Talvez você tenha percebido que, nos últimos anos, a China virou queridinha das redes sociais e de influencers digitais mundo afora. Basta rolar o feed do Instagram e lá estão dezenas de vídeos mostrando o quão seguro, ordeiro, barato e cordial o país é, para a surpresa dos milhões de turistas que o visitam.
Há nesta equação, claro, uma parte que é resultado de campanha de promoção financiada pelo governo chinês. Não são poucas as oportunidades de viajar para lá com tudo pago por Pequim, em viagens planejadas para mostrar a estrangeiros o que os chineses têm de melhor.
Mas seria desonestidade intelectual atribuir apenas à propaganda estatal tamanho sucesso, especialmente entre a geração Z. Então o que explica a repentina popularidade de um lugar tantas vezes retratado como autoritário e restritivo?
Vi nesta semana uma antropóloga se debruçando sobre a pergunta. O canal AnthroDorphins analisa o fenômeno “Entering my China Life Era”, uma trend nas redes sociais em que jovens simulam aspectos culturais chineses —e aqui não estão falando de vestir hanfu ou lutar kung fu, mas de tomar cerveja Tsingtao, jogar mahjong e usar o “biquíni de Pequim” (homens que sobem a camiseta e deixam a barriga à mostra).
Na análise, a China ocupa na cabeça de muitas pessoas nos EUA não um ideário do que devem ser, mas uma lembrança do que estão perdendo. Os americanos hoje lidam com sua própria variante autoritária na Casa Branca, mas estão longe do modelo chinês, em que o contrato social requer perda de liberdades individuais em troca de cidades limpas, renda em ascensão, transporte público funcional e segurança.
Por lá, as pessoas não interagem com a China real, mas com uma “versão simbólica que absorve tudo que os americanos temem estar perdendo: comunidade, estrutura, competência, limites, continuidade cultural e cuidado com os idosos”.
Como não se sentir desiludido por um sistema que privilegia elites, limita acesso à saúde, não estanca a crise de opióides, sofre com violência urbana e ataques com arma de fogo… enquanto o “inimigo comunista” parece ter a resposta de forma mais efetiva?
E se a lógica do “isso é o que estamos perdendo” funciona nos EUA, no Brasil ela se aplica no sentido “do que poderíamos ser e não somos”. Até 1995, tínhamos um PIB maior que o chinês, e até 2017, nossa renda per capita também era maior. Em 2026, nos vemos com os mesmos problemas daquela época, enquanto nosso maior parceiro comercial caminha a passos largos para se consolidar como grande potência.
China, terra do meio
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Perdi a conta de quantas vezes debati com meus professores chineses se o modelo de lá era ou não passível de replicação no Sul Global, quase sempre chegando a uma conclusão pessimista de que as condições para tal revolução —bônus demográfico, execução centralizada de políticas públicas etc.— não estão postas em nenhum outro lugar.
Questiono-me hoje se esta não é uma conclusão simplista. A despeito dos ingredientes que não temos, o resultado nas nossas sociedades é produto de escolhas políticas. A China avançou mais rápido porque transformou sua economia ao combinar reformas estruturais de longo prazo, alta taxa de investimento e foco na industrialização e exportação competitiva, integrando-se às cadeias globais de produção.
Por aqui, enfrentamos crescimento baixo e instável, menor dinamismo industrial, dependência de commodities e limitações em educação, produtividade e tecnologia. Talvez seja o momento de olhar menos para o norte e empregar exemplos do leste.
Fonte ==> Folha SP

