10 de janeiro de 2026

Ação contra Venezuela expõe erro de cálculo da China – 09/01/2026 – Igor Patrick

Donald Trump e Xi Jinping em terno e gravata, lado a lado, com bandeiras dos Estados Unidos e China ao fundo.

A extração forçada de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos no fim de semana passado foi um gesto de força sem paralelos recentes na região que Washington chama de seu quintal, mas seu alcance exige leitura mais ampla e menos imediatista.

Para além das análises regionais, a operação pôs fim à ilusão de que a competição sino-americana poderia seguir limitada a tarifas, semicondutores e finanças. Trump e seus asseclas mostraram que a disputa se deslocou para os recursos estratégicos, e que isso não ocorrerá só na Ásia, convertendo um litígio diplomático em ação militar de alta intensidade no país com as maiores reservas de petróleo do mundo.

A estratégia da China para a América Latina foi desenhada com racionalidade econômica, com Pequim oferecendo crédito, absorvendo commodities, financiando portos e hidrelétricas e insistindo no princípio de cooperação ganha-ganha, comum no léxico diplomático chinês.

A Venezuela foi o exemplo extremo dessa postura. Após anos de sanções, hiperinflação e erosão produtiva, o país se tornou dependente do crédito chinês e das exportações de petróleo para Pequim. Essa dependência deu à China acesso privilegiado a ativos energéticos, algo que em outras regiões exigiria décadas de negociação.

Esse arranjo parecia vantajoso enquanto os EUA estavam retraídos. A operação em Caracas mostrou, porém, que tal contenção tinha limites e que o petróleo venezuelano era um deles. Quando Washington abandonou a ambiguidade e usou força militar para remover Maduro e controlar a infraestrutura do país, ficou evidente que o cálculo chinês tinha vício de origem, presumindo que a competição seria econômica e que a superioridade militar americana não seria mobilizada fora da Ásia. A hipótese estava errada.

Um dia depois de Marco Rubio ir à emissora Fox News dizer que não toleraria “potências não ocidentais” nas Américas, procurei meu amigo Francisco Urdinez, acadêmico argentino e meu ex-colega no Instituto Kissinger do Wilson Center, para conversar sobre a encrenca. Francisco é autor de “Economic Displacement”, publicado recentemente pela Cambridge University Press, e criador da teoria do deslocamento econômico, que explica como a ascensão chinesa reduziu a indispensabilidade dos EUA ao substituí-los como fonte de crédito, comércio e infraestrutura.

Ao aplicar sua teoria ao caso venezuelano, ele sugeriu que não vemos o fim do deslocamento, mas sua transformação em matéria de segurança nacional. Nesta fase, disse que sempre que o deslocamento cruzar um limiar estratégico medido em energia, minerais críticos ou telecomunicações, os EUA elevarão o custo político para governos locais e para a China, reduzindo o espaço de autonomia latino-americano.

É demonstração de força bruta como não víamos há décadas na América do Sul, mas também revela fraqueza estrutural americana, expondo que Washington já não dispõe de instrumentos econômicos equivalentes aos de Pequim e precisa recorrer à coerção para manter primazia. É incômodo para ambos porque mostra que a expansão chinesa depende de ambientes sem violência e que os americanos já não ocupam centralidade econômica, erodida a ponto de exigir uso da força.

O sequestro de Maduro não elimina a presença chinesa, mas sinaliza que a competição entrou em fase menos administrável e mais instável. O resultado é uma disputa assimétrica em que a China avançará por meios financeiros e comerciais, enquanto os Estados Unidos reservarão o papel de árbitro armado quando ativos estratégicos estiverem em jogo.



Fonte ==> Folha SP

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