Olá! Em ano eleitoral, os últimos seis meses podem ser decisivos.
.Neymar ou Endrick. Nas eleições de 2022, o candidato Lula adotou como estratégia “jogar parado”. Lula, que encarna o antibolsonarismo melhor que ninguém, atraía qualquer um que ficasse indignado com 700 mil mortes por Covid e que percebesse que um segundo governo Bolsonaro seria um desastre civilizatório. Agora a situação é outra. A seis meses das eleições e mesmo com um lugar praticamente garantido no segundo turno, jogar parado pode ser um risco. As posições se inverteram e, ainda que um governo de qualquer Bolsonaro continue sendo uma ameaça civilizatória, é o governo Lula que é mal avaliado pelo eleitor. Mesmo que grande parte da culpa se deva às sabotagens do Congresso e às altas taxas Selic. Na conta entra ainda uma guerra que não termina, pressionando o preço dos combustíveis. A reunião ministerial do começo da semana demonstrou que o governo sabe muito bem o tamanho do problema. Lula cobrou resultados e anunciou algumas medidas importantes como zerar os impostos sobre o diesel e a adesão de 80% dos governadores às medidas de contenção do preço pelo ICMS. Mas o próprio Planalto sabe que a comunicação, um problema em todo o mandato, voltou ao seu estágio anterior e não está surtindo efeito, sinalizando que não basta manter a máquina funcionando com o que já está previsto. Como alerta Luis Nassif, falta um projeto de futuro melhor, um plano de metas, um projeto de país que empolgue e engaje mais do que medidas pontuais ou setoriais. Um pouco mais de ousadia. A possibilidade de um programa robusto que enfrente o alto endividamento das famílias, enviar finalmente o projeto do fim da escala 6×1 ou tirar da cartola antes das eleições um programa federal para a tarifa zero no transporte público seria um bom começo. Parte disso depende de um Congresso que já entrou em clima de eleições. E o primeiro teste dessa nova fase será conquistar maioria no Senado para aprovar a indicação de um novo ministro para o STF.
.Terceira via? Então toma! Ninguém ainda entendeu bem qual será o papel de Ronaldo Caiado nessas eleições. É claro que só mesmo Eduardo Leite, uma dúzia de empresários e economistas e a turma da RBS, afiliada da Rede Globo, acreditaram que o governador gaúcho poderia se tornar presidenciável. Mas em uma coisa ele tem razão: a indicação de Caiado não contribui em nada para a construção de uma terceira via, para animar os eleitores de centro ou para superar a polarização. E tampouco para unir o pragmático PSD, que deve liberar sua base no Nordeste para seguir com Lula porque o que importa mesmo é ampliar a base parlamentar do partido. Aliás, Caiado conseguiu inaugurar uma nova modalidade da extrema direita no Brasil: o bolsonarismo sem Bolsonaro com Bolsonaro. A defesa de uma anistia ao ex-presidente golpista mostra que ele quer parecer mais radical que Flávio. A autoestima não é casual. Caiado não é apenas o governador de Goiás, é o herdeiro de uma longa linhagem da oligarquia goiana que remonta ao século 18. Ou seja, o oposto de um outsider da direita puro-sangue. O que explica que a segurança deve ser o seu mote. Segurança para o eleitor conservador votar em um candidato experiente. Segurança jurídica para o agronegócio contra tudo aquilo que cheire a reforma agrária ou a comunismo. Segurança contra a bandidagem que a esquerda defende. Esse é o espírito. Não por acaso, Caiado já havia sido aventado para ocupar o Ministério da Segurança Pública num eventual futuro governo Flávio Bolsonaro. Agora, ambos disputam o espólio do bolsonarismo e o mesmo eleitorado, e dificilmente Caiado levará a melhor. Pelo menos é o que apontam as pesquisas. Isso mesmo que Flávio cometa o erro de ser ele mesmo. Com o STF enrolado em sua própria crise ética, Flávio se sentiu à vontade para soltar o verbo durante uma conferência da extrema-direita no Texas. Falou em perseguição política a seu pai e acusou o ex-presidente Biden de intervir nas eleições de 2022. Pediu que os norte-americanos fizessem pressão diplomática pela “liberdade de expressão” e monitorassem as eleições deste ano. E ainda se comprometeu a entregar as terras raras brasileiras para os Estados Unidos, entrando em conflito gratuito com a China, o que obrigou o presidente do PL a vir a público relativizar as posições de seu próprio candidato depois de uma enxurrada de críticas.
.Voltando à toca. A CPMI do INSS chegou ao fim fazendo jus à sua trajetória: sem rumo, nem relevância. Nascida em partes como oportunismo para surfar em um escândalo político e em partes para abafar a própria relação dos parlamentares com o esquema de entidades e bancos para fraudar o INSS, a CPMI foi instalada como a primeira demonstração de unidade do centrão para bater no governo e eleger Tarcísio de Freitas. Mas a unidade durou menos que a candidatura presidencial de Tarcísio e a CPMI ficou procurando o que fazer. Primeiro foram as tentativas malogradas de pegar carona no escândalo do Master — o que seria um tiro no pé, já que seu presidente tem relações suspeitas com a Igreja da Lagoinha, braço neopentecostal da família Vorcaro. Depois, a extrema-direita se agarrou às tentativas de colar as fraudes no filho do presidente, Lulinha. No entanto, sobrou barulho e faltaram dados, já que o sigilo bancário de Lulinha está quebrado desde janeiro e ninguém encontrou nada suspeito que justificasse uma convocação, muito menos o indiciamento e o pedido de prisão que o bolsonarismo tentou emplacar no último suspiro da Comissão. A CPMI terminou sem relatório e sem importância. Ficam os sinais para outras duas CPIs. A do Master que não deve mesmo sair do papel e a do Crime Organizado, que também procura sua razão de ser, uma vez que os grandes projetos da segurança em debate – o PL Antifacção já votado e a PEC da Segurança na fila — devem esgotar o assunto antes que a CPI termine. Buscando a própria sobrevivência, esta CPI resolveu apostar nos elos mais fracos do golpe do Master, aqueles que não estão negociando uma delação, como Ibaneis Rocha, Claudio Castro e Roberto Campos Neto. E se as CPIs não forem a lugar nenhum será um alívio para Hugo Motta e Davi Alcolumbre, que não querem qualquer incômodo para atrapalhar o ano eleitoral.
.Ponto Final: nossas recomendações.
.Bet de amigo de Ciro Nogueira usa perfis de fofoca para promover extrema direita. No Intercept, João Filho denuncia as relações promíscuas entre bets, fake news e centrão.
.Escravidão explica PIB per capita persistentemente baixo na história do Brasil, aponta estudo. Dupla de pesquisadores traz novas evidências sobre as continuidades nas relações de trabalho após a abolição. Na Folha.
.CIA: como agência americana impulsionou Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Na Pública, Thiago Domenici mostra a participação da Igreja no golpe de 1964 e seus vínculos com os Estados Unidos.
.Em 20 anos, preço dos alimentos subiu 60% acima da inflação geral, diz estudo. Pesquisa aponta fatores da inflação dos alimentos que penaliza produtos naturais e beneficia os ultraprocessados. No Joio e o Trigo.
.A insegurança estrutural da juventude brasileira. Marcio Pochmann fala sobre o mal-estar da juventude hiperconectada e suas consequências políticas. No Outras Palavras.
.Herdeiros da Ditadura. De Tuma a Ustra, os filhos de agentes da repressão que atuam na política e defendem a ditadura militar. No Brasil de Fato.
.Helenira Resende, a guerrilheira negra que o golpe militar fez desaparecer. Nos 62 anos do golpe militar, a Alma Preta resgata a história da militante que participou do movimento estudantil e da guerrilha do Araguaia.
*Ponto é escrito por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
Fonte ==> Brasil de Fato


