Morreu há dias em Nova York o produtor musical Clive Davis, aos 94 anos. Foi o homem mais poderoso da indústria fonográfica quando presidente da gravadora Columbia nos anos 1960 e 1970. O The New York Times, em longo obituário, chamou-o de “um titã” dessa indústria. Eu o chamaria também de predador. Erodiu um legado de 50 anos de música gravada dessa empresa, talvez o mais importante da história.
Antes de Davis, a Columbia criara tudo de revolucionário na história do disco. Foi nela que os singles em 78 r.p.m., com três minutos de duração por face, foram agrupados em álbuns de três ou quatro discos, permitindo que se editassem peças longas, como óperas, sinfonias, musicais da Broadway. Saíram por ela os primeiros álbuns “conceituais”. Em 1948, ela resumiu o álbum de 78s num disco de 33 r.p.m., que, embora coubesse num envelope cartonado, continuou a ser chamado de “álbum”. Foi também a Columbia que batizou esse disco de “long-playing” e só ela podia usar a sigla LP.
A Columbia lançou Bessie Smith, Louis Armstrong, Billie Holiday (aos 17 anos), Bing Crosby, Count Basie, Harry James, Frank Sinatra, Leonard Bernstein, Eugene Ormandy, Vladimir Horowitz, Doris Day, Tony Bennett, Aretha Franklin, Johnny Mathis, Barbra Streisand, Bob Dylan, Simon & Garfunkel, muitos mais. Fez de Dave Brubeck, Miles Davis e até Thelonious Monk grandes vendedores de discos. E sempre manteve seu riquíssimo acervo em circulação, com coleções inestimáveis. Mais do que qualquer gravadora, praticou a diversidade de gêneros e estilos, clássicos e populares.
Clive Davis assumiu a presidência em 1967 e, decidido a fazer da Columbia uma gravadora de rock, acabou com tudo aquilo. Contratou Janis Joplin, Santana, Aerosmith, Rod Stewart, Bruce Springsteen e uma multidão. Ótimo —se, para isso, não tivesse destruído aquela diversidade ao mudar todo o cast. Alguns anos depois, a Columbia, quebrada, foi vendida à Sony japonesa.
Ah, sim, Davis foi demitido em 1973, por usar o dinheiro da empresa para fins pessoais.
Fonte ==> Folha SP


