Durante anos, disseram que a imprensa tinha perdido relevância. Que bastava um bom perfil, vídeos bem editados e engajamento constante para construir autoridade. O algoritmo aplaudiu. O mercado acreditou. Mas a reputação nunca comprou essa tese.
Hoje, com alcance instável, credibilidade diluída e crises cada vez mais rápidas, a realidade se impôs: a imprensa voltou a mandar. E quem construiu reputação apenas em rede social descobriu, tarde demais, que estava exposto.
Existe uma diferença fundamental entre visibilidade e reputação. Redes sociais entregam alcance. A imprensa entrega registro. Uma constrói barulho. A outra constrói histórico. Quando tudo vai bem, essa diferença parece irrelevante. Quando algo dá errado, ela decide quem sobrevive.
Nos últimos meses, o movimento ficou claro. Perfis grandes perderam impacto do dia para a noite. “Autoridades digitais” desapareceram fora da própria bolha. Executivos com milhares de seguidores passaram a não sustentar uma busca simples no Google. O que faltava não era conteúdo. Era lastro.
“Quando uma crise aparece, ninguém procura o feed. Procura o histórico. E histórico não se improvisa. Quem construiu reputação com registro entra em qualquer crise com defesa. Quem não construiu entra pedindo desculpas — e desculpa não é estratégia.”
Reputação não se constrói em stories. Se constrói em contexto, recorrência e credibilidade. É por isso que, quando surge uma crise, um ataque ou uma dúvida, ninguém procura o feed. Procura o histórico. Procura o que já foi publicado, registrado, validado.
A imprensa cumpre exatamente esse papel: organiza a narrativa ao longo do tempo. Dá forma, memória e peso. Não depende de algoritmo, não some em 24 horas e não muda de regra a cada semana. Por isso, voltou a ser central na gestão de reputação.
Quem tem presença jornalística consistente entra em qualquer crise com defesa. Quem não tem vira refém da versão dos outros. Não por maldade, mas por ausência de registro. Na ausência de narrativa própria, a narrativa pública se impõe.
O erro foi confundir influência com reputação. Influência é momentânea. Reputação é acumulada. Uma oscila. A outra sustenta decisões, contratos, convites e confiança. O mercado já entendeu isso. Investidores, conselhos e parceiros não analisam engajamento. Analisam histórico.
“O mercado já entendeu algo que muita gente ainda finge não ver: autoridade algorítmica não decide contrato, não sustenta conselho e não segura crise. Seguidores impressionam o público. Histórico impressiona quem decide.”
A queda de alcance das redes não é o problema central. O problema é que elas nunca foram suficientes para sustentar reputação. Apenas mascaravam essa fragilidade. Agora que o filtro caiu, a exposição ficou evidente.
Não se trata de abandonar redes sociais. Trata-se de parar de tratá-las como base reputacional. Elas são canal. A imprensa é estrutura. Uma amplifica. A outra valida.
A lógica é simples e antiga: quem tem histórico resiste ao tempo. Quem depende só de palco depende da plateia. E plateia muda rápido.
“No fim, a imprensa não voltou a mandar por nostalgia. Voltou a mandar porque, na ausência de narrativa estruturada, alguém sempre ocupa o espaço. E raramente escreve a seu favor.”
A reputação voltou para onde sempre pertenceu: no registro público, verificável e permanente. Quem entendeu isso está protegido. Quem não entendeu ficou nu — e o mercado está olhando.
PODCAST

2. Como a distinção entre visibilidade e histórico impacta a gestão de crises corporativas?
3. De que forma o registro jornalístico valida a autoridade perante os grandes decisores?


