Passei a última semana lendo ensaios e ouvindo podcasts sobre inteligência artificial e cheguei às seguintes conclusões: a IA vai mudar tudo, a IA é uma fraude; a revolução da IA é exponencial e infinita, a IA já atingiu o seu planalto; a IA vai ser catastrófica para o emprego, a IA vai gerar produtividade e prosperidade infinitas.
Nas últimas 24 horas, porém, emergiu uma nova preocupação, particularmente entre intelectuais nas redes sociais: a de que a esquerda já perdeu porque não tem narrativa sobre a IA. Ao mesmo tempo é como se a direita estivesse isenta da mesma obrigação, ou como se a IA já fosse de direita mesmo.
Pobre esquerda! Correndo sempre atrás do prejuízo. Ainda mal começou o jogo da IA e a derrota da esquerda já está proclamada.
O ponto em que essa visão das coisas falha é que, enquanto tal, a esquerda (tal como a direita, aliás) não tem que ter uma posição de esquerda sobre ferramentas —o serrote, a colher de pau, o satélite ou o robô— mas sobre a organização social na qual essas ferramentas se inserem. Essa visão é que é propriamente a ideologia, que ao mesmo tempo precede e prolonga a IA.
A inteligência artificial por si só não cria nem destrói empregos; ela só o faz dependendo da forma de gestão e distribuição que entendermos para os empregos que for necessário haver.
De forma análoga, a IA pode permitir-nos mandar mais emails, fechar mais processos ou organizar mais planilhas; mas não é a inteligência artificial que vai resolver o conflito que se coloca perante uma prefeitura, um estado ou o governo federal e que pode facilmente ir parar aos tribunais. Esse é um conflito humano, que cria e é criado pela nossa entropia humana, e que os humanos resolverão —ou não.
Por isso o interesse da inteligência artificial não está nela, por si e em si. Está na interseção entre a IA e outras grandes tendências que se encontram agora em tensão, da qual escolho duas como essenciais: a guinada para o autoritarismo e a revolução nas tecnologias de saúde e prolongamento da vida.
Em tempos, a solução mais evidente para o fim de um regime tirânico era esperar que o tirano morresse.
Mas se há alguém que gostaria de não morrer é o tirano, como ilustrado por esta conversa que tiveram Putin e Xi Jinping em 3 de setembro do ano passado e na qual Putin disse que “com o desenvolvimento da biotecnologia, os órgãos humanos podem ser continuamente transplantados, e as pessoas podem viver cada vez mais jovens, e até mesmo alcançar a imortalidade”, e Xi respondeu que “as previsões são de que neste século será possível viver até aos 150 anos”.
Ninguém me convence que, em primeiro lugar, eles não estivessem pensando neles mesmos —e que Trump não tenha o mesmo tipo de desejo.
Ora, é fácil imaginar onde terminaria a confluência entre um autoritarismo tecnológico, assistido por vigilância e planejamento em IA, e uma esperança de vida drasticamente aumentada para quem tivesse o poder ou dinheiro de ter acesso a ela: num totalitarismo tecnológico prolongado.
Da mesma forma, a inteligência artificial pode ajudar na formulação de deliberações democráticas que nos permitam ter uma democracia de mais alta intensidade e escolha com menos dificuldade para os cidadãos. Tudo depende de que líderes sejam mais persuasivos e de quais narrativas.
Fonte ==> Folha SP


