por policiais, a presença organizada de cidadãos armados teve um efeito importante para proteger a comunidade negra. E, como era de se esperar, tornou-se alvo do Estado.
Na noite de 28 de outubro de 1967, Huey P. Newton, um dos fundadores do partido, foi abordado por policiais. Reportagens da época registram que houve discussão, gritos e, em poucos instantes, tiros foram disparados. O policial John Frey morreu no local. Outro agente e Newton foram baleados e levados ao hospital. Newton saiu do atendimento médico para a prisão, acusado de homicídio.
O episódio deu origem à campanha Free Huey, que mobilizou milhares de pessoas dentro e fora dos Estados Unidos e projetou o Black Panther Party. Em 1968, Newton foi condenado por homicídio culposo, mas a sentença foi anulada. Após novos julgamentos, todas as acusações foram retiradas em 1970.
Reduzir os Panteras Negras às armas é repetir uma caricatura construída por seus adversários. Somados à autodefesa, o partido organizou os chamados programas de sobrevivência, com a distribuição de cestas básicas e roupas, alimentação gratuita para crianças antes da escola, clínicas comunitárias com consultas e exames, formação política e alfabetização. Fome, doença e abandono estatal também são, afinal, violência.
Essa combinação de organização comunitária e enfrentamento direto fez do partido um alvo prioritário do Estado. O FBI enquadrou os Panteras Negras como ameaça interna e não poupou esforços para o enfraquecimento do partido até sua dissolução, na década de 1970: infiltrações, campanhas de difamação, prisões em massa.
Angela Davis, presa em 1970, foi julgada por conspiração e absolvida em 1972, após uma campanha internacional por sua libertação. Assata Shakur foi condenada, escapou da prisão e recebeu asilo político em Cuba em 1984, onde morreu em setembro de 2025. Mumia Abu-Jamal segue preso ainda hoje, desde 1981, condenado pelo assassinato de um policial em um caso amplamente denunciado por irregularidades processuais.
Símbolo de resistência, os Panteras Negras têm sido especialmente evocados depois do assassinato de George Floyd, em 2020. E agora, com a exacerbação da atuação violenta e arbitrária do ICE de Donald Trump, diferentes grupos têm se inspirado no método de autodefesa coletiva do partido. Um deles até se autodenomina os Novos Panteras Negras.
Fonte ==> Folha SP


