21 de março de 2026

Guerra no Irã mostra riscos de longo prazo para a China – 20/03/2026 – Igor Patrick

Três grandes navios cargueiros estão ancorados no mar, alinhados em perspectiva, com o maior navio em primeiro plano e os outros dois ao fundo. O mar está levemente agitado e o céu está nublado, com pouca visibilidade ao longe.

Os ataques americanos e israelenses contra o Irã produziram uma reação inesperada de Pequim. A China não condenou, não apoiou e não ameaçou. Enviou um diplomata à região, evacuou 3.000 cidadãos e continuou comprando petróleo via frota fantasma. Por quê? Para entender, é necessário posicionar a importância estratégica do Irã, que vai muito além de apenas fornecedor de energia barata, como afirmam algumas análises.

As compras chinesas respondem por 90% das exportações de petróleo iranianas e financiam, segundo analistas americanos, uma parcela decisiva do orçamento de Teerã (algumas fontes citam até 45%, embora este seja um número difícil de verificar). O volume real do comércio bilateral chegou a US$ 41,2 bilhões (R$ 217 bilhões) em 2025, mais de quatro vezes o número declarado.

Para Pequim, condenar os ataques, portanto, seria politicamente caro com Washington. Apoiá-los seria destruir um parceiro que depende da China para sobreviver.

Mas se a dependência é mútua, o conflito expôs onde a vulnerabilidade real está. A China atingiu 85% de independência energética em 2026 e produz cerca de 30% do petróleo que consome. O problema é que entre 35 e 38% do total importado ainda transita pelo Estreito de Hormuz, o que equivale a 5,4 milhões de barris por dia sem alternativa logística disponível, um gargalo geográfico muito real.

Diante do cenário, a indústria no país asiático começa a refletir as consequências. Cada alta de 10% no preço do petróleo eleva o índice de preços ao produtor chinês em 0,4 ponto percentual. Com o Brent acima de US$ 100, setores como plásticos e química, que operam com margens de 4,5%, absorvem custos sem conseguir repassá-los. Em 9 de março, o país registrou o maior aumento no teto de preços de combustíveis em quatro anos, encerrando o ciclo deflacionário com o pior tipo de inflação para uma economia exportadora.

O custo de longo prazo também é geopolítico e reside na famigerada Iniciativa de Cinturão e Rota, projeto para o qual o Irã é o nó geográfico que conecta o corredor terrestre à rota marítima. Pequim e Teerã trabalhavam há anos em um trecho ferroviário de mil quilômetros entre Sarakhs e Razi capaz de ligar a China à Turquia com nove dias de vantagem sobre as rotas atuais, mas as obras foram paralisadas após os ataques. O acordo de 25 anos assinado em 2021, com previsão de US$ 400 bilhões (R$ 2,1 trilhões) em investimentos, realizou menos de US$ 3 bilhões (R$ 15 bilhões) em cinco anos.

Com a rota física bloqueada, os chineses apostaram na rota financeira. Alteraram as regras do CIPS para processar outras moedas além do yuan, criando um canal imune ao sistema de pagamentos Swift, e a plataforma mBridge superou US$ 55 bilhões (R$ 292 bilhões) em transações no primeiro trimestre. Washington respondeu sancionando 12 embarcações da frota fantasma e mais de 1.300 entidades, tornando a disputa tão intensa quanto a militar.

Mas a guerra financeira não resolve o risco maior, motivo pelo qual o país se viu na obrigação de despachar seu enviado especial Zhai Jun a Riad em 8 de março. O objetivo era menos um esforço consciente de mediação diplomática e mais a necessidade de enviar a Teerã uma mensagem: não atacar refinarias na Arábia Saudita nem nos Emirados Árabes Unidos, países que movimentam mais de US$ 100 bilhões (R$ 530 bilhões) anuais com a China cada. Pequim não pode perder o Golfo para salvar o regime iraniano.

O silêncio em Pequim não é omissão, mas a única postura que permite à China manter o Irã funcional o suficiente para distrair Washington sem comprometer o Golfo Pérsico, do qual sua indústria ainda depende. Desde o início da guerra, esse equilíbrio vai ficando mais difícil a cada semana.



Fonte ==> Folha SP

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