18 de abril de 2026

Não temos certeza de como educar os mais jovens – 01/03/2026 – Luiz Felipe Pondé

Ilustração de Ricardo Cammarota foi realizada em técnica manual com pincel e nanquim sobre papel e colorizada digitalmente, em composição horizontal. Sobre fundo branco liso, sem textura aparente, ocupa a área central da imagem a figura de um lápis disposto na horizontal, com a ponta voltada para a esquerda. O corpo do lápis é amarelo, dividido por sulcos longitudinais marcados por traço preto. A ponta apresenta madeira em tom bege claro e grafite preto. Na extremidade direita, no lugar da borracha, há a representação de um cérebro humano em tom rosado, contornado por traço preto espesso. Entre o corpo do lápis e o cérebro há uma peça cilíndrica em azul acinzentado, com linhas verticais e horizontais que sugerem o encaixe metálico tradicional de borracha. O cérebro apresenta sulcos e dobras definidos por linhas pretas, com variações de tom rosado indicando volume

Os pais e educadores estão perdidos quanto a como educar os filhos e alunos já há algum tempo. Já no período após a Primeira Guerra Mundial, educadores britânicos se mortificavam diante do impasse de como eles, a geração que havia feito o massacre da Primeira Guerra, teriam alguma moral para “ensinar” valores aos mais jovens. Síndrome fóbica prevendo o surgimento da mini-inquisidora Greta. Quem em sã consciência dá ouvidos a uma menina mimada e entediada?

Esse drama segue até hoje, com consequências que beiram o ridículo. Muitos pais seguem especialistas em parentalidade nas redes, buscando alguma chave mestra de como fazer dos seus filhos pessoas melhores. O que dizer sobre isso? Pobres diabos eles são, e pobres diabinhos dos seus filhos, vítimas de todo tipo de moda de comportamento idiota que assola o mundo.

A verdade a ser dita é que, se pensarmos a história na sua longa duração, incluindo a pré-história, veremos que, se esta longa duração fosse um ano, a ciência da educação teria surgido no último segundo. O que essa analogia quer dizer?

Quer dizer que não temos nenhuma grande certeza de como educar os mais jovens, além de muitas teorias contraditórias cheias de blá-blá-blás ideológicos de todo tipo. Cada um inventa o seu, fatura grana com a besteira que inventou ou gasta dinheiro comprando esta mesma besteira. Educação é um dos terrenos no qual mais oportunismo existe.

Isso tudo porque não temos muita certeza de como funciona a relação de causa e efeito entre o que fazemos como educação dos filhos ou alunos e no que eles se transformam. Quem tem filhos ou é professor, e não mente por razões de marketing pessoal ou institucional, sabe.

Em matéria de filhos, quase todos os clichês são verdadeiros. Alguns clichês são ótimos, antídotos contra o monte de conversa fiada por aí. Se seus filhos andarem com jovens drogados e sem rumo, a chance de eles ficarem iguais é razoavelmente enorme. Que gritem os inteligentinhos que enganam os outros por aí: “preconceito!”. Deixe a caravana passar.

Jovem que não estuda, normalmente, ganhará menos ou virará vagabundo. Mesmo que os picaretinhas da internet digam por aí que não precisa estudar para ficar rico. Primeiro, o fundamental na vida é conseguir pagar as contas, e não ficar rico. Porque ficar rico é difícil, principalmente se você for honesto.

Filhas, normalmente, exigem mais cuidado do que filhos. Sei, sei. As feministas odeiam isso, mas é fato. Prova é que a violência contra as mulheres é fato. Filhas engravidam, filhos não. Esse clichê chega a ser científico.

Deus ajuda a quem cedo madruga. Ponha isso à prova na vida e verá a força da indiferença de Deus por você. Disclaimer: a frase anterior contém ironia, apesar de que, desconfio, há boa teologia por trás dela.

Sabemos sim que se faz necessário ensinar aos mais jovens modos, a comer de boca fechada, tomar banho todo dia, escovar os dentes todo dia, lavar as mãos antes das refeições, ensinar aos meninos que não devem bater nas meninas, respeitar os mais velhos —este tópico está sob forte crítica, partindo mesmo de especialistas titulados em pedagogia e psicologia que julgam os mais velhos verdadeiros poços de preconceitos e estupidez.

Para além da educação que visa modos e costumes como os acima citados, há que se educar os mais jovens de modo a ensinar-lhes geografia, história, matemática, saber escrever corretamente, gosto pela leitura, pelas ciências.

Quaisquer outras coisas além disso, entramos no terreno das modas de comportamento, um lixo criado pela indústria cultural que colonizou a educação.

Bater nos filhos faz mal. Sei, você apanhou e está bem. Mas, antes de tudo, quem lhe disse que você está bem? Violência contra as crianças é mais uma forma de sofrimento, e elas, seguramente, sofrerão muito, como todos nós.

Ruim com a família, pior sem ela. Há família que é uma desgraça mesmo. Mas, quem ouve especialistas por aí, tem a impressão de que se arrumam “famílias por escolha” assim como quem escolhe desodorante sem lactose.

A verdade é que não sabemos com segurança como educar os mais jovens porque, na quase totalidade do tempo da espécie, nunca se educou ninguém.

Enfim, diante dessa ignorância estrutural, a modernidade criou um problema a mais. Isso porque a modernidade assume que tudo o que veio antes dela é lixo ultrapassado, só o que interessa é inovação –palavra brega toda vida, evite usá-la.

Cada geração deverá ser educada pela picaretagem da última geração. Para cada novo iPhone, uma nova pedagogia disruptiva. Pobres crianças.



Fonte ==> Folha SP

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