16 de janeiro de 2026

Dois cérebros, um comportamento – 15/01/2026 – Suzana Herculano-Houzel

Dois homens estão posando para a foto em um ambiente de teatro. Ambos seguram violões de madeira clara. Eles estão vestidos com camisetas pretas e têm expressões amigáveis. Ao fundo, é possível ver assentos de um auditório.

Acabei de recusar uma palestra em um evento de estudantes em Coimbra por uma razão muito especial: a oportunidade ímpar de ver em Nashville, ao vivo e da terceira fila, os irmãos Sérgio e Odair Assad tocando seus violões na mais perfeita harmonia, como se fossem uma pessoa só comandando quatro braços ao mesmo tempo. Nunca os vi tocar em pessoa, mas conheço de cor seu álbum “Alma Brasileira”, que beira a perfeição aos meus ouvidos.

Um duo de violões enfrenta um desafio muito maior do que, digamos, um dueto de piano e violino. O dueto produz duas melodias facilmente distinguíveis, pelos timbres diferentes dos instrumentos, que se combinam em uma música só. É claro que é preciso entrosamento e sincronia, mas o formato é razoavelmente caridoso com pequenas aventuras aqui e ali onde um musicista se destaca ligeiramente do outro.

Um duo de violões, não: a mágica real só acontece quando os olhos veem dois violões, mas ouvem só um, impossivelmente rico e denso demais para ser tocado por uma pessoa só —mas como é possível dois cérebros tocarem como um?

As gêmeas Abby e Brittany Hensel respondem. Desde suas primeiras semanas de vida, quando seu embrião começou a se dividir em dois mas não completou a divisão, elas têm cabeças, cérebros, pulmões, corações e estômagos próprios —mas dividem todo o resto, com apenas dois braços e duas pernas. Abby, do lado direito, controla braço e perna do lado direito; Brittany controla o outro lado.

Abby e Brittany são duas pessoas diferentes que operam em duo desde que nasceram. Como Sérgio e Odair usam seus violões para criarem uma única música, Abby e Brittany usam seus respectivos lados do corpo para funcionarem como o que, à distância, parece ser uma pessoa só. Andam, dirigem, têm sua própria casa, são professoras de escola primária —e, muitas vezes, dizem a mesma coisa ao mesmo tempo.

Não tenho notícia de estudos sobre seu sistema nervoso, nem sei se equipamentos modernos de ressonância magnética dariam conta de escanear dois cérebros de uma vez. Mas tudo o que já aprendemos com a neurociência permite supor que seus sistemas nervosos se desenvolveram lado a lado, em territórios mutuamente excludentes que formaram um meridiano nada imaginário: Abby, em seu lado do corpo, fica vermelha, sua e sente calor enquanto Brittany ainda está confortável. O corpo delas não é controlado simultaneamente por dois cérebros; cada metade é controlada por um cérebro só.

Se funcionam em perfeita harmonia, como um único corpo, é porque aprenderam a funcionar assim. Aprender é modificar os circuitos do cérebro conforme a experiência desses circuitos; como são os padrões de atividade do cérebro que produzem o comportamento, aprender é por definição mudar o comportamento em consequência… do próprio comportamento.

Quaisquer dois cérebros que produzem comportamentos diferentes e que notam que têm o poder de mesclar aqueles comportamentos em um só já têm meio caminho andado para funcionarem como um todo único. O que falta é afinar os sentidos para prestar atenção no outro, e, com milhares de horas de prática, construir e refinar a capacidade de antecipar o que e quando o outro vai fazer. Apenas responder ao outro não basta; um verdadeiro duo funciona em conjunto num jogo constante, mas com zero esforço, de predição do futuro.



Fonte ==> Folha SP

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