Em setembro de 2024, escrevi nesta coluna que importar agendas estrangeiras costuma ser um tiro no pé e usei o caso das tarifas canadenses contra carros elétricos chineses para ilustrar como Ottawa, ao copiar Washington, acabou provocando uma retaliação que atingiu a canola e expôs a dependência de um setor que não estava no centro do debate. Aquele episódio mostrava que relações econômicas com a China exigiam cálculo fino, não reflexos herdados do discurso americano.
Menos de dois anos depois, o Canadá acaba de assinar um acordo com Pequim que reduz a tarifa sobre veículos elétricos chineses a um nível próximo do praticado pela Organização Mundial do Comércio, reabre espaço para o agronegócio canadense e introduz medidas de facilitação de viagens e investimento. Consumidores terão acesso a produtos mais baratos, e agricultores voltam a um mercado essencial.
Esse gesto não pode ser lido apenas como um cálculo doméstico. Desde que Donald Trump retomou a Casa Branca, Washington tem usado tarifas e controles como instrumentos de pressão, não como barganha coordenada com aliados.
Não foram poucos os analistas americanos que viram na guinada canadense uma espécie de desafio ao unilateralismo de Washington, argumento corroborado pela postura do premiê Mark Carney em Davos nesta semana, alertando que vivemos uma ruptura e que os países médios precisam ocupar a mesa das negociações antes que se vejam servidos no cardápio dos outros. Soa como provocação, mas expressa uma realidade.
O Canadá percebeu que ficar preso a um único parceiro que usa o comércio como arma gera insegurança e perda de autonomia, enquanto Pequim soube explorar bem essa conjuntura. Intelectuais chineses vêm celebrando desde a reunião de Carney com Xi Jinping a postura canadense como racional e alinhada ao multilateralismo.
China, terra do meio
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A China continua longe de ser um parceiro dócil, mas soube resistir à pressão de 2025 consolidando parcerias comerciais e geopolíticas sem ceder em pontos centrais. Também diversificou exportações para Ásia, México e Europa, o que reduziu sua vulnerabilidade à política americana. O objetivo final continua sendo traduzir a resiliência externa para alguma recuperação interna, mesmo com consumo doméstico fragilizado.
Para o Brasil, esse episódio oferece uma lição simples. Em 2024, o Canadá acreditou que reproduzir a retórica americana traria custos zero e ganhos reputacionais. O resultado foi o contrário, com prejuízo para agricultores e nenhum avanço industrial. Agora, Ottawa corrige a rota e decide negociar algo que faça sentido para sua própria economia e assume o risco diplomático de irritar Washington.
Países médios vivem nesse espaço estreito entre potência econômica, incerteza geopolítica e necessidade de autonomia. Em uma ordem mundial sendo reescrita às claras por Trump, é ainda mais necessário ter discernimento para identificar interesses reais, calcular riscos e agir com paciência, tarefas que não são compatíveis com copiar agendas de outros países desenvolvidos.
O Canadá apanhou na primeira rodada e se recuperou na segunda. Melhor aprender com o exemplo do que repetir o mesmo tropeço. Diante da crescente rivalidade e pouca coordenação entre as grandes potências, ganhar tempo e margem de manobra virou uma habilidade estratégica que separa quem só reage de quem realmente se posiciona.
Fonte ==> Folha SP


