Moradores se mobilizam pela preservação permanente da mata do Arroio Espírito Santo em Porto Alegre

Uma luta histórica pela preservação da mata do Arroio Espírito Santo, na zona sul de Porto Alegre, volta a ganhar força após a enchente de 2024. Moradores organizados no movimento Preserva Zona Sul defendem que a área verde de 12,9 hectares, à beira do Guaíba e ao lado do Clube do Professor Gaúcho, seja transformada em área protegida permanente, encerrando uma disputa que há décadas opõe interesses ambientais e imobiliários na região.

A mobilização ocorre neste domingo (7), em referência ao Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado nesta sexta-feira (5). A concentração está marcada para as 10h, na Avenida Guaíba com a Rua Déa Coufal, no bairro Ipanema. Às 11h, os participantes saem em caminhada em direção à mata. O ato é convocado pelo Preserva Zona Sul e reúne moradores de Ipanema, Espírito Santo, Guarujá e arredores, além de lideranças e movimentos apoiadores.

O tema voltou ao debate após uma audiência judicial de conciliação realizada no início de 2026. A área, antes associada à Maiojama e ao antigo projeto do Loteamento Ipanema, agora está vinculada à Consplan, que ficou de apresentar um novo projeto para o local. Há uma liminar em vigor desde 2018 que impede o desmatamento enquanto a ação segue em andamento.

O terreno fica em uma região que alagou durante a enchente de 2024. Para os moradores, a água que avançou sobre a área e atingiu casas do entorno reforça a necessidade de tratar a mata, o arroio e as áreas alagáveis como parte da infraestrutura natural de proteção da cidade. A reivindicação é que a área seja preservada por meio da criação de uma Área de Proteção Ambiental (APA), instrumento que depende do poder público e pode estabelecer regras de proteção ambiental para o território.

“Estamos em um momento de retomada da mobilização, depois da pandemia e depois da enchente. A Justiça tem seus ritmos, seus trâmites, e a mobilização é importante em cada momento em que uma decisão precisa ser tomada”, afirma Denise Moreira, integrante do Preserva Zona Sul.

Segundo Moreira, o movimento tem origem na defesa da área onde passa o Arroio Espírito Santo. O antigo Loteamento Ipanema previa a abertura de ruas e a construção de 16 prédios de dez andares no local. “Era um projeto muito grande. Não ia sobrar muita coisa da mata. Quase nada”, recorda.

Ela afirma que a mobilização de moradores foi decisiva para impedir que o projeto avançasse. “Foi a mobilização que impediu o desmatamento e a construção do condomínio”, diz. A pressão da comunidade se somou à atuação de entidades ambientais e às ações judiciais que, ao longo dos anos, mantiveram a área protegida.

O movimento também organiza um abaixo-assinado para cobrar que o poder público transforme a área em APA. A iniciativa busca reunir apoio de moradores e frequentadores da zona sul para pressionar pela preservação da mata do Arroio Espírito Santo e contra a retomada de projetos imobiliários no terreno.

Mobilização dos moradores da região em 2018
Mobilização dos moradores da região em 2018 | Crédito: Divulgação/Preserva Zona Sul

Área alagável

A enchente de 2024 alterou o peso político da mobilização. Moradores passaram a defender que a área seja reconhecida também pela função de retenção natural das águas. O movimento reúne relatos, fotos e vídeos para demonstrar o alagamento da região e sustentar a reivindicação de preservação permanente.

A moradora Dilva Iria Thoma vive há 23 anos na avenida Guaíba, no bairro Guarujá. Na enchente de 2024, relata, a água atingiu a casa e todo o terreno. “Ficamos 45 dias com água dentro de casa”, afirma.

Para ela, a mata do Arroio Espírito Santo protege o entorno. “Ela ajuda contra os alagamentos e também ameniza o calor, como nos dias de 40 graus que tivemos no último verão. Além disso, é uma área viva, onde muitos animais têm morada”, diz.

Thoma mora perto de um valo que desemboca no Guaíba, em uma região que alaga com frequência. Segundo ela, desde 2015, já precisou sair de casa cerca de seis vezes por causa dos alagamentos. “Por isso, acredito que preservar essa mata é fundamental. Todo verde ajuda na proteção da região. Mata viva, sim. Condomínios, não.”

Esquina onde vive Dilva Iria Thoma, no Guarujá, voltou a alagar em 2025, pouco mais de um ano após a enchente histórica de 2024
Esquina onde vive Dilva Iria Thoma, no Guarujá, voltou a alagar em 2025, pouco mais de um ano após a enchente histórica de 2024 | Crédito: Marcelo Ferreira

Moreira também afirma que a defesa da área ultrapassa a preservação estritamente ambiental. “É uma preservação ambiental, mas também da paisagem natural, do estilo de vida e da qualidade de vida. A gente entende que faz parte do meio ambiente”, diz.

A integrante do Preserva Zona Sul aponta que a região já sofre com adensamento urbano, trânsito e pressão sobre serviços públicos. “Quem mora na zona sul sabe que está cada vez pior chegar ao bairro. A região está cada vez mais populosa, e tudo isso passa por aqui.”

Histórico da disputa

A luta pela preservação da área atravessa mais de duas décadas. Após o Conselho Municipal do Meio Ambiente (Comam) decidir pela inadequação ambiental do projeto, a União pela Vida (UPV), que integrava o conselho, denunciou ao Ministério Público que a decisão não havia sido respeitada. A denúncia deu origem a uma ação civil pública que apontou ilegalidades no empreendimento.

Em 2018, a mobilização ganhou novo impulso após a retomada do risco de implantação do projeto. Naquele período, moradores organizaram caminhadas, atos públicos e abaixo-assinados em defesa da mata e do Arroio Espírito Santo. Segundo o Preserva Zona Sul, uma das caminhadas reuniu cerca de 800 pessoas, e o abaixo-assinado chegou a 35 mil assinaturas.

O advogado Marcelo Mosmann, que atua na ação civil pública responsável por suspender o desmatamento da área em 2018, afirma que a mata não corre risco imediato de derrubada. “Não existe risco de desmatamento neste momento. A liminar está mantida, e o processo vai analisar eventual conciliação. Se não tiver, vai para as fases de instrução, audiência e prova pericial”, explica.

Mosmann afirma que o tema voltou ao debate depois que a empresa procurou o Judiciário para apresentar uma nova proposta. Segundo ele, a audiência realizada no início de 2026 foi “uma audiência de conciliação dentro do processo judicial da ação civil pública”.

Segundo o advogado, a proposta está em análise técnica pelas entidades autoras da ação, que avaliam se o projeto respeita as regras ambientais de proteção do arroio, da mata e das espécies ameaçadas. Entre os pontos em discussão estão a área de preservação permanente (APP) do Arroio Espírito Santo, a aplicação da Lei da Mata Atlântica e a presença de espécies ameaçadas.

Preservação permanente

Para o Preserva Zona Sul, a liminar que impede o desmatamento é uma proteção importante, mas nada está garantido até uma decisão final. Por isso, a manifestação deste domingo busca recolocar a área no centro do debate público e defender que o poder público transforme a mata do Arroio Espírito Santo em APA.

Arroio Espírito Santo atravessa a área da mata, deságua no Guaíba e apresenta sinais visíveis de poluição
Arroio Espírito Santo atravessa a área da mata, deságua no Guaíba e apresenta sinais visíveis de poluição | Crédito: Eduardo Quadros

A Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) é uma das entidades que apoiam a mobilização. Presidente da entidade, Heverton Lacerda afirma que a defesa da mata deve ser compreendida dentro de uma discussão mais ampla sobre o futuro urbano de Porto Alegre. Para ele, a cidade precisa garantir moradia digna e infraestrutura, mas sem submeter o planejamento urbano à lógica do setor imobiliário.

“Temos claro que as estratégias de urbanização das cidades não podem ser conduzidas por empresas do setor imobiliário, que têm o lucro como objetivo principal. A lógica de mercado não serve para planejar cidades”, afirma Lacerda. “Uma capital do porte de Porto Alegre já tem condições de assumir uma maturidade urbanística calcada em planejamento público que qualifique toda a cidade, privilegie a boa convivência, sirva às pessoas e dê segurança aos moradores, sem descuidar do ambiente natural.”

Segundo Lacerda, os poucos espaços de ambiente natural que restam na cidade “são alvos constantes do mercado imobiliário” e precisam ser preservados pelos serviços ambientais que prestam. “As áreas de matas e cursos d’água preservadas e cuidadas absorvem as águas da chuva, limpam e climatizam o ambiente”, destaca.

Para ele, a enchente de 2024 deveria servir de alerta. “A falta de planejamento público e a imposição do mercado — agrícola e imobiliário — sobre o meio ambiente resultou na fragilidade de muitas cidades gaúchas frente às últimas enchentes que atingiram o estado. Se tudo o que aconteceu não serviu ao menos de lição para nós, realmente estamos fadados a encarar novos sofrimentos ambientais que poderiam ser ao menos suavizados, se não evitados.”

O Brasil de Fato RS procurou a Maiojama e a Consplan para confirmar a situação da propriedade, a relação entre as empresas e o projeto atualmente previsto para o local, mas não obteve retorno até a publicação.





Fonte ==> Brasil de Fato

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