10 de abril de 2026

Chegou a hora de abraçar gente estranha – 09/04/2026 – Tati Bernardi

Mão pressionando botão verde em urna eletrônica com tela exibindo a palavra

Está se aproximando mais um Fla-Flu intensíssimo, e lá vou eu gostar de gente de quem, fora do contexto “período eleitoral”, não gosto tanto.

Este ano eu realmente sinto que amo toda e qualquer pessoa de esquerda. Já me vejo na Paulista imersa em uma ciranda afetiva até com aqueles que se dizem “atravessados” pelas palavras “saberes”, “pensares” e “agires”. Posso fazer até fotos sensuais em muros com dizeres de poesia urbana.

Venham com seus maxis colares de madeira ou fios de algodão bicolor! Ah, ela tem sete gatos, e só de chegar perto sinto a asma tomar minha alma! Tudo bem, moça, eu sou toda sua.

O que essa herdeira filha de sociólogos faz aos 39 anos? Ainda não descobriu, mas parece que, ao ressignificar a máquina de costura da avó, vem coisa por aí. Algo como ressignificar seus próprios paninhos e falar “pesponto” como quem ressignifica Émile Durkheim. Que potência!

E o filho de artistas que estudou história da arte na Itália e nunca fez nada com isso? E que depois cursou cinema em Cuba e nunca fez nada com isso? Nem um único rabisquinho ou frase em seu caderno kraft personalizado. Farei uma crônica contra ele? Jamais. Eu quero amá-lo, protegê-lo. Consigo me ver até meio a fim desse partidão.

Ah, os amantes das letras encharcados de empáfia porque finalmente sua página no Substack cresceu de 40 para 43 leitores. Lá eles dizem a verdade sobre a diferença entre a alta literatura e o imundo mercado do dinheiro. Lá eles explicam por que se negam a ser publicados em editoras e mídias em geral (por que não conseguiram?). Este ano eu poderia levantá-los no colo, niná-los, botá-los para dormir.

Em qualquer outra época do ano preciso conter, verbal e literariamente, meu imenso potencial destrutivo direcionado àquela turma com empregos que jamais entenderemos —”facilitadora de processos interpessoais de dinâmica organizacional” ou “mentora afetiva de comunicação intuitiva de processos”—, contudo, neste exato momento, estou me matriculando em todos esses cursos.

Pois me abracem com suas axilas protegidas por desodorante em barra, sem alumínio e com aroma de verbena! Aos mestrandos endereçando seus temas e mobilizando seus argumentos com pequenos parênteses —”Uma análise da (in)submissa (des)ordem dos (corpo)líticos em (des)troços”—: em qualquer outro ano eu desejaria (des)istir, mas, em 2026, chego a me emocionar, e adoraria encadernar seus estudos com o (c)ouro de minha pele.

A galera dos brasis. São muitas histórias, portanto, de muitos brasis. “Por” óbvio! Eu vou dizer que não? Este ano sou só mansidão agregadora. Querem dormir aqui em casa? É um momento tão atípico que eu chego a sentir falta de pertencer a algumas salas bem frequentadas, aquelas em que, se você ousa ir ao banheiro do anfitrião, descobre tanto esnobismo e moralismo que sua fé na humanidade periga ir pelo ralo.

E a ala feminista que desconsidera a luta de mulheres trans? E os antissemitas que aplaudem o bar carioca que proíbe a entrada de judeus? Podem vir? Jamais! Por mais apavorados que estejamos com uma possível volta da extrema direita, seria indecente fechar os olhos para as imundícies do nosso campo.

Uma vez um camarada muito querido de um desses brasis-progressistas me escreveu para dizer que sempre que eu fazia críticas à esquerda ele precisava se controlar para não ligar para o jornal e, fazendo uso do seu poder de homem-branco-acadêmico, pedir minha cabeça. Mas este ano, que perigo, sou eu que quero a sua cabeça! Vou tatuar sua face na minha virilha, amor!



Fonte ==> Folha SP

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