Engenheiros do petróleo migram para energia renovável e viram peça-chave da transição energética global

Brasileiro que atuou no Pré-Sal hoje lidera controle financeiro de projetos renováveis multimilionários na Europa e África

Durante décadas, profissionais especializados em petróleo e gás foram vistos como protagonistas de uma indústria bilionária e estratégica para a economia global. Agora, uma mudança silenciosa começa a redefinir esse mercado: engenheiros, especialistas em offshore, executivos financeiros e técnicos altamente qualificados estão migrando para projetos de energia renovável e se tornando ativos valiosos na corrida global pela descarbonização.

O movimento acontece em meio a uma contradição relevante. Enquanto os investimentos globais em energia limpa seguem em expansão, empresas enfrentam dificuldades para encontrar profissionais preparados para executar projetos cada vez mais complexos.

Levantamento mais recente da International Renewable Energy Agency em parceria com a International Labour Organization mostra que o setor global de energias renováveis atingiu 16,6 milhões de empregos em 2024, novo recorde histórico. Apesar disso, o avanço das vagas foi de apenas 2,3% em relação ao ano anterior, enquanto a capacidade renovável global cresceu em ritmo muito mais acelerado, com adição recorde de 585 gigawatts (GW) em 2024, o equivalente a 92,5% de toda a nova capacidade elétrica instalada no mundo. No segmento eólico, o Global Wind Energy Council aponta que o setor adicionou 117 GW de nova capacidade em 2024, também um recorde histórico. Já a Global Wind Organisation projeta que a indústria precisará de cerca de 628 mil técnicos especializados até 2030, reforçando o desafio global de mão de obra qualificada.

O problema é que construir parques eólicos offshore exige profissionais com experiência rara: operações marítimas complexas, instalação submarina, gestão de contratos bilionários, controle de custos e execução em ambientes de alto risco, competências historicamente concentradas na indústria de petróleo e gás.

Relatório da International Energy Agency mostra que a escassez de trabalhadores qualificados já se tornou um dos principais gargalos da transição energética global. O estudo ouviu mais de 700 empresas do setor, sindicatos e instituições de ensino e identificou que cerca de 60% dos entrevistados enfrentam dificuldades para contratar profissionais qualificados, especialmente em funções técnicas. Segundo a agência, a escassez já começa a atrasar cronogramas, elevar custos e pressionar a expansão da infraestrutura energética global.

É nesse cenário que profissionais vindos do setor de óleo e gás passaram a ser disputados.

Um exemplo é o brasileiro Eduardo Monterisi, executivo financeiro que construiu carreira em grandes projetos offshore ligados ao pré-sal brasileiro e hoje atua diretamente na nova fronteira energética global.

Após trabalhar em operações ligadas à Petrobras, na joint venture entre o Grupo Galvão e a Odfjell Drilling, e atuar em projetos da TotalEnergies dentro da TechnipFMC, ele hoje lidera o controle financeiro de contratos superiores a US$ 500 milhões na Enshore Subsea, no Reino Unido.

Atualmente, Monterisi participa do Senegal Power Compact, projeto superior a US$ 200 milhões voltado à transmissão submarina de energia, além dos projetos Inch Cape Export Cable e Waddensea, ligados à expansão da energia eólica offshore no Mar do Norte.

Segundo ele, a migração entre os setores acontece porque as competências técnicas são muito semelhantes. “Muita gente ainda trata petróleo e energia renovável como mercados opostos, mas operacionalmente existe uma interseção enorme. Projetos offshore exigem gestão de risco, logística marítima, engenharia complexa e disciplina financeira muito rigorosa. O profissional que trabalhou no óleo e gás carrega uma bagagem extremamente valiosa para a nova economia energética.”

Monterisi afirma que a pressão por reduzir emissões está acelerando essa transferência de talentos. “O mundo precisa construir infraestrutura limpa numa velocidade inédita. O desafio é que não existe mão de obra pronta em volume suficiente. O que o mercado está fazendo é reaproveitar profissionais altamente especializados da indústria tradicional para acelerar essa transição.”

Ele também destaca que o desafio vai além da engenharia. “Muita gente olha apenas para a tecnologia, mas grandes projetos renováveis podem fracassar por problemas financeiros. Controle de CAPEX, inflação global de equipamentos, câmbio, cadeia logística e financiamento são fatores decisivos.”

A movimentação também reflete uma mudança no fluxo global de capital.

Segundo a International Energy Agency, os investimentos globais em energia limpa passaram a superar de forma consistente os destinados aos combustíveis fósseis. O levantamento mais recente da agência mostra que os aportes globais em tecnologias limpas alcançaram US$ 2,2 trilhões, aproximadamente o dobro do volume direcionado para petróleo, gás e carvão. O movimento tem acelerado projetos principalmente na Ásia e na Europa, enquanto mercados emergentes, especialmente na África, ainda enfrentam desafios para atrair capital na mesma velocidade.

Para Monterisi, a tendência é que essa migração profissional se intensifique nos próximos anos inclusive no Brasil, que discute a expansão da eólica offshore e novos projetos ligados à transição energética e isto já é um movimento irreversível.

“O petróleo continuará relevante por muitos anos, mas os profissionais que entenderem essa transformação antes terão vantagem competitiva enorme. A transição energética não está substituindo talentos, ela está redefinindo onde esses talentos serão mais valiosos”, afirma o especialista.

Eduardo Monterisi é executivo financeiro especializado em controle de custos e planejamento de megaprojetos de energia e infraestrutura. Atualmente atua como Project Cost Manager na Enshore Subsea, no Reino Unido, onde lidera a governança financeira de contratos superiores a US$ 500 milhões em projetos de transmissão submarina e energia eólica offshore. Com mais de 15 anos de carreira, também passou pela TechnipFMC, com projetos para a TotalEnergies em Angola, pela Logum Logística, onde liderou o refinanciamento de US$ 400 milhões com o BNDES, além de atuar em operações ligadas ao Pré-Sal brasileiro em parceria com a Odfjell Drilling. É engenheiro civil formado pela Universidade Federal de Santa Catarina, com pós-graduação em Financial Planning pelo George Brown College e MBA em Finanças e Controladoria pela Universidade de São Paulo.

 

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