Como quase tudo que envolve o conflito israelo-palestino, o número de mortos durante os dois anos e dois dias da guerra na Faixa de Gaza, que findou com o cessar-fogo em outubro do ano passado, é objeto de intenso debate e contestação.
Ao longo dos combates, que levaram à obliteração do território governado pelo grupo terrorista Hamas, o Ministério da Saúde local somou 71.667 óbitos decorrentes de ações do Estado judeu.
Israel, por sua vez, apontava para o fato de que a pasta era controlada pelos mesmos terroristas que cometeram o atroz ataque de 7 de outubro de 2023, quando 1.179 pessoas, a maioria judeus israelenses, foram massacradas. Logo, eram números eivados de suspeitas.
A comunidade internacional sempre considerou os dados do ministério confiáveis, mantendo a controvérsia aquecida, e o governo obscurantista do premiê Binyamin Netanyahu, numa defensiva agressiva.
Na semana passada, uma anônima autoridade militar israelense começou a ajustar esse arco narrativo. Chamou jornalistas de veículos consagrados do país, como os jornais Yedioth Ahronoth e Haaretz, e admitiu que a conta do Hamas estava certa.
Depois, as Forças de Defesa de Israel publicaram sua divisão do cálculo macabro: 25 mil combatentes e 25 mil civis. Outros 6.000 civis teriam morrido por ações do próprio Hamas, e 15 mil, de causas naturais. Dos terroristas só há a cômoda afirmação de que tombaram “71 mil mártires”.
A disputa de números é cínica e esperada na guerra, desconsiderando o principal, que é a magnitude da tragédia que ocorreu. Como indicam estudos internacionais, a mortandade pode ter ido bem além dos 3,5% da população local, em armas ou não.
Para os críticos de Israel, foi um genocídio. Há acusações formais nesse sentido na Corte Internacional de Justiça e no Tribunal Penal Internacional, que são descartadas por Tel Aviv como fóruns antissemitas —a cartada usual quando a atuação bélica do país é questionada.
Estado que teve sua fundação viabilizada por uma tragédia inominável, o Holocausto, Israel deveria ter optado pela transparência. O país tem argumentos para refutar a acusação de genocídio e foi a primeira vítima neste embate, mas precisa explicar os evidentes excessos no conflito.
O mesmo se aplica ao Hamas, cuja decantada prática de imiscuir sua infraestrutura terrorista entre a população que subjuga em Gaza proporcionou peças de propaganda prontas, como hospitais atingidos por mísseis.
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Fonte ==> Folha SP


