Deve ser difícil a rotina de professores que precisam explicar a jovens as manchetes contemporâneas. Comecemos por reconhecer que as manchetes já refletem a confusão desta alquebrada classe redatora dos primeiros rascunhos da história.
O que aconteceu em Washington nesta quarta-feira (14)? Um antigo aliado diplomático dos EUA despachou dois representantes para explicar ao vice-presidente e ao secretário de Estado que gostaria de não sofrer uma invasão militar. E mais: que não tem interesse em renunciar a um território maior do que as áreas de Reino Unido, Alemanha, França, Espanha e Itália somadas.
O Reino da Dinamarca, a quem pertence a Groenlândia, desde o século 18, não foi um aliado oportunista dos Estados Unidos. Foi um membro fundador da Otan. Mandou seus soldados lutarem e morrerem ao lado dos americanos no Afeganistão e no Iraque.
Ao contrário de culturas de países que sofreram golpes na armadilha bipolar da Guerra Fria, os dinamarqueses, até a década passada, expressavam franco afeto pelo Tio Sam.
A insistência em ameaçar um país com menos habitantes do que Nova York e frequentador do topo das listas de bem-estar populacional é um tiro no pé que nem o experiente secretário Marco Rubio pode explicar a portas fechadas sem esconder um par de dedos cruzados nas costas.
A Groenlândia precisa de proteção americana contra a gula da Rússia e da China? Não, a maior ilha do mundo já está sob a proteção da maior e mais bem-sucedida aliança militar da história, a Otan.
Faltam bases militares no território inóspito de menos de 60 mil habitantes? Foram os EUA que desocuparam e abandonaram mais de 30 bases militares que operaram na Groenlândia no período da Guerra Fria, deixando para trás lixo químico e radioativo.
É seguro apostar que uma vasta parcela da população dos EUA não sabe localizar a Groenlândia no mapa. Assim, chama atenção a mais nova pesquisa realizada esta semana: só 17% dos americanos se declararam a favor de qualquer iniciativa para anexar o território e 71% condenaram a ideia de tomar a ilha pela força.
Os demagogos que hoje regurgitam clichês isolacionistas e citam com ignorância a Doutrina Monroe do século 19 —que, além de não ser doutrina, era uma declaração contra o colonialismo europeu— ignoram que o país dependeu de aliados para sua fundação, com o apoio decisivo da França contra o império britânico. Além disso, a república sobreviveu ao seu conflito mais sangrento, a Guerra Civil, graças à febril atividade diplomática que manteve países como França e Reino Unido, decididos a não reconhecer a autonomia do sul escravagista.
Lá Fora
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Uma agressão à Groenlândia deve, como preveem líderes europeus, representar o colapso da Otan que conhecemos hoje. E não há vodca suficiente no Kremlin para animar a comemoração desta morte anunciada.
E, por favor, vamos parar de chamar impulsos de “doutrina”. O próprio Barack Obama, a quem tentaram atribuir uma filosofia diplomática, confessou que a dele, depois da aventura do Iraque, podia ser resumida por “não fazer merda”.
A explicação para este dia surreal está facilmente ilustrada num momento de candor do presidente imobiliário durante seu primeiro mandato. “Adoro mapas”, disse Trump ao casal de repórteres Peter Baker e Susan Glass. “Olha o tamanho disso”, e apontou para a Groenlândia. “É enorme e deve fazer parte dos Estados Unidos.”
Fonte ==> Folha SP


