11 de janeiro de 2026

A contradição principal na origem do ataque dos EUA à Venezuela e as contradições sobre as quais devemos incidir

Ao dia seguinte da agressão militar contra a Venezuela – sucedida com bombardeios e o sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e da primeira-dama, Cilia Flores – os esforços entre todos os que se repugnam com tamanha violação do direito internacional e do princípio da autodeterminação dos povos tem sido encontrar análises que ajudem a traçar cenários e os possíveis caminhos para que a soberania da região seja respeitada e a paz, assegurada, sem intervenção do imperialismo. 

Reação agressiva à afirmação objetiva de um mundo multipolar 

Uma das análises mais agudas até o momento sobre os interesses na origem dos atos do 3 de janeiro é o comentário em vídeo publicado no canal do Economista e Professor Emérito da Universidade de Massachussetts-Amherst, Richard Wolff. Pesquisador que estuda há cinco décadas as economias das grandes potências imperialistas e seu comportamento na política internacional, Wolff sustenta que, mais que uma operação militar, mais que uma demonstração de poder e mais que o cumprimento de uma promessa de campanha por Donald Trump, os ataques deste sábado contra a Venezuela foram um “ato desesperado” da grande potência imperialista, usando da agressão brutal na tentativa de frear o declínio de sua hegemonia, declínio esse que não pode mais impedir. 

Para o pesquisador, o ataque à Venezuela no 3 de janeiro não marca o início de uma nova era de domínio imperial, mas a aceleração da queda do poder unilateral estadunidense. Pois, quando são perpetradas práticas como essas contra um país que não oferece ameaça militar, é sinal de que já se esgotaram todos os outros instrumentos para uma grande potência manter o seu domínio. 

Wolff teve acesso a documentos secretos que setores internos ao Departamento de Guerra dos EUA teriam vazado através de algumas fontes, em uma demonstração de descontentamento com o que está acontecendo e que, segundo o analista, seria visto por essas fontes sensatas como “loucura imperial” e não como política de Defesa. Esses documentos compreenderiam quase 250 páginas de memorandos internos, análises estratégicas e planejamento operacional nos bastidores da invasão. 

Três documentos-chave

Richard Wolff cita três documentos em específico. O primeiro tem data de 15 de dezembro de 2025, com o registro “Cosmic Top Secret” e tendo por título “Operação Último Petróleo. Fase Final de Recuperação Hemisférica”. Esse memorando destinado à cúpula do governo Trump explicitaria que a motivação da invasão, bombardeio e sequestro de Maduro não se deveu a pretensas acusações de narcotráfico, de suposto desrespeito à democracia ou aos direitos humanos como se tem propalado. Em tom de frieza e sem nenhum pudor, o documento afirmaria que o ataque deveu-se ao interesse estratégico no controle do petróleo venezuelano. Pelos 300 bilhões de barris de reservas de petróleo da Venezuela, que fazem delas as maiores reservas do mundo. 

O segundo documento, de acordo com Wolff, é de 28 de dezembro. E apresenta o conceito de “linha vermelha petroleira”. Por este conceito, o memorando refere-se aos acordos que a Venezuela assinou com a China, no valor de 200 bilhões de dólares, para o período de 2026 a 2031. O convênio sino-venezuelano abrangeria um amplo rol de matérias, compreendendo: venda de petróleo em yuans, transferência de tecnologia, construção de refinarias e integração do sistema financeiro da Venezuela aos sistemas de pagamentos e compensações financeiras de países do BRICS. Essa medida permitiria à Venezuela escapar das sanções unilaterais impostas por Washington. Ainda conforme Wolff, o documento teria como fecho a seguinte formulação: “se perdemos a Venezuela para o sistema BRICS, perdemos a América Latina para sempre”. Essa seria a “linha vermelha petroleira” e a verdadeira razão da agressão militar de 3 de janeiro, planejada de maneira calculista e sem nenhum verniz nos termos flagrantes do documento. 

O pesquisador chama atenção, ainda, para um terceiro documento e o qual mais o deixou impressionado. Segundo Wolff, seria um telegrama interno da Agência Central de Inteligência, com data da véspera da agressão militar contra a Venezuela, dia 2. Nesse telegrama, estaria escrito que a data do 3 de janeiro teria sido definida para recordar os 36 anos da intervenção no Panamá, quando outra ação de agressão militar dos EUA levou à captura do presidente panamenho, Manuel Noriega, naquela outra nação caribenha. Mais que um simbolismo, o objetivo seria transmitir uma advertência a todos os governantes da América Latina e Caribe na presente conjuntura: o mesmo poderá acontecer a eles, se ousarem questionar o poder e os interesses da grande potência imperialista. 

Lucros para os de cima e fardo para os de baixo 

Mas isso não é tudo. Wolff sustenta com base em suas fontes que a operação militar contra a Venezuela teria custado bem além dos 2,8 bilhões de dólares anunciados por Trump e, sim, 12,4 bilhões de dólares. Desse montante, grandes somas destinadas às corporações do complexo industrial-militar que alimentam a guerra e as intervenções mundo afora e com elas lucram. Um montante de 2,1 bilhões teriam ido para a Lockheed Martin, fabricante de jatos e helicópteros de combate, por “serviços logísticos de emergência”; 1,8 bilhões para a Raytheon por pagamento de “sistemas de comunicação avançados”; 1,3 bilhões para a Boeing por “transporte militar especializado” – para mencionar algumas das principais. Wolff destaca que esses mesmos recursos fluem com abundância, enquanto são cortadas  verbas para o programa de atenção a saúde e outras finalidades de interesse de grande parte da população dos EUA, cujas dificuldades e desproteção social aumentam. 

O economista prossegue sua análise abordando a resposta em Wall Street: as ações das petrolíferas estadunidenses se valorizaram após a agressão militar e o anúncio por Trump de que tem a intenção de controlar o petróleo da Venezuela. As ações da Exxon Mobil subiram 18% somente nas duas primeiras horas depois do anúncio do sequestro do presidente venezuelano. As da Chevron tiveram 15% de alta e as da Conocco Philips, de 22%. Wolff aponta uma relação direta entre a alta na cotação das ações e o conhecimento de causa das corporações sobre o que significa controlar diretamente o petróleo da Venezuela. 

E mais: segundo análises de dentro do mercado financeiro, de investidores ouvidos pelo economista, a previsão é de que os preços do petróleo tenham um incremento de 15 a 22% nos próximos seis meses, com a especulação financeira em torno da instabilidade da região. Wolff é cristalino ao sintetizar a consequência prática sobre a vida do cidadão médio estadunidense: pagarão mais caro pela gasolina e em seu custo de vida para financiar as corporações que lucraram com essa agressão militar.  

Contradições sobre as quais devemos incidir

O analista Richard Wolff conclui seu bloco de análise, ao dia seguinte dos atos brutais perpetrados contra a autodeterminação do povo venezuelano, dizendo: “quando um império domina de verdade, não precisa invadir, negocia. Quando um império controla realmente, não captura presidentes, os compra. A violência direta aparece quando os mecanismos sutis de controle já fracassaram”

Se isto é verdade, dizer NÃO a esta agressão ignóbil é defender a uma só vez a soberania do povo Venezuela e a soberania do povo brasileiro e de todos os povos da América Latina e Caribe. Cabe a nossos governantes soberanos e aos movimentos populares, em aliança com os outros governos e povos do Sul Global, avaliar e pronunciar-se em uníssono, nas instituições, fóruns multilaterais e nas ruas, para fazer respeitar os princípios da autodeterminação dos povos e da não-intervenção e o desígnio da construção de uma comunidade latino-americana de nações, com base na cooperação e no respeito mútuo, como é objetivo comum de muitos e como dispõe o parágrafo único do Artigo 4o da Constituição Federal do Brasil. 

*Mathias Seibel Luce é Historiador é doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e docente da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.



Fonte ==> Brasil de Fato

Leia Também

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *