Pressão por redução de custos, entregas mais rápidas e cadeias globais mais complexas faz empresas ampliarem investimentos em tecnologia para controlar operações logísticas em tempo real
Durante anos, a gestão de transportes foi tratada por muitas empresas como uma etapa operacional limitada ao deslocamento de cargas entre fornecedores, centros de distribuição e clientes finais. Hoje, porém, a área passou a ocupar posição estratégica dentro de grandes corporações globais diante do aumento dos custos logísticos, instabilidade geopolítica e necessidade crescente de visibilidade sobre cadeias de suprimentos cada vez mais complexas.
O avanço do comércio internacional, os impactos causados pela pandemia, conflitos geopolíticos e gargalos em portos e rodovias expuseram fragilidades históricas nas operações de transporte. Como resposta, empresas vêm acelerando investimentos em plataformas digitais capazes de integrar fornecedores, transportadoras e áreas internas em tempo real.
Segundo levantamento da Gartner divulgado em 2025, 76% dos executivos de supply chain afirmam enfrentar disrupções mais frequentes hoje do que há três anos, o que tem acelerado investimentos em visibilidade logística, sistemas de gestão de transporte (TMS) e automação operacional. Em paralelo, a consultoria também destacou o avanço das plataformas de rastreamento em tempo real como uma das principais tendências do setor.
O impacto financeiro ajuda a explicar esse movimento. Dados do relatório State of Logistics 2025, produzido pela Council of Supply Chain Management Professionals em parceria com a Kearney e apresentado pela Penske Logistics, mostram que os custos logísticos das empresas nos Estados Unidos atingiram US$ 2,58 trilhões em 2024, o equivalente a 8,8% do PIB americano, reforçando a pressão por operações mais eficientes e maior controle sobre transporte e armazenagem.
No Brasil, o desafio é ainda mais sensível. Dados do Ministério dos Transportes indicam que cerca de 75% das mercadorias movimentadas no país dependem do modal rodoviário, evidenciando a forte concentração logística nas estradas brasileiras. Estudos recentes do setor, como o Atlas CNT do Transporte 2025, também mostram que as rodovias continuam sendo o principal modal de cargas do país, reforçando a pressão por maior eficiência operacional e investimentos em gestão de transportes.
É nesse cenário que profissionais especializados em implantação de projetos de gestão de transportes ganham espaço dentro das grandes companhias.
Na Siemens Energy, Julia de Macedo Soares da Silva atua justamente nessa frente. Com formação em Ciência da Computação pela University of Central Florida e mestrado em Gestão de Engenharia pela mesma instituição, ela trabalha na implementação de projetos globais voltados à gestão de transportes dentro do departamento de logística da companhia.
Sua atuação envolve liderar iniciativas digitais, conectar diferentes áreas da empresa e garantir que projetos complexos sejam implementados sem comprometer o fluxo operacional.
Segundo Julia, um dos principais desafios atuais está na integração entre tecnologia e pessoas. “Implementar tecnologia na logística não significa apenas instalar novos sistemas. Existe um trabalho enorme de alinhamento entre fornecedores, equipes internas, áreas de tecnologia e operações para garantir que a mudança realmente funcione no dia a dia.”
Ela afirma que muitas empresas ainda enfrentam gargalos por excesso de processos manuais e falta de padronização global. “Quando diferentes regiões operam com processos distintos, planilhas paralelas e baixa integração de dados, a gestão de transportes perde velocidade e previsibilidade. A digitalização permite maior rastreabilidade e decisões muito mais rápidas.”
Entre os projetos liderados por Julia está a implementação de um portal global de fornecedores que impactou mais de 5 mil parceiros externos, além da participação no projeto global de transformação logística TM4ALL, voltado à modernização das operações da companhia.
Para ela, a gestão de transportes tende a ganhar ainda mais relevância nos próximos anos à medida que empresas buscam reduzir custos logísticos, ampliar resiliência operacional e responder com mais rapidez a crises internacionais.
O transporte deixou de ser apenas deslocamento físico de cargas. Nas grandes empresas, tornou-se uma operação cada vez mais conectada à tecnologia, dados e estratégia corporativa.


