Haddad argumenta que, em recente pesquisa Datafolha, realizada em dezembro, economia, inflação e preços altos foram apontados como os principais problemas do país por não mais de 11% dos entrevistados, atrás de saúde (20%) e segurança (16%). Aponta ainda que o tema continua importante no mundo, mas é menos decisivo num cenário de polarização política.
Por esse raciocínio, humores de um eleitorado radicalizado são mais suscetíveis a emoções, e indicadores favoráveis ao incumbente, como o desemprego mais baixo da série iniciada em 2012, não bastam para sensibilizar os partidários do outro lado.
A tese é interessante —e também pode ajudar a explicar a tolerância de petistas e simpatizantes com maus resultados da administração que elegeram. Teoria à parte, o fato é que Luiz Inácio Lula da Silva, como qualquer candidato competitivo ao governo, atribui papel central à economia em sua estratégia eleitoral.
A sua concepção de economia, claro: impulsionar a demanda, sobretudo o consumo das famílias, por meio do aumento do gasto público, de modo a aquecer a atividade e o mercado de trabalho, mesmo que à custa de mais instabilidade financeira, inflação, juros e dívida pública.
Nas palavras do próprio Lula, na reunião ministerial de dezembro: “Não tem macroeconomia, não tem câmbio; se tiver dinheiro na mão do povo, está resolvido o nosso problema. Está resolvido o problema da industrialização, está resolvido o problema do consumo, está resolvido o problema da agricultura, está resolvido o problema da inflação”.
Não foi por outro motivo que a isenção do Imposto de Renda para rendimentos até R$ 5.000 mensais —anunciada inicialmente, aliás, pelo próprio Haddad, em cadeia de rádio e TV— se tornou a principal bandeira da campanha ao quarto mandato.
Resta saber como Lula lidará com a percepção crescente de que sua política populista está perto do esgotamento.
Em sua primeira candidatura vitoriosa ao Planalto, em 2002, o petista cuidou de preparar o eleitorado para ajustes inevitáveis e, depois, teve a sorte de contar com um ciclo excepcional dos mercados globais; o exemplo oposto no partido é o de Dilma Rousseff, que se reelegeu à base de negacionismo fiscal e perdeu as condições de governar.
Quaisquer que sejam as preocupações primordiais do eleitorado, seu enfrentamento depende de crescimento econômico duradouro, preservação do poder de compra da moeda e solvência do Estado. Sem isso, o “dinheiro na mão do povo” se esvai como o capital político dos governantes.
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Fonte ==> Folha SP


