Após o lançamento de sua candidatura à Presidência, no domingo (16), o líder do Movimento Brasil Livre (MBL), Renan Santos (Missão), iniciou a campanha com uma agenda de contatos no mundo empresarial. Na segunda (17), expôs suas ideias numa conferência do Banco Santander, em São Paulo, e na terça (18), viajou a Brasília para uma série de encontros com representantes de segmentos diversos do mercado.
A Gazeta do Povo acompanhou as reuniões, conversou com empresários presentes e ouviu elogios ao plano econômico do candidato, mas observou resistência em aderir publicamente à sua campanha, pelo menos nesse momento inicial da corrida presidencial. Muitos executivos evitam expor e pedir voto no candidato do Missão.
O motivo é a avaliação de que Renan não tem chances de ganhar e uma melhor utilização do apoio ou do voto útil seria apostar em Flávio Bolsonaro (PL), melhor colocado nas pesquisas, para vencer Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Até o momento, um dos poucos empresários que endossou publicamente o candidato da Missão no mercado financeiro é o ex-presidente do Credit Suisse José Olympio Pereira. À Folha de S.Paulo, ele disse que está apresentando Renan Santos a investidores na Faria Lima.
Ao comentar o fato durante evento de campanha em João Pessoa (PB), o próprio Renan Santos reclamou de empresários que ainda não o apoiaram publicamente. “Por que diabos a elite ainda não assumiu o risco? Por que os maiores empresários do Brasil sabem [de minhas propostas]. Eu estive em reunião com os maiores empresários do Brasil, algumas vezes, de todos os setores. Um ou outro teve a coragem de dizer: ‘é o melhor projeto, estou apoiando’”, desabafou Renan Santos.
Ele citou outros que declararam apoio a seu plano: o gestor Luis Stuhlberger, conhecido pela alta rentabilidade de seus fundos de investimento, e o megaprodutor de soja e ex-senador Blairo Maggi, que Renan Santos conheceu em recente visita ao Mato Grosso.
“Elite corre risco, elite lidera. Não adianta a elite no sigilo falar ‘é o melhor projeto’ e publicamente ficar na moita. Está com medo e a elite vai terminar com medo governada pelo PT, que vai expropriar a elite lentamente ou se aliar a ela e aí os dois ganham dinheiro. É a regra do jogo. Isso é uma bronca e uma convocação. Não adianta gostar de mim no sigilo. Não adianta quando eu vou nas reuniões falar ‘uau’ e depois não doar e falar ‘é o Renan, é a Missão’. Tem que endossar”, disse o candidato.
Apesar da atração pela proposta de equilíbrio fiscal e de combate duro ao crime organizado – sobretudo pela infiltração e impacto do crime na economia formal –, parte do empresariado presente nos eventos em Brasília ainda resiste em apoiar Renan Santos.
Alguns ainda duvidam de sua capacidade de negociar e aprovar sua agenda no Congresso. Outros querem avaliar melhor propostas e habilidade de outros candidatos que compartilham, ao menos no discurso, uma agenda liberal para a economia.
Parte dos empresários ainda aposta no senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) por ele manter índices de intenção de voto mais próximos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mesmo após desgastes sofridos na pré-campanha – a ligação com o banqueiro Daniel Vorcaro e a desavença pública com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Pesquisa do Instituto Nexus, em parceria com o Banco BTG Pactual, apontou Lula com 41% das intenções de voto no primeiro turno em cenário estimulado. Flávio atingiu 36% e Caiado, Renan e Zema registraram 4%.
O instituto entrevistou 2.003 pessoas de 14 a 16 de agosto de 2026. A pesquisa foi contratada pelo Banco BTG Pactual. Teve nível de confiança de 95%, margem de erro de 2 pontos percentuais e registro no TSE sob o número nº BR-03317/2026.
Outra parte do empresariado confia mais em Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) pela experiência política que acumularam no Executivo e por terem conseguido administrar a dívida de Goiás e Minas Gerais, cujas contas têm histórico problemático. Em caso de declínio de Flávio, esses empresários optariam, de início, pelos ex-governadores.
“Talvez o Ronaldo leve um pouco mais de vantagem junto com o Zema, porque os dois tiveram a oportunidade de executar aquilo que eles disseram. O Renan Santos tem uma ótima proposta, acho que tem uma visão de mercado muito clara, muito transparente, muito importante, mas claro que, quando comparado aos outros dois como experiência de execução, ele tem menos”, diz Antônio Castilho, cofundador e vice-presidente do Instituto Unidos Brasil (IUB) – ele diz não conhecer detalhes das propostas de Flávio Bolsonaro para reequilibrar as contas públicas e baixar os juros.
A IUB busca aproximar o setor produtivo do Congresso e sediou um dos encontros de Renan com empresários em Brasília. Estavam presentes executivos do varejo, serviços, indústria têxtil, vestuário, tecnologia, setor imobiliário, entre outros. Caiado também participou de conversa com os empresários. Zema e Flávio não apareceram.
Presente no encontro, a ex-senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS) elogiou Renan Santos pelo “preparo”, “autenticidade” e “segurança na abordagem das questões”.
“Ele diz não apenas aquilo que as pessoas querem ouvir e que gostariam que o Brasil fosse, mas fala com tanta convicção e com tanto conhecimento de causa sobre todos os temas, mesmo os mais delicados. Por exemplo, sobre a questão do desequilíbrio institucional dos três poderes e da segurança pública. Fala sobre a economia e sobre orçamento público com conhecimento de causa e não é um radical”, disse.
Para ela, muitos empresários não aderiram à campanha de Renan Santos por pragmatismo. “Me convenceu, mas eu não sou o empresário. O empresariado vai na segurança do voto. Pode gostar de um candidato, mas se achar que quem vai ganhar vai ser fulano de tal, evita declarar apoio ao que prefere. É o problema da viabilidade e o da segurança. O importante, para ele, é ver quem que pode chegar melhor”, explicou.
O que Renan Santos propõe que agrada o empresariado
A principal medida do plano econômico de Renan Santos está numa proposta de emenda à Constituição (PEC) apresentada em 2024 pelos deputados Kim Kataguiri (Missão-SP), Júlio Lopes (PP-RJ) e Pedro Paulo (PSD-RJ) que desacelera o crescimento das despesas obrigatórias para estabilizar a dívida pública e possibilitar a queda dos juros pelo Banco Central.
A proposta prevê a desindexação de benefícios previdenciários do salário mínimo; a desvinculação dos pisos de saúde e educação das receitas, que seriam corrigidos apenas pela inflação e com aplicação mais flexível; a revisão do abono salarial; e a redução de renúncias fiscais. Estima-se uma economia de R$ 1,1 trilhão até 2031. O objetivo de Renan Santos é aprovar a PEC ainda durante a transição de governo, em caso de vitória, entre novembro e dezembro, antes de ele tomar posse em 2027.
Outra proposta estabelece novos critérios para a liberação de recursos de emendas parlamentares, frações do Orçamento que deputados e senadores direcionam para suas regiões. A ideia é que a cada redução de despesas obrigatórias que o Congresso aprovar leve à abertura de novos recursos para investimentos e aumento proporcional no volume das emendas parlamentares. Neste ano, elas alcançaram o valor de R$ 60 bilhões e boa parte é de pagamento obrigatório e controlada por políticos influentes.
Outra proposta é a Lei de Responsabilidade Gerencial, que vincula a liberação de emendas parlamentares e repasses dos fundos eleitoral e partidário ao desempenho dos prefeitos na melhoria de índices de educação, saúde e saneamento básico. Hoje, esses recursos são distribuídos conforme o tamanho e a força dos partidos.
Há ainda plano de redução do número de municípios, de modo a fundir aqueles que não se sustentam economicamente; e cortar penduricalhos e privilégios da elite do funcionalismo público – o que também geraria redução drástica de despesas.
Junto aos empresários, em Brasília, Renan Santos recebeu aplausos quando criticou a proposta que acaba com a escala 6×1, prioridade do presidente Lula, que vai explodir os custos para as empresas, e também quando defendeu o fim da Justiça Trabalhista, historicamente hostil a empregadores.
Nos eventos, ele também explicou suas estratégias para alavancar o crescimento da economia. Na Confederação Nacional dos Transportes (CNT) – que apresentou um plano de longo prazo que demanda investimentos de R$ 2 trilhões –, o candidato disse que só haverá dinheiro com equilíbrio fiscal para investimentos.
“Reforma fiscal no dia primeiro após a vitória. E tem que andar com uma agenda que abra um espaço fiscal de R$ 250 bilhões por ano, para que a gente consiga uma economia de R$ 1,1 trilhão nos próximos cinco anos. O impacto de juros será muito claro. Em coisa de um ano, havendo estabilidade, nós podemos ver o Banco Central reduzindo os juros. Garantindo segurança jurídica para o investimento, vai começar a ter, e o governo vai participar, porque tudo que abrirmos de espaço fiscal será direto para infraestrutura. Especialmente em setores e áreas produtivas represadas”, afirmou.
No encontro com empresários no Instituto Unidos Brasil (IUB), explicou como vai “usar o Centrão” para aprovar suas reformas mudando a forma de liberação de emendas.
“Já que o Congresso é viciado em emendas, elas não serão mais vinculadas à receita, mas à quantidade de espaço discricionário que é aberto no Orçamento. Ou seja, o parlamentar tem que ser um fiscal do Orçamento. Tem que olhar para não ficar fazendo aumento de gasto populista como está fazendo, passando pauta-bomba sem parar, e aí ele sabe que a emenda dele existe desde que haja espaço discricionário. É o que eu chamo de usar o Centrão e não ser usado pelo Centrão”, disse.
Numa sabatina da União Nacional de Entidades do Comércio e Serviços (UNECS), Renan Santos pregou uma união dos setores produtivos e trabalhadores em prol da reforma fiscal, em vez de brigarem entre si por benefícios tributários.
“Vou juntar o entregador, que hoje é minha base eleitoral, que está ralando e dinheiro não está sobrando no fim do mês, e ainda vai um vagabundo assaltar ele ou vê o vizinho recebendo Bolsa Família enquanto ele está trabalhando. Vou juntar o grande empresário, o Brasil produtivo e falar: olha, esse é o pacto para todo mundo sair ganhando, vamos ter que passar todas essas reformas”, disse.
Renan criticou os políticos do Centrão que dominam o Congresso e travam a agenda de reformas econômicas amplas para atender lobbies pulverizados de setores diversos.
“Quem paga a banda escolhe a música. Vocês pagam a banda, por que o Alcolumbre escolhe a música? Tem que unir o Brasil produtivo e dizer ‘daqui não passa’. Ou a gente dá certo como nação ou vamos ficar sempre no voo de galinha, mendigando ‘me ajuda aqui, meu setor vai quebrar’. Não dá! Ou a gente faz junto todas as reformas juntas, ou nós seremos medíocres para sempre”, disse, sob aplausos.
Nomes cotados para a equipe econômica de Renan Santos
Durante a visita a Brasília, o deputado Kim Kataguiri (Missão-SP), coautor de uma proposta de emenda à Constituição (PEC) sobre o Reequilíbrio Fiscal, foi apresentado como futuro ministro da Reforma do Estado num eventual governo Renan – a nova pasta reuniria Planejamento, Infraestrutura, Cidades, Trabalho, Previdência e Assistência Social, que ficaria dentro do Palácio do Planalto, ao lado do gabinete presidencial.
Também foi anunciado que o consultor da Câmara dos Deputados Paulo Bijos, que concebeu os estudos para elaboração da PEC do Reequilíbrio Fiscal, integrará a equipe econômica em caso de vitória.

Em Brasília, Renan Santos disse que anunciaria em até 15 dias seu futuro ministro da Fazenda. Entre os nomes está João Landau, sócio-fundador e chefe de investimentos da Vista Capital, gestora criada em 2014, com foco em fundos multimercado, ativos globais e commodities. Outro nome de peso no mercado que apoia Renan e é cotado para integrar um futuro governo é o economista Tony Volpon, ex-diretor de assuntos internacionais do Banco Central e professor adjunto da Georgetown University.
Para Luan Sperandio, diretor do Ranking dos Políticos, organização que monitora o Congresso em pautas de interesse para empresários de diversos ramos, Renan Santos inovou ao adotar uma estratégia de não apresentar um “posto Ipiranga”, expressão usada em 2018 ao então candidato Jair Bolsonaro para se referir ao seu indicado à época para assumir o Ministério da Economia, Paulo Guedes.
“O que nós vemos em alguns presidenciáveis é que, ao lançar a candidatura, fazem plano de governo e apadrinham, por exemplo, um economista com respeitabilidade na Faria Lima para falar: ‘Olha, o que eu penso está ancorado na reputação dessa pessoa aqui que já ocupou esses cargos’, logo é uma pessoa que me transmite credibilidade e logo indica mais ou menos o que ele vai fazer”, diz. Para Sperandio, Renan Santos construiu antes um plano econômico robusto para apresentar primeiro ao segmento.
Ele considera tal estratégia mais transparente. “O Livro Amarelo [que contém o plano de governo completo] é estratégico porque deixa muito clara a visão de mundo, qual que é o pensamento que eles têm hoje pro Brasil, para enfrentar os problemas e os diagnósticos que eles trazem. Então eles são muito abertos assim”, diz.
Para ele, Flávio Bolsonaro, o principal adversário de Renan Santos à direita, evita expor demais seus planos porque teme perder intenção de votos na corrida presidencial.
Fonte ==> Gazeta


