Para mim, Sigmund Freud disse tudo o que se tem a dizer sobre o dualismo felicidade e infelicidade, de forma sintética, no seu grandioso “Mal-Estar na Civilização“: a felicidade é episódica, e ela não parece fazer parte dos planos da criação.
O tema “felicidade” deve ser o topo da lista de vendas em qualquer plataforma de conteúdo no século 21. Chama a atenção o fato que não deixemos claro que o ponto de partida do tema seja o caráter estrutural da infelicidade. O que está em questão aqui, na verdade, é o dualismo felicidade e infelicidade. Falar de uma é, necessariamente, falar da outra.
Se pegarmos, por exemplo, o best-seller americano de Arthur Brooks “The Happiness Files”, ou arquivos da felicidade, de 2021, vemos um exemplo do que hoje se chama “ciência da felicidade“.
A primeira parte do livro mapeia, de forma didática e consistente, as principais causas da infelicidade em nosso ridículo século. Numa tradução selvagem, “fazendo a gestão de si mesmo” é o título da primeira parte. Fracassos, exaustão, dificuldade de dizer “não”, a prática da autocontenção ajuda muitas vezes.
Uma vez tendo as necessidades básicas assistidas, o resto importa pouco ou, ao contrário do que pensavam os românticos e existencialistas, a tão glamorizada autenticidade pode levar você a encher o saco dos outros, mas levar à felicidade é muito pouco provável.
E por aí vai. O autor, sem dúvida, analisa as principais causas que nos atormentam no mundo contemporâneo, passando por temas como redes sociais, polarização, política —território que para o autor é uma enorme cilada como esperança de alguma felicidade—, consumo, medo, insegurança social.
Se olharmos mais a fundo para esse dualismo, veremos que a filosofia nunca encontrou um grande denominador comum ao refletir sobre ele.
Na Antiguidade, foi muito comum em pensadores como Aristóteles, Epicuro e estoicos entenderem a felicidade como o resultado de uma construção pessoal, na interação com a pólis ou a política —principalmente em Aristóteles. A ideia de esforço contínuo que levaria as pessoas a atingirem um certo controle sobre o desejo —sob o olhar antigo, ao contrário do olhar contemporâneo, um grande amigo da infelicidade.
A felicidade seria uma espécie de “segunda natureza” atingida por meio do esforço da virtude em busca da excelência no exercício das próprias virtudes. Aliás, para muitos, a concepção de virtude em si é a ideia de excelência prática de bons comportamentos.
No caso do epicurismo é muito clara a busca de um desejo comedido, próximo das necessidades básicas, parceiro da ideia de que prazer é a ausência de dor. No estoicismo, a busca pelo autodomínio é essencial, assim como superar a intenção de controlar o incontrolável, em si a maior parte das coisas na vida. Arriscaria dizer que o estoicismo, nesse caso, faz um enorme contraponto à ideia moderna de que a felicidade é resultado de mecanismos cada vez mais aperfeiçoados de controle das infinitas variáveis que nos assolam.
A filósofa contemporânea Martha Nussbaum, especialista em antiguidade grega e ética trágica, acrescentaria, com razão, a ideia de que a felicidade, como um bem individual e coletivo que é, seria uma frágil realização em meio à fúria da contingência ou, como também se diz em filosofia, da fortuna. Os romanos cultuavam mesmo uma deusa da fortuna, minha deusa predileta.
Agostinho, filósofo já cristão e romano, entendia que o coração humano é, necessariamente, atravessado por uma inquietação herdada do pecado original de Adão e Eva, sendo este um orgulho profundo. Essa forma de soberba seria a tentativa constante de negar nossa insuficiência essencial quando não repousamos em Deus. Dito de forma simples: sem Deus, somos nada. Portanto, sem o transcendente, não há felicidade possível.
Essa ideia segue, ainda que de forma muito mais sofisticada, uma noção transversal em muitas religiões históricas, a de que sem o “sagrado todo-poderoso” estamos perdidos, inclusive, devido à pressão que ele exerce sobre nós.
E o que a modernidade tem a dizer sobre esse dualismo? Ah! A modernidade! Essa adolescente arrogante que nos cerca. Felicidade, grosso modo, desde o século 18 europeu, passa a ser um projeto racionalista de engenharia psicológica, social, política e tecnocientífica, ideia esta, aliás, que aparece na obra aqui citada de Arthur Brooks. Os românticos recusarão esse projeto.
Se identificarmos o que deu certo na nossa vida e dos nossos semelhantes, poderíamos atingir a felicidade? Esta seria a aposta da psicologia positiva? A resposta fica para um outro momento.
Fonte ==> Folha SP


