7 de janeiro de 2026

A Revolução Silenciosa: Como a Inteligência Artificial Está Transformando a Advocacia Brasileira

Tecnologia promete aumentar produtividade e democratizar acesso à justiça, mas impõe desafios éticos e regulatórios ao setor jurídico

A advocacia brasileira atravessa um momento de transformação sem precedentes. Nos últimos dois anos, a inteligência artificial deixou de ser um conceito futurista para se tornar ferramenta essencial em escritórios de todos os portes. 

Dados recentes indicam que mais de 32 mil ferramentas de IA estão disponíveis para uso profissional em diversas áreas, segundo a Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo. No setor jurídico, plataformas especializadas se multiplicam, oferecendo desde pesquisa jurisprudencial automatizada até redação assistida de petições e análise preditiva de processos.

A mudança é profunda. Enquanto advogados tradicionalmente dedicavam horas à pesquisa de precedentes e à elaboração de documentos padronizados, algoritmos treinados corretamente conseguem gerar minutas completas, sugerir estratégias processuais e até ajudar a prever possíveis resultados de litígios com base em padrões históricos.

Produtividade e competitividade em jogo

Para a advogada Laura Zopelaro, fundadora da ADV Club e líder de uma comunidade com mais de 10 mil advogados focada em inteligência artificial, a tecnologia representa muito mais que automação.

 “A IA permite que advogados façam mais em menos tempo, ganhando produtividade sem perder qualidade. Mas o principal benefício é a possibilidade de focar no que realmente importa: a estratégia jurídica e o relacionamento com o cliente”, explica a especialista.

Laura Zopelaro

Zopelaro, que desenvolveu métodos de treinamento para ensinar profissionais do direito a utilizar ferramentas como Chat GPT aplicadas à advocacia, observa que a tecnologia não elimina a necessidade do advogado, mas redefine seu papel. “O profissional que se limitar a tarefas operacionais vai perder espaço. A IA assume o trabalho repetitivo e libera o advogado para atividades de maior valor agregado”, afirma.

Os números corroboram essa visão. Escritórios que adotaram ferramentas de IA reportam redução de até 75% nos custos operacionais em determinadas tarefas. A pesquisa jurisprudencial, que antes demandava horas de trabalho, agora pode ser realizada em minutos. A análise de contratos extensos, que consumia dias, é concluída em tempo recorde.

Desafios éticos e regulatórios

Mas a revolução tecnológica traz desafios. A precisão das respostas geradas por IA ainda é uma preocupação central. Sistemas generalistas, como Chat GPT, podem cometer erros graves quando mal utilizados — casos de “alucinações” jurídicas, em que a IA inventa precedentes inexistentes, já foram registrados em tribunais brasileiros.

Um episódio recente no Tribunal de Justiça de São Paulo reacendeu o debate: uma sentença foi acusada de ter sido gerada por IA com informações falsas, destinadas a induzir magistrados a erro. O caso evidencia a necessidade urgente de regulamentação e governança no uso da tecnologia.

A questão da privacidade também preocupa. Ferramentas de IA lidam com grandes volumes de dados sensíveis, o que exige rigor no cumprimento das leis de proteção. Além disso, ainda não existe um marco regulatório específico para IA no Brasil — o Senado busca consenso para criar legislação própria, mas especialistas questionam se copiar modelos europeus ou norte-americanos atende às necessidades nacionais.

O futuro da profissão

Apesar dos desafios, o consenso entre especialistas é que a IA veio para ficar. Pesquisas acadêmicas concluem que a tecnologia não dispensará a figura do advogado, mas transformará profundamente a forma como a advocacia é exercida. Profissionais que dominarem as novas ferramentas terão vantagem competitiva significativa.

Para Dra Laura Zopelaro, que já treinou milhares de advogados no uso estratégico de IA, a mensagem é clara: “Não é sobre substituir o advogado. É sobre potencializar suas capacidades e permitir que ele entregue mais valor ao cliente. Quem resistir a essa mudança ficará para trás”.

A revolução da IA na advocacia brasileira está apenas começando. Entre promessas de eficiência e dilemas éticos, uma certeza emerge: o futuro do direito será cada vez mais híbrido, combinando expertise humana com poder computacional. Cabe aos profissionais decidir se serão protagonistas ou espectadores dessa transformação.

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