16 de fevereiro de 2026

Bad Bunny, Carney e Seguro entram em um bar – 16/02/2026 – Mafalda Anjos

Artista vestido de branco está em pé sobre o capô de um veículo antigo, apontando para cima com a mão direita. Ao redor, grupo diversificado de pessoas com roupas em tons terrosos dança e levanta os braços. Ao fundo, multidão grande em arquibancada e vegetação alta

Ainda estamos em fevereiro, mas já há dois homens com entrada direta na lista das comunicações políticas mais marcantes de 2026, e eles não poderiam ser mais diferentes: Mark Carney e Bad Bunny.

Comecemos pelo primeiro. O primeiro-ministro do Canadá, em seu discurso histórico feito em Davos, em janeiro, explicou de forma eloquente ao mundo que a velha ordem mundial baseada em regras foi pelo cano e que está na hora de acordar e reagir. Carney deixou claro que pior do que não ter projetos é não ter princípios nem coragem para defendê-los. Sim, os poderosos têm força, mas os mais fracos têm a força de seus valores.

Sua mensagem foi contundente. Ele defendeu que, juntas, as nações menores podem fazer frente a uma grande potência. A proposta é clara: uma coalizão de vontades entre países com interesses e ideais comuns para construir algo “maior, melhor, mais forte e mais justo”.

Chegou fevereiro e espectadores dos quatro cantos do planeta viram Bad Bunny arrasar no Super Bowl. O que o porto-riquenho fez foi muito mais do que um show latino sensual –foi uma brutal declaração política. E do modo como as declarações políticas funcionam melhor: atingindo diretamente o coração, por meio da música e da alegria (vale conferir esta coluna do Rodrigo Tavares). Convém lembrar que Porto Rico foi adquirido da Espanha em 1898 e não é independente. Os porto-riquenhos são americanos e podem circular nos Estados Unidos, mas não votam para a Presidência nem têm representação plena no Congresso. É como se fossem cidadãos de segunda em uma colônia “moderna”.

Com esse pano de fundo, todos os detalhes foram pensados pelo cantor para transmitir uma ideia elementar: a união faz a força. E que a força esteja não com a “América” abominável e ensimesmada de Trump, mas com esta América imaginada por Bad Bunny – multicultural, onde cabem todos os países do continente, desde o extremo sul do Chile até o extremo norte, no Canadá. No telão, em letras garrafais, a frase mais memorável dessa elocução: “A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”. Obrigada, Benito, foi bonito.

Nessa mesma noite, António José Seguro venceu as eleições presidenciais em Portugal. Não, o presidente eleito Seguro não fez um discurso de vitória marcante para a História (e sou quase capaz de apostar um dedo mindinho como nunca o fará). Sua força é outra, a segurança da mais absoluta normalidade. Ele se beneficia da anormalidade dos tempos e dos adversários.

Seguro foi eleito por mérito próprio, porque como socialista democrático conseguiu unir à sua volta pessoas com ideologias muito diferentes, da esquerda radical à direita moderada (comunistas, esquerda moderna, liberais, sociais-democratas) e assim obter 66% dos votos. Mas foi também eleito pelo evidente demérito do rival único, André Ventura, o homem da direita radical que exalta o ditador português Salazar e propõe levar o país de volta ao passado, a um autoritarismo conservador. Sua vitória foi uma declaração de amor dos portugueses à moderação.

O que é que Seguro tem em comum com Bad Bunny e Mark Carney? A ideia de junção de vontades contra um inimigo comum. Se os três entrassem num bar, por mais diferentes que fossem, tenho a certeza que se entenderiam.



Fonte ==> Folha SP

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