Há 62 anos, o Brasil assistia à queda do presidente João Goulart, marco do início do golpe que instaurou uma ditadura cívico-militar e teve interferência direta dos Estados Unidos. “Essa é uma questão que perpassa não só o Brasil, como todos os países da da América Latina que, em algum momento, se viram envolvidos em regime autoritário. Todas essas ações intervencionistas têm uma relação com o cenário de Guerra Fria”, analisa o professor de história Pablo Porfírio, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em entrevista ao programa É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato.
Porfírio aponta que, dentre as estratégias de ingerência adotadas pelo governo estadunidense, estão a criação de consulados e o financiamento de candidaturas, especialmente no Nordeste, para se contrapor às forças progressistas na região. “É uma desestabilização, uma intervenção direta no processo eleitoral brasileiro”, afirma.
O historiador lembra que todo o cenário foi potencializado com a Revolução Cubana, em 1959, que mostrava “para as esquerdas na América Latina a possibilidade de uma revolução” a partir da organização dos trabalhadores. “Tanto é que a gente observa essa intervenção nesse bloqueio há muitos anos dos Estados Unidos sobre Cuba e agora de forma cada vez mais intensa”, pontua.
Porfírio destaca o envio de Edward Kennedy, em 1961, a Pernambuco, pelo presidente e irmão dele, John Kennedy. “Ele queria uma pessoa de confiança que fosse seu assessor e que observasse in loco o que era a organização dos trabalhadores rurais, dos camponeses, sobretudo nas ligas camponesas”, explica.
O cenário atual evidencia que a tradição intervencionista estadunidense segue forte com as articulações da extrema direita brasileira. Um dos movimentos recentes nessas direção foi a tentativa de um assessor do presidente dos EUA, Donald Trump, visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na Papudinha, onde cumpre pena de 27 anos e 3 meses por tentativa de golpe de Estado. O pedido foi negado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. O Ministério das Relações Exteriores chegou a apontar a investida como uma ameaça à soberania nacional.
Outro episódio aconteceu no último sábado (28), quando o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), durante um evento no Texas, adotou um discurso de subalternidade do Brasil com relação aos Estados Unidos, defendendo, inclusive, a cessão de terras raras. “[O Brasil] é a solução para os Estados Unidos quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente terras raras“, declarou, além de defender “valores americanos” e a intervenção nas eleições deste ano no Brasil.
“Não vamos falar em repetição, mas é uma excelente comparação. Porque, veja, há uma prática do Departamento de Estado norte-americano que permanece. Com alterações, com novos instrumentos, mas alguma coisa permanece”, avalia.
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Fonte ==> Brasil de Fato


