Adentrar o universo de “O Funcionário que Pede para Não Ser Identificado” é ingressar em uma repartição pública onde a imaginação exige carimbo, formulário e parecer técnico. Michel Melamed ergue em cena o fictício “Departamento de Registro e Produção de Obras Artísticas”, síntese satírica dos editais, formulários de fomento e critérios algorítmicos que regem a produção cultural contemporânea. No centro deste tribunal administrativo opera “A Funcionária” —figura fragmentada e coletiva— incapaz de formular uma ideia própria, mas investida do poder de resumir, avaliar e sumariamente vetar as propostas alheias.
O ponto de inflexão dramático ocorre quando essa mesma burocrata engendra sua única e derradeira epifania: conceber “a obra de arte total”. Em uma paródia ácida da utopia wagneriana da Gesamtkunstwerk, conceito estético que se refere à conjugação de diversas formas artísticas numa mesma obra, a empreitada não nasce de uma busca por elevação metafísica, mas da reciclagem oportunista e do rearranjo de todos os fragmentos que a própria máquina burocrática havia descartado, dando forma concreta ao temido e fascinante “Monstro das Ideias Horríveis”.
A partir desse giro alegórico, a peça desdobra camadas críticas sobre as dinâmicas da produção atual. Primeiro, expõe a lógica pós-industrial do reuso, na qual a própria ideia de originalidade se reduz a uma reorganização estilizada de detritos conceituais prévios.
Em segundo lugar, demonstra a habilidade perversa do sistema institucional em cooptar a insubordinação do erro e o refugo da margem, convertendo a transgressão em uma nova mercadoria cultural devidamente chancelada.
Por fim, ao celebrar a falha e reivindicar o direito ao descarte, o espetáculo sustenta que o exercício inventivo não constitui monopólio de uma classe artística profissionalizada, mas uma faculdade ontológica indispensável à preservação do tecido humano.
Para dar corpo a essa máquina de vetos, a encenação apoia-se no virtuosismo de um quarteto feminino composto por Inez Viana, Simone Mazzer, Thalma de Freitas e Yasmin Gomlevsky. Abrindo mão de qualquer suporte instrumental, as quatro atrizes conduzem uma comédia musical inteiramente a cappella, aprofundando a pesquisa sonora e rítmica que Melamed desenvolve há anos.
O texto falado torna-se um alvo móvel que se desdobra em canto, percussão vocal e fonética pura, transformando as vozes do elenco na própria paisagem acústica dos ruídos de escritório, das automações corporativas e dos espasmos de pensamento. As atrizes operam como catalisadoras de ideias, equilibrando o rigor milimétrico da afinação musical com uma presença corporal desenfreada e anárquica.
Essa estranheza ganha contorno material no desenho de cena, articulado com precisão e economia de recursos. O escritório insólito e estéril concebido por José Cohen e Lucila Belcic estabelece uma rigidez asséptica que é imediatamente desestabilizada pela iluminação de Adriana Ortiz.
Ao projetar filtros saturados de amarelo e azul sobre o palco, a luz altera a leitura cromática dos figurinos criados por Maika Mano e Penha Maia, gerando uma instabilidade visual contínua que acentua o delírio da engrenagem estatal.
Consciente de suas próprias contradições —como obra gerada por editais e apresentada a uma plateia repleta de pares do meio teatral—, o espetáculo escapa do lamento corporativo. Por meio da vertigem do nonsense, a montagem reafirma a relevância de uma arte que não se submete à utilidade prática imediata nem à lógica funcional do capital.
Três perguntas para…
… Michel Melamed
O espetáculo coloca o dedo na ferida da burocratização da arte, dos editais e das métricas, mas foi viabilizado por esse mesmo sistema. Como equilibrar a crítica contundente a essa engrenagem com a consciência lúcida de estar operando dentro dela?
A crítica poderia ser à insuficiência do sistema educacional, sendo a produção cultural parte dele e, então, os editais e tais. Dá pra sonhar o país batendo aulas de todos os tipos e formatos para todos os lados e gratuitamente. Daí o bem como, espetáculos, filmes, livros, exibições e todos os mais, de montão pra toda população.
A grande virada da trama é a criação de uma “obra de arte total” feita apenas de restos e ideias rejeitadas. Como você enxerga essa fronteira entre reciclagem, apropriação e o mito da originalidade na criação artística de hoje?
Como diria meu amigo e poeta Alberto Pucheu, são as fronteiras desguarnecidas. Joga o paio, carne seca, toucinho no caldeirão e vamos botar água na criação. O mito da originalidade é um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho.
Vivinho da Silva está nos esperando de braços abertos sob a Guanabara, espécie de monstro do Lago Vamo Nessa. Valerá ainda compartilhar que, da minha perspectiva, apenas mais uma, a grande virada da trama acontece a cada frase. Sonho um espetáculo só viradas reviradas.
A montagem entrega a condução a quatro atrizes com trajetórias muito fortes, que fogem de qualquer convenção ou estereótipo social feminino para encarnar conceitos brutos e caóticos. Como foi a construção física dos “Monstros das Ideias Horríveis”?
As Quatro Cavaleiras do Apocalipse, Estações, Fab Four… Não haveria Setor, peça ou mundo sem elas. Grandes mulheres, atrizes, cantoras, poetas, cidadãs, brasileiras, enfim, sem-fim. Sou muito grato e fã das quatro, então, de quatro. Quanto à construção física, se dá a partir do que os corpos trazem, o que o olhar pesca e dessa pororoca nasce a seresta e o luar (o pântano também).
Teatro Anchieta | Sesc Consolação – Rua Dr. Vila Nova, 245, Vila Buarque, região central. Quinta e sábado, 20h. Sexta, 15h e 20h. Domingo, 18h. Até 5/98. Duração: 85 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. A partir de R$ 21 (credencial plena) em sescsp.org.br e nas bilheterias das unidades
Fonte ==> Folha SP


