27 de fevereiro de 2026

É IA ou não é? – 26/02/2026 – Suzana Herculano-Houzel

Sequência de números binários em azul claro dispostos em linhas horizontais sobre fundo preto, simulando dados digitais em movimento.

Minha mãe vive no Facebook, e eu vivo tentando tirá-la de lá. Começou como uma coisa saudável, de fato social, onde ela, socióloga recém-aposentada, interagia com novos colegas em novas paragens que ela não descobriria de outra forma. Para ela não ficar se sentindo isolada sob meu dedo acusatório, meu marido é outro que não larga do diabo da plataforma. O uso dele também é até certo ponto saudável: é como ele de fato mantém contato com seus amigos espalhados mundo afora, feitos em uma carreira global.

Mas os dois sucumbem facilmente à tentação de ficar rolando telas sem fim. Minha mãe nos bombardeia com links incessantes para vídeos com dicas disso e daquilo. Eu preferiria mil vezes que ela nos contasse diretamente sobre o que aprendeu. Daquela forma como as pessoas costumavam conversar e contar casos face-a-face, lembra como era?

Os outros links que ela nos manda são de aves variadas. Tudo bem, essas têm que ser mostradas mesmo numa conversa. Mas eis o problema: a maioria não é real, é criada por IA. O mesmo hoje em dia se aplica a humanos. Que lindo: aprendemos a nos excluir da equação (Preciso avisar que é ironia? Está avisado, por via das dúvidas). Nem precisamos mais aparecer na frente da câmera, pois tanto imagens estáticas como em movimento já podem ser criadas por IA.

As consequências para um mundo que já era assolado por mentiras descaradas (fake news é o cacete!) são terríveis, porque agora as mentiras têm cara —e os estudos mostram que elas são com frequência mais do que críveis: são hiper-realistas, mais convincentes como humanas do que rostos humanos.

Minha colega de departamento na Universidade Vanderbilt, Isabel Gauthier, é especialista em reconhecimento visual e está estudando o fenômeno. Dado um par de rostos, um real e outro criado por IA, ela descobriu que a habilidade humana de detectar qual é qual depende do que ela chama de “O”, que é a “habilidade generalizada de reconhecer objetos”, mensurável e característica de cada pessoa.

Isabel descobriu que indivíduos com O baixa caem fácil na armadilha do hiper-realismo. Curiosamente, eles são muito bons em separar rostos reais de rostos criados por IA —mas consistentemente acham que o rosto gerado por IA é o humano. Ao contrário, indivíduos com O alta são consistentemente bons em fazer a distinção e identificar como tal o rosto gerado por IA.

A diferença parece vir de um apego inflexível a detalhes das pessoas com O baixa, que as torna presa das características humanas exageradas pela IA. Pessoas com O alta, ao contrário, têm flexibilidade e empregam critérios diferentes quando avaliam imagens diferentes, o que as liberta das garras dos algoritmos enganadores.

Qual dos dois você é? Qualquer que seja a resposta, fica a dica: você sempre pode se convidar a olhar de novo e tentar pensar diferente. Ou, quem sabe, sair do Facebook e conversar com pessoas de verdade, que os seus sentidos atestam que são reais.

Pelo menos os dinamarqueses bobões adoráveis que meu marido segue no Facebook provavelmente ainda são reais. Pena que o humaninho bonitinho que fala com um deles está sendo claramente treinado para atuar para a câmera. Quando não é inteligência artificial, é realidade artificial. Em que mundo vivemos…

Referências

Chow JK, McGugin RW, Gauthier I (2026). Domain-general object recognition predicts human ability to tell real from AI-generated faces. J Exp Psychology 155, 629-648.



Fonte ==> Folha SP

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