O governo Donald Trump decidiu nesta sexta-feira (29) retirar as permissões que mantinham duas gigantes coreanas do setor de semicondutores operando na China com equipamentos americanos. A medida obriga a Samsung e a SK Hynix a solicitar licenças para qualquer atualização tecnológica e, na prática, compromete a competitividade de linhas que respondem por uma fatia considerável da produção mundial de memória.
A decisão dá continuidade a uma política iniciada na era Joe Biden, que já havia imposto controles de exportação com alvos cirúrgicos em chips para inteligência artificial e supercomputação, mas com uma lógica mais ampla.
Agora, cristaliza o desacoplamento tecnológico como política oficial e faz do setor um motor de industrialização em um país cujo consumo desacelera. Com a política comercial errática da Casa Branca, acelerar na força bruta o crescimento em tecnologias críticas como chips e inteligência artificial pode ser o atalho mais rápido para os números grandiosos que Trump adora exibir em suas coletivas de imprensa.
Essa guinada, no entanto, não atinge apenas a China. Ela lança no fogo um aliado crucial no Indo-Pacífico: a Coreia do Sul. Samsung e SK Hynix, símbolos da inserção global de Seul, tornaram-se alvos colaterais de uma estratégia que não apenas busca conter Pequim, mas também favorecer empresas americanas como a Nvidia (que obteve licença de exportação mediante repasse de lucros ao Tesouro) e a Intel, com 10% de suas ações agora cedidas ao governo.
O resultado é um dilema para aliados que dependem do mercado chinês e, ao mesmo tempo, da proteção militar americana.
Pequim também será afetada, mas muito menos que antes. Desde 2022, quando Biden anunciou as primeiras sanções à indústria de microchips chinesa, o governo vem transformando restrições em combustível para acelerar a autossuficiência.
Já há planos para triplicar a produção nacional de chips de inteligência artificial até 2026, com a Huawei à frente de novas fábricas. Paralelamente, a China reforçou o controle sobre minerais críticos como gálio e germânio, ampliando o campo de batalha para toda a cadeia de valor —que, ato contínuo, voltou a brandir a ameaça de tarifas caso os EUA não recebem os imãs cuja produção e mineração os chineses dominam.
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Apesar da propaganda, a China ainda está distante dos EUA nesse campo, mas nem sempre quem larga na frente vence a corrida. Pouco a pouco, delineia-se um sistema em que Washington sustenta seu ecossistema com tarifas, licenças e subsídios, enquanto Pequim busca blindar-se de vulnerabilidades externas e criar padrões próprios. O resultado, inevitavelmente, é perda de eficiência, duplicação de esforços e custos mais altos para empresas e consumidores.
Faz tempo que a disputa pelos semicondutores deixou de ser mero conflito comercial. Ela é agora uma corrida de sobrevivência tecnológica, arrastada por uma espiral destrutiva que torna improvável qualquer descompressão no curto prazo.
A grande ironia é que políticas desenhadas para preservar a liderança americana podem, no fim, acelerar a fragmentação do sistema global. A guerra dos chips pode mostrar aos EUA que, ao tentar conter um rival, acabam cedendo sua própria capacidade de moldar o futuro.
Fonte ==> Folha SP