13 de julho de 2026

O que Abílio Diniz, Antônio Hermínio de Moraes e Roberto Marinho sabiam sobre patrimônio que muitos empresários brasileiros ainda ignoram

Kádia Barro

Por Kádia Barro

Estruturaram holding, planejaram a sucessão em vida e suas famílias não passaram pelo desgaste do inventário judicial. Por que você ainda não fez o mesmo?

O Brasil tem uma relação curiosa com o sucesso alheio. Quando um grande empresário estrutura o seu patrimônio em vida, muitos torcem o nariz: “Está com medo de morrer?”, “Quer controlar tudo de dentro do caixão?”, “Acha que vai levar algo para o túmulo?”. Essas piadas de mau gosto escondem uma ignorância estratégica profunda.

A verdade é que os empresários mais visionários da história recente do Brasil, Abílio Diniz, Antônio Ermínio de Moraes e Roberto Marinho, fizeram exatamente o oposto do que a média dos empresários brasileiros faz. Eles planejaram a sucessão em vida. E o resultado é que suas famílias não passaram por inventários judiciais desgastantes, não tiveram seus patrimônios congelados por anos e não viram o legado de décadas se desfazer em disputas emocionais.

A pergunta que fica, e que me provoca profundamente como especialista na área, é: por que você, que se inspira nesses líderes para construir seu negócio, não se inspira neles para proteger o que construiu?

O silêncio dos inventários

Não existem estatísticas oficiais sobre quantas famílias empresárias brasileiras enfrentam inventários judiciais. Mas a experiência de 20 anos me permite afirmar: a imensa maioria não planeja. E o resultado é sempre o mesmo. O patriarca ou a matriarca falece, e os herdeiros, que até então se davam bem, são jogados em um processo litigioso que pode durar de 5 a 10 anos.

Nesse período, o patrimônio não rende. Não se vende. Não se transforma. Ele apodrece em custas processuais, honorários advocatícios e, principalmente, em relacionamentos destruídos.

Agora, compare com os exemplos que citei.

Abílio Diniz protagonizou uma das sucessões mais comentadas do país. Houve conflitos públicos, sim. Mas o planejamento patrimonial existiu. As regras estavam postas. E a holding familiar foi o palco onde essas disputas puderam ser negociadas com método, com assessoria técnica, com governança. O resultado é que o patrimônio do Grupo Pão de Açúcar não se fragmentou num inventário. Ele se transformou, se reestruturou e sobreviveu.

Roberto Marinho, fundador das Organizações Globo, fez questão de estruturar a sucessão ainda em vida. Ele sabia que o maior patrimônio que deixaria não era a rede de televisão, mas a governança que permitiria à empresa continuar existindo sem a sua presença física. Quando faleceu, em 2003, o grupo já tinha regras claras de gestão e propriedade. Não houve inventário traumático. A Globo seguiu.

Antônio Ermínio de Moraes, à frente do Grupo Votorantim, fez o mesmo. Planejou a sucessão com anos de antecedência, estruturou holdings, preparou herdeiros e separou o que era patrimônio da família do que era gestão do negócio. Resultado: o grupo não só sobreviveu como se fortaleceu após sua partida.

Esses três casos têm algo em comum: a sucessão foi tratada como um processo, não como um evento. E o instrumento que viabilizou esse processo foi a holding familiar.

A holding não é para quem tem medo da morte

O empresário que estrutura uma holding em vida não está “se preparando para morrer”. Ele está garantindo que o seu negócio continue vivo independentemente da sua presença física. Ele está dizendo: “Eu construí algo que é maior do que eu, e isso merece regras claras para sobreviver”.

A holding familiar permite:

Antecipar a sucessão com reserva de usufruto: o patriarca transfere as quotas aos herdeiros em vida, mas mantém o controle e os rendimentos até o fim. O inventário simplesmente não acontece.

Separar propriedade de gestão: herdeiros nem sempre são gestores, e gestores nem sempre são herdeiros. A holding define quem decide o quê, evitando que o afeto ou a falta dele contamine a gestão.

Criar regras de saída e valuation: se um herdeiro quiser seguir outro caminho, a holding já prevê como será calculado o valor das suas quotas e como o pagamento será feito, sem paralisar o negócio.

Proteger o patrimônio de terceiros: cônjuges, credores e até sócios externos encontram na holding uma barreira jurídica que preserva o núcleo familiar do patrimônio.

A provocação final

Abílio, Ermínio e Roberto não são exceções porque eram mais ricos que a média. São exceções porque pensaram diferente. Enquanto a maioria dos empresários brasileiros trata a sucessão como um problema futuro, eles a trataram como uma responsabilidade presente. Se você se inspira nesses líderes para crescer, por que não se inspiraria neles para proteger?

O seu patrimônio merece o mesmo cuidado que o deles. O seu legado merece as mesmas regras claras. A sua família merece não passar pelo que milhares de famílias passam todos os anos nos corredores do Judiciário. A holding familiar não é um luxo de quem tem muito. É a ferramenta de quem pensa grande o suficiente para saber que o verdadeiro sucesso não é construir um império, mas garantir que ele não desabe na sua ausência.

O legado dos grandes empresários brasileiros nos ensina uma lição inescapável: planejar a sucessão não é pensar na morte. É honrar a vida que se construiu e a vida que virá depois dela.

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    Kádia Barro
    CEO e Especialista em Planejamento Sucessório
    Site: www.kadiabarro.com
    Instagram: @kadiabarro.holding

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