13 de julho de 2026

Preguiça dos ricos raramente produz pobreza? – 13/07/2026 – Michael França

Multidão caminha por rua estreita com barracas de comércio nas laterais e placas comerciais, incluindo uma do KFC. Prédios altos cercam a área em dia claro.

A pobreza tem muitos inimigos e a preguiça costuma ser o mais conveniente deles.

Segundo o Datafolha, a parcela de brasileiros que associa a pobreza à “preguiça de pessoas que não querem trabalhar” saiu de 22% em 2022 para 40% em 2026. No mesmo período, caiu de 76% para 58% a fatia dos que apontam a falta de oportunidades iguais como explicação principal.

E a resposta mais curta e direta que posso dar à pergunta sobre se é a preguiça que causa a pobreza é: dificilmente.

O esforço individual tem um papel importante, só que ele é relevante dentro de uma estrutura de oportunidades semelhantes. Economistas gostam de separar os fatores que dependem da escolha individual daqueles que chegam antes da escolha. Local de nascimento, renda da família e cor da pele, por exemplo, chegam à vida da pessoa muito antes de qualquer esforço dela. Chamar essas heranças de mérito é forçar a mão.

Porém, existe uma razão para a tese da preguiça ser tão sedutora. Ela economiza pensamento. Se o pobre é pobre porque não trabalha o suficiente, some da conversa tudo que veio antes dele, da escola que teve à família em que nasceu. A culpa cabe no indivíduo. O Orçamento público fica em paz e a consciência dos bem-nascidos também.

A literatura acadêmica tem mostrado, há décadas, que crenças sobre pobreza moldam preferências políticas. Alesina, Glaeser e Sacerdote compararam Estados Unidos e Europa e argumentaram que sociedades que enxergam a pobreza como culpa individual tendem a tolerar menos redistribuição. Alesina e La Ferrara mostraram que a percepção sobre mobilidade futura também pesa, pois quem acredita que pode subir sozinho costuma apoiar menos políticas redistributivas.

Portanto, a disputa sobre a preguiça nunca é apenas uma conversa sobre comportamento, mas é também uma conversa sobre impostos e quem merece um empurrão do Estado.

Experimentos também ajudam a entender o mecanismo. Em estudo sobre esforço, sorte e voto por redistribuição, Lefgren, Sims e Stoddard mostram que, quando as pessoas acreditam que diferenças de renda vêm do esforço, elas reduzem o apoio à redistribuição. Se percebem o papel da sorte, o apoio cresce.

Desse modo, a política social acaba dependendo da história que contamos sobre a origem da desigualdade. E, no Brasil, essa história sempre foi especialmente conveniente para quem está no topo. Um país que nasceu distribuindo terras e cidadania de forma desigual aprendeu a chamar atraso de escolha pessoal.

Estudos sobre desigualdade de oportunidades na América Latina apontam que circunstâncias de origem respondem por uma parcela relevante da desigualdade. Trabalhos recentes sobre mobilidade intergeracional no Brasil, com dados administrativos, mostram que o país segue marcado por baixa mobilidade, embora algumas regiões ofereçam chances maiores do que outras. O lugar de nascimento ainda prevê, com boa margem de acerto, quanto alguém vai ganhar na vida.

Isso não torna o indivíduo irrelevante. Apenas torna a conversa mais adulta.

E, no final… a grande questão não me parece ser a da existência de pobres preguiçosos. Em qualquer classe social há gente que trabalha menos do que poderia.

A grande questão é: por que a preguiça dos ricos raramente produz pobreza?

O texto é uma homenagem à música “Sossego”, de Tim Maia.



Fonte ==> Folha SP

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