Na madrugada deste sábado (14), a Acadêmicos do Tatuapé entrou no Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, para falar de reforma agrária, com o samba-enredo “Plantar para colher e alimentar: tem muita terra sem gente e muita gente sem terra”.
Para tratar de um tema tão importante, a escola contou com a parceira do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que mostrou, na prática, o resultado da divisão justa de terras, levando para o desfile duas toneladas de alimentos saudáveis produzidos pelas cooperativas do MST de São Paulo.
Abacaxi, melancia, macaxeira, pimentão e outros alimentos estavam no carro alegórico que encerrou o desfile. “Uma diversidade de produção feita pelas mãos do trabalhador sem terra”, exalta Carla Loop, da Coordenação Nacional do Coletivo de Cultura do MST. Depois do desfile, tudo foi doado à comunidade do Tatuapé.

Além da celebração à comida saudável, o carro final prestou uma homenagem a pessoas importantes na luta pela terra, como João Paulo Rodrigues, da Direção Nacional do MST, e personalidades que apoiam a luta pela reforma agrária.
Dentre os homenageados estavam Andresa Paiva, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Auri Junior, da Contraf, Carol Proner, jurista, Chico Pinheiro, jornalista, Raí, ex-jogador de futebol, Denildo Rodrigues de Moraes, o Biko, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), Sheila de Carvalho, Secretária Nacional de Acesso à Justiça do Ministério da Justiça, Fernanda Durazzo Oliveira, do MAM, e Márcia Lopes, Ministra das Mulheres.
“O MST sai muito feliz, a reforma agrária sai engrandecida e o tema dos alimentos, sem dúvida nenhuma, entrou para a agenda e para a pauta do Anhembi como um dos grandes momentos do Carnaval brasileiro”, celebrou o João Paulo Rodrigues.
O carro de encerramento teve a presença de personalidades políticas, como a deputada estadual Rosa Amorim (PT-PE) e a ministra das mulheres Márcia Lopes, que desceu do carro emocionada ao final do desfile.

“É uma emoção, é um conteúdo revolucionário. Só o que eu conseguia pensar, e chorar, é: por que a gente não põe em prática essa letra? O acesso à terra, o cuidado com a natureza, que as pessoas tenham alimentação”, disse a ministra.
Apoiador do MST, o ex-jogador de futebol Raí compôs o time dos destaques no carro dos homenageados. Para ele, o enredo da Tatuapé legitima a luta do movimento pela justiça no campo. “Pra mim, representa justiça social num país tão abundante de terras, como diz a letra da música, com muita terra para poucos”.
Com este desfile, o MST celebra 30 anos de história nos carnavais de sambódromos. Em 1996, a escola Império Serrano desfilou na Sapucaí, no Rio de Janeiro, com enredo “E Verás Que Um Filho Teu Não Foge à Luta”. O samba homenageava o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho (1935-1997), coordenador da Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida. Militantes do MST desfilaram em alas representando a reforma agrária.

O movimento também já esteve presente em desfiles das escolas Nenê de Vila Matilde e Camisa Verde e Branco, em São Paulo; e com a Vila Isabel, no Rio de Janeiro.
“Trazemos de volta a pauta que ficou escondida por muito tempo. É muito importante. Temos muita gente acampada no Brasil, muita gente morando debaixo da lona preta. E vir pro sambódromo em São Paulo, nós trazemos a pauta da discussão da distribuição de terras”, diz Sebastião Aranha, assentado pela reforma agrária há 25 anos, morador do assentamento Pirituba II, em Itaberá, no interior de São Paulo.
‘Nosso povo’
Na arquibancada do Anhembi, Gene Santos, da Direção Nacional do MST, mantinha o olhar fixo na avenida. A cada nova alegoria, os olhos brilhavam. “Coisa linda, meu Deus do céu”, exclamava.
Era a primeira vez que ele assistia ao desfile no sambódromo. “É o nosso povo!”, exclamou, ao ver passar a ala do cacau, formada pelos sem-terras.

Gene veio do assentamento Monte Alegre, no Ceará, para prestigiar o desfile da Acadêmicos do Tatuapé.
“Essa essa fartura, a denúncia contra o agronegócio, essa questão da necessidade da reforma agrária como uma saída para o país… Eu acho que tá tudo muito emocionante, muito emocionante”, celebrou.
Ao todo, o MST levou para o Sambódromo do Anhembi cerca de 200 pessoas. Dessas, 60 desfilaram na ala do cacau. Outras estavam no carro alegórico dos homenageados e muitas na arquibancada, balançando os bonés diante dos acenos dos companheiros que passavam pela avenida.
Conheça a letra do samba-enredo em homenagem ao MST:
Tupã! Num sopro de ternura
Concebeu a Agricultura para os filhos desse chão
Trovejou, lá no alto da palhoça
Quando o orvalho molha a roça e perfeita a comunhão
Mas veio o invasor e a terra então sangrou
Negro plantou resistência
Canudos semeou a rebeldia
Cada enxada levantada liberdade florescia
Mas a ganância por terra sem gente
Faz muita gente sem terra chorar!
Quem planta o mal, espalha ambição
Me dá! me dá, um “pedacim” de chão
Lavoura ê! Lavoura!
Mãos calejadas no cultivo da semente
Lavoura ê! Lavoura!
Floresce da terra a fé dessa gente
Alimentar e plantar o amor,
Proteger é cuidar desse chão
Abraçar o nosso irmão contra a desigualdade
Para colher dignidade
Em cada gota de suor eu vi
Brotar, crescer e acreditar
Que a esperança está no amanhã, e assim será…
Viver é partilhar e nada em troca esperar!
Tem festa na roça, até o amanhecer
Divide esse chão, pro nosso povo colher!
Tatuapé, me chama que eu vou!
Puxe o fole sanfoneiro, no toque do agogô!”
Fonte ==> Brasil de Fato


