A terceira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada na quarta-feira (4), recolocou o caso do Banco Master no centro do debate público. A nova prisão preventiva de Daniel Vorcaro, sua transferência para um presídio federal de segurança máxima e, sobretudo, as mensagens extraídas de seu celular revelaram um banqueiro com trânsito livre entre os três Poderes. A dimensão do escândalo, que envolve fraudes bilionárias, elevou a pressão sobre o sistema político brasileiro e aumentou a expectativa da população sobre os próximos capítulos.
Segundo os dados da Palver, que analisa em tempo real mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram, o tema dominou as conversas de política nos últimos dias, com aumento das mensagens entre 6 e 8 de março. A narrativa mais expressiva, presente em cerca de 20% das menções sobre o tema, gira em torno da relação entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, impulsionada pelas revelações de que ambos teriam trocado mensagens no dia da primeira prisão do banqueiro. O tom crítico a Moraes prevalece amplamente, e entre as menções que citam o ministro, mais de 30% contêm termos explicitamente hostis. Outra narrativa popular, com pouco mais de 13% das mensagens, é o enquadramento do caso como escândalo do governo Lula, explorando o encontro que o presidente teve com Vorcaro no Planalto em dezembro de 2024.
Nos grupos mais à direita, o caso é tratado como a confirmação de que existe promiscuidade entre o poder e o sistema financeiro, com Lula no centro. As mensagens exploram o fato de que Lula se reuniu com Vorcaro em um encontro no Planalto fora da agenda oficial, e que supostamente teria aconselhado Vorcaro a manter o banco. Nos grupos monitorados pela Palver, a narrativa antigovernista frequentemente associa o Master ao escândalo do INSS, construindo a imagem de corrupção sistêmica sob o governo petista.
Há, contudo, uma fragilidade nessa narrativa. As mesmas mensagens que expõem a entrada de Vorcaro com o governo revelam relacionamento com figuras da direita. O uso de um jatinho ligado ao banqueiro pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) durante a campanha de Bolsonaro em 2022, por exemplo, gerou repercussão nos grupos e forçou o campo conservador a ajustar o discurso. As mensagens que citam o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), também foram exploradas nos grupos. A Palver identificou que cerca de 5% do debate trata o caso como um problema que atinge a todos os lados, mas essa é uma narrativa minoritária, ainda que esteja em crescimento.
A disputa entre Moraes e o jornal O Globo sobre a autenticidade das mensagens e a morte de “Sicário”, homem de confiança de Vorcaro, dentro da Superintendência da PF em BH, serviram para aprofundar a crise de credibilidade do STF, e nos dados da Palver é possível observar que os pedidos de impeachment de Moraes começam a ganhar volume, com vozes de esquerda e direita convergindo na crítica à Corte.
O caso revela que Vorcaro era um operador que transitava entre situação e oposição, distribuindo presentes, jatos e, segundo a PF, intimidação. A tentativa de cada lado de instrumentalizar o escândalo contra o adversário esbarra no fato de que as mensagens comprometem a todos. O vazamento das informações é preocupante, pois oferece apenas uma parte da história e favorece a espetacularização, podendo conter um elevado risco eleitoral, a depender do que vaza e quando vaza. Se não for manuseado com cautela, o caso pode resultar em um final semelhante ao da Lava Jato.
Fonte ==> Folha SP


