29 de junho de 2026

Turismo brasileiro precisa ser política de Estado – 29/06/2026 – Papo de Responsa

Cachoeira estreita despenca de penhasco rochoso alto para um poço escuro abaixo, cercada por vegetação verde e árvores em primeiro plano.

As recentes declarações feitas durante a abertura da Fit (Feira Internacional do Turismo do Pantanal) evidenciam um problema que vai além de um episódio isolado ou de um político querendo chamar a atenção.

Elas expõem uma fragilidade histórica do turismo brasileiro: a insistência em tratar um dos setores mais estratégicos da economia nacional como extensão das disputas políticas partidárias e ideológicas do momento.

O turismo não é de direita nem de esquerda. É uma atividade econômica, social e cultural que depende da convivência entre diferentes, do acolhimento e da capacidade de gerar desenvolvimento nos territórios.

Sua matéria-prima é a diversidade. Seu principal ativo é a hospitalidade. É nesse encontro que geramos a transformação positiva que precisamos. Porque afinal, só cuidamos do que amamos, e só amamos o que conhecemos.

Por isso, qualquer tentativa de instrumentalizar o turismo para fins ideológicos empobrece o debate e desvia o foco do que realmente importa: planejamento, qualificação, investimentos, infraestrutura, inovação e sustentabilidade.

A política pública no turismo demanda projetos de médio e longo prazo, algo incompatível com as transições partidárias que geram retrabalho, mal uso do recurso público e, principalmente, frustração de expectativas locais. Mais preocupante é perceber que essa lógica não se limita a discursos. Ela se manifesta também na forma como o Brasil tem tratado institucionalmente o setor nas últimas décadas.

Em 20 anos de existência, o Ministério do Turismo teve cerca de 20 ministros. Em média, um novo titular por ano. A sucessão de nomes, quase sempre resultado de negociações partidárias, revela que o turismo raramente foi encarado como política de Estado.

Não se trata de questionar a legitimidade da política ou defender que apenas turismólogos ou profissionais do setor possam ocupar cargos públicos. Trata-se de reconhecer que áreas estratégicas exigem conhecimento técnico relevante, continuidade e compromisso com resultados, não apenas apadrinhamentos partidários.

É difícil imaginar o Ministério da Saúde sendo constantemente entregue a grupos sem qualquer relação com a saúde pública. No turismo, porém, essa desconexão se tornou naturalizada e esse descaso se repete a nível estadual e municipal.

Enquanto isso, países que transformaram o turismo em ferramenta de desenvolvimento econômico e projeção internacional fizeram exatamente o contrário. Construíram políticas permanentes, estabeleceram metas de longo prazo, fortaleceram instituições e criaram ambientes de estabilidade capazes de sobreviver às alternâncias de poder.

No Brasil, ao contrário, planos são interrompidos, prioridades mudam e programas são frequentemente descontinuados antes mesmo de amadurecer. Falta uma estratégia nacional forte, capaz de atravessar mandatos e de colocar o turismo acima das disputas partidárias.

O setor responde por milhões de empregos, movimenta centenas de atividades econômicas, preserva biomas e possui enorme potencial para reduzir desigualdades regionais, promover inclusão produtiva e valorizar patrimônios naturais e culturais. Mas nenhum país desenvolve plenamente essa capacidade sem planejamento.

O turismo precisa ser pensado em décadas, não em ciclos eleitorais. Precisa de inteligência de mercado, dados, pesquisa, formação profissional e governança. Precisa ser conduzido por critérios técnicos e por uma visão de futuro.

Isso significa reconhecer que governos mudam, mas as políticas públicas devem permanecer. Um destino turístico não pertence a um partido, ideologia ou administração específica. Pertence à sua população e às gerações futuras.

O Brasil reúne condições excepcionais para se tornar uma potência turística mundial. Mas, para isso, será necessário abandonar a lógica partidária.

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Fonte ==> Folha SP

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