A Casa de Mainha, em Feira Nova, no Agreste pernambucano, levou a arquitetura feita no interior do Nordeste ao topo de uma das premiações mais conhecidas do setor. O projeto do arquiteto Zé Vagner venceu o ArchDaily Building of the Year 2026 na categoria Casas, com uma reforma que nasceu longe da lógica de mercado: a intervenção foi feita na casa onde ele cresceu, construída pelos próprios pais na década de 1980.
Ao longo dos anos, como tantas moradias erguidas aos poucos, a casa foi recebendo puxadinhos e adaptações para dar conta das mudanças da família. O resultado foi uma construção com pouca ventilação e iluminação insuficiente. Em 2022, Zé Vagner decidiu reformar o imóvel para a mãe, Dona Marinalva, preservando as paredes originais de adobe e concentrando a intervenção na fachada e nos espaços de convivência.
A obra da Casa de Mainha partiu de soluções simples e com elementos do próprio território: ventilação cruzada, iluminação natural, uso de materiais locais e uma execução protagonizada por profissionais da região. Mais do que atualizar a casa, o projeto procurou reorganizar o que já existia, respeitando a memória material e afetiva da família e respondendo ao clima do Agreste.
Em entrevista ao programa Bem Viver, do Brasil de Fato, Zé Vagner rejeita a ideia de que a Casa de Mainha tenha surgido para servir de exemplo ou em busca de prêmios. O ponto de partida, diz ele, era concreto: fazer uma arquitetura boa com pouco, sem excesso, e capaz de melhorar a vida de quem mora ali. “A arquitetura é agente de qualidade de vida”, afirma.
Ao falar da reforma, o arquiteto também desloca o debate sobre sustentabilidade para longe das fórmulas mais espetaculosas. Em vez de buscar materiais de fora ou soluções caras, ele defende a redução de danos, o aproveitamento do que o território já oferece e o reconhecimento de saberes populares muitas vezes desvalorizados. “Dá para fazer arquitetura com pouco. E uma arquitetura boa, que atende às necessidades de quem mora lá”, resume.
Brasil de Fato: Como a sua trajetória conecta o saber acadêmico com as suas raízes no agreste pernambucano? E o que te levou a apostar na Casa de Mainha?
Zé Vagner: Eu acredito que houve uma dicotomia entre o lugar em que eu estava e o lugar de onde eu vim. E isso era o que me perturbava muito na faculdade, nesse rolê inteiro.
Eu lembro de um mercado de trabalho muito excludente, muito elitista, muito grupinho, sabe? Então, eu tinha que me encaixar, eu tinha que vestir aquela roupa para poder participar dessa sociedade da arquitetura. E isso me incomodava muito.
Eu pensei e tentei por muito tempo vestir essa roupa que não era minha para me encaixar nesse mercado. E, quando eu parei de fazer isso, foi uma das melhores coisas que eu pude fazer por mim, que foi voltar, dar alguns passos para trás, voltar mesmo para o interior, entender minha realidade, entender onde eu estava, o que fazia sentido para a minha vida.
Foi nesse momento que eu entendi que eu posso fazer arquitetura boa, e essa arquitetura boa pode tocar gente que nunca seria tocada pela arquitetura.
E, quando tu começaste a fazer essa trajetória de fazer uma arquitetura boa voltada para a tua gente, tu imaginava que ela seria reconhecida mundialmente?
Eu não imaginava, na verdade. Inclusive, esse prêmio que a gente ganhou partiu inicialmente de uma curadoria do site. Eles enviaram e-mail para a gente falando: “Ó, posta esse projeto, né? Submete esse projeto”.
Então, por que eu não imaginava? Porque, se você olha, você abre lá no ArchDaily, você vai ver o site, nada se parece com a Casa de Mainha. Então, naturalmente, eu pensei em expor aquilo para conseguir clientes. Eu estava morando em Feira Nova, Feira Nova não tem o mercado de arquitetura aquecido, e eu precisava pagar as contas.
Eu não esperava que a gente fosse chegar tão longe e em tão curto tempo. E ver isso acontecendo é muito gratificante, porque tem muitas nuances. Tem a minha mãe, que ganhou um lugar legal para viver; tem as pessoas, que enxergam aquilo como algo que pode ser para mim também, né? E a arquitetura é um negócio de um nicho, de um lugar muito exclusivo, né?
Tu disseste que a divulgação do teu trabalho tinha um objetivo bem concreto, que era conseguir mais clientes. Mas essa comunicação acabou quebrando várias bolhas e, de alguma forma, te transformou em inspiração para outras pessoas que talvez pensem em seguir um caminho parecido.
Isso é louco, porque eu sou tão estudante quanto qualquer um. E, às vezes, as pessoas chegam e dizem: “Poxa, eu estou emocionado porque estou falando contigo, enfim, eu quero chegar onde você chegou”. Aí eu fico pensando: poxa, às vezes a gente não tem muita dimensão disso tudo, né? Dos lugares a que a gente conseguiu chegar.
Mas é legal. É legal porque esse projeto não é um projeto caro, feito para uma pessoa que tinha muitas condições e disse: “Ó, faz aí que o céu é o limite”. Não. Foi para uma pessoa que nem sabia o que estava construindo.
No caso, minha mãe. E foi um projeto muito simples, de um viés muito humano. A gente mexeu na memória da minha família, entendeu o espaço, como ele funciona, respondeu a questões de clima, de cultura. Eu consegui usar, na arquitetura, uma lajota de forno de casa de farinha. Quando é que eu ia imaginar que isso ia acontecer?
Minha cidade é a terra da farinha de mandioca. Então, eu acho que fiz um trabalho legal.
E como foi o processo de estudo para encontrar essas soluções combinadas que tu usaste ali, para criar um ambiente que remetesse à memória da tua família e, ao mesmo tempo, fosse termicamente agradável dentro de um contexto caloroso como o do Nordeste brasileiro? Como foi esse processo de pesquisa?
Eu confesso que, desde a faculdade, desde que fui apresentado ao barro, por exemplo, eu me encantei. Quem é que nunca brincou com terra? Eu acho que a terra é um material até muito lúdico para criança, né?
Então, quando eu vi pela primeira vez uma taipa, eu disse: “Poxa, é isso aqui. Isso aqui me emociona”.
Se você vai projetar no espaço, você traz a sua experiência, né? O caminho que você percorreu, o que você acha relevante.
Então, esse estudo não foi para um projeto específico. Foi uma coisa de vida, de um caminho que eu venho fazendo desde que comecei a estudar arquitetura. E ali eu tive a oportunidade, por ser a casa da minha mãe… E olha que eu não consegui colocar tudo o que queria, mas tive a oportunidade de experimentar.
Eu digo que o projeto foi um laboratório. Eu pude aprender e errar. Então, não foi algo em que eu tinha um projeto antes e agora vamos executá-lo. Não. Era o pedreiro derrubando a parede e eu no computador, ali, refazendo o projeto, fazendo novamente, criando.
Foi uma coisa bem laboratorial mesmo. Acho que a palavra é um pouco essa.
Foi um laboratório que a gente foi desenvolvendo, com todo mundo ajudando. Teve pedreiro que trouxe ideias, teve eu, teve até a minha mãe também, que não entende muito de arquitetura. E a gente foi construindo.
Os materiais que a gente utilizou, se você pega ali num raio de 11 quilômetros, tem tudo o que a casa precisava. Então, não foi porque eu queria fazer uma arquitetura local, com pedreiro local, não sei o quê. Não.
Foi porque não tinha dinheiro. Então, era uma realidade que estava ali, não tinha o que fazer. E, em vez de a gente, diante dessa dificuldade, paralisar e dizer “não dá para fazer”, a gente usou alternativas diferentes.
E hoje, fazendo uma reflexão sobre as alternativas diferentes e pensando em sustentabilidade, arquitetura para o futuro, longe dessa ideia de buscar materiais do outro lado do mundo, tu achas que tu estás dando um exemplo daquilo que deve ser pensado como construção de moradias para o futuro?
A intenção não era dar um exemplo, não, sabe? Não tinha essa pretensão de um exemplo. Mas eu acho que é talvez uma discussão que vale a pena fazer.
Um dos princípios que eu utilizei na arquitetura, que não fui eu que criei, é construir com pouco, né? Entender que não precisa do exagero para sair um negócio bom. A gente… existem diversas formas de você impactar melhor o mundo, e uma delas é você reduzir, não ir para o excesso.
Porque se subentende que, enfim, fazer uma casa que é ecológica ou que tem uma relação melhor com o planeta é construir uma casa na árvore, enfim… Não. É também, mas assim…
Se eu utilizo um material, por exemplo, na minha construção, que teve menos queima, teve menos árvores para poder queimar o material, isso também é sustentabilidade, né? Isso também é reduzir o dano.
Então, a Casa de Mainha foi por esse lado. Não foi um lugar de “vou construir um lugar que não…”. Não. Foi reduzir o dano também.
A gente entende que os materiais que se utilizaram ali já estavam ali. Eles já eram adaptados ao espaço, e as pessoas dali não enxergavam valor nisso. Então, que bom que houve esse momento em que a gente pudesse dizer que dá para fazer bom com o que é dali, né?
Eu acho que tem essa conversa também, esse projeto.
E a casa ficou fresquinha?
Ficou. Ficou fresca, o vento entra, sobe, desce. A gente conseguiu deixar a casa fresca. A gente tem sol 12 horas por dia, assim. A gente liga iluminação elétrica quatro horas por dia, porque a casa está iluminada pelo sol.
Antes, a gente precisava ligar a luz ao meio-dia para tentar enxergar alguma coisa na sala. Hoje é outro rolê.
Existe uma ideia de que o sol é inimigo. Bom, mas você não vai brigar com o sol. Então, ou ele vira parte do projeto, ou você usa ar-condicionado, né? Ou vira as costas para isso.
E o que a gente fez foi uma casa bem iluminada. Pelo sol, a gente sabe que horas são, sabe o horário.
E isso já foi até Nobel da Medicina, essa questão do ciclo circadiano. O despertar, o sol de meio-dia é uma cor, o sol da tarde é outra. Então, a casa sabe onde o sol nasce, onde o sol se põe.
E a gente, que está morando e habitando ali, também tem esse benefício de ter luz. Isso é impactar melhor o mundo, né? Então, eu não vou precisar de luz elétrica de dia. O sol já está ali, é de graça.
A gente tem várias políticas públicas voltadas para a moradia, mas elas nem sempre se conectam com os lugares da forma como tu pensaste essa casa. Tu consegues ver esse tipo de arquitetura ganhando escala, virando política pública e entrando em programas como o Minha Casa, Minha Vida para melhorar a vida de mais pessoas?
Eu não sei até que ponto a gente consegue escalar isso e continuar sendo legal, sabe? Porque existe um outro fator, que é a necessidade individual da pessoa. Tu tens uma necessidade, eu tenho outra. E escutar isso, e trazer isso para a arquitetura, é um desafio. Talvez seja possível escalar de uma forma que contemple essa necessidade de cada pessoa, mas é um desafio.
Já vi algumas coisas legais de construção em massa, mas o que a gente vê por aqui é justamente o oposto disso. Se constrói muito de forma inadequada, e em coisas básicas que as pessoas não utilizam. Tipo: você intervir no espaço sem entender de onde o sol nasce, de onde o sol se põe. Então, as casas já nascem ruins para uma necessidade básica, imagine para uma necessidade específica.
É difícil olhar para o que estão fazendo hoje em habitação popular em grande escala, mas eu acho que vale a pena refletir, conversar e tentar chegar nesse lugar. É honroso, dá trabalho, mas pode funcionar.
A arquitetura é agente de qualidade de vida. Ela melhora o dia de alguém, pode melhorar a vida das pessoas. Eu lembro de uma coisa muito louca: eu morei numa casa em que dividia o quarto com meu irmão, e a gente não tinha nem escrivaninha, não tinha um lugar para estudar.
Depois, quando fui para Recife, conheci pessoas que tinham uma condição bem melhor. Eu cheguei no apartamento de um amigo meu e disse: “Meu irmão, se eu nascesse nesse apartamento, se fosse criado aqui, eu era outra pessoa”.
Então, o lugar molda quem habita. É um pouco disso: essa sensação de que, poxa, dar as ferramentas para que as pessoas possam até se desenvolver melhor. Eu acho que a arquitetura tem esse papel.
Tu te baseaste no conceito de arquitetura tropical?
Tem um livro que eu indico, que é Roteiro para Construir no Nordeste. E o subtítulo é Arquitetura como lugar ameno nos trópicos ensolarados. Então, a gente está num lugar que tem uma especificidade própria.
Você não pode olhar para a Europa, pegar um modelo de lá e colocar num lugar desses, porque não vai funcionar. A arquitetura é essa adaptação, esse olhar para um lugar que tem características próprias.
Uma arquitetura em escala também deveria olhar para isso. Não é só copiar um modelo que foi feito, sei lá, no Sul, e aplicar no Nordeste. Não vai funcionar. Isso é básico.
Isso nem entra ainda num parâmetro de uma arquitetura mais personalizada.
Não sei se tu chegaste a ver, mas o João Gomes contou no Roda Viva que comprou um terreno e disse que não se vê naquelas casas quadradas, sem cara de Brasil. Falou de uma casa de alpendre, de uma casa com cara de Nordeste. Quando eu ouvi isso, fiquei pensando: em algum momento tu pensaste “eu faria uma casa para o João Gomes”?
Até hoje o pessoal marca João Gomes nas minhas coisas. Se eu fosse João Gomes, já estaria abusado de tanta marcação.
Isso também partiu de uma inquietação minha. No início, eu olhava para essas que o pessoal falava “Olha que casa bonitona”, mas, no fundo, eu só via uma casa monumental.
As pessoas usam o artifício do monumento para impressionar. Aí entram ego humano, outros quesitos. Tem que ser grande para impressionar. Mas uma caixa de fósforo grande também impressiona. E continua sendo só uma caixa de fósforo.
Então, a monumentalidade está disfarçando uma arquitetura precária, que não resolve o humano, não responde à necessidade humana individual. Aquela casa quadradona em nada toca a realidade de João Gomes. Não financeiramente, mas afetivamente mesmo, no que ele entende como casa no mundo.
E que bom que João Gomes falou isso. Porque uma coisa sou eu falando, outra coisa é João Gomes. Então, as pessoas começam a repensar.
E não se trata de trocar o modelo da casa quadrada pelo modelo de alpendre. Vai muito além dessa discussão. É resolver as condicionantes que envolvem todo o lote, e isso muda de um lugar para o outro. Às vezes, um alpendre não faz muito sentido em outro canto. É um pouco disso.
Agora, com o sucesso da Casa de Mainha, com teu nome mais conhecido e novas conexões surgindo, o que tu estás sonhando para o teu futuro, mas também para um futuro mais coletivo, naquilo em que possas interferir de forma positiva?
Eu quero construir mais, eu quero fazer outras Casas de Mainha, eu quero construir meu escritório, eu quero mudar a minha rua. Eu mudei um lote, eu posso mudar uma rua. Dá mais trabalho? Dá. Por consequência, a cidade. Enfim, a gente quer mudar o mundo, né?
Começou só pela Casa de Mainha, mas a ideia é melhorar o mundo, né?
E tem mais:
Uma tradição que honra os ancestrais e mantém vivos os laços entre passado e presente na China.
No Maranhão, o cuidado da terra vira sustento e autonomia nas mãos de mulheres que cultivam saberes de olho no futuro.
E para que a história não se repita: no Brasil, espaços de memória transformam dor em consciência.
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Fonte ==> Brasil de Fato


