3 de fevereiro de 2026

Israel muda discurso sobre morticínio em Gaza – 02/02/2026 – Opinião

A imagem mostra várias pessoas em um ambiente de luto, com foco em uma mulher vestindo um hijab preto, que está deitada sobre um corpo coberto com um lençol branco, expressando dor e tristeza. Ao fundo, outras pessoas estão próximas, algumas tocando os corpos, enquanto outras observam a cena com expressões de pesar.

Como quase tudo que envolve o conflito israelo-palestino, o número de mortos durante os dois anos e dois dias da guerra na Faixa de Gaza, que findou com o cessar-fogo em outubro do ano passado, é objeto de intenso debate e contestação.

Ao longo dos combates, que levaram à obliteração do território governado pelo grupo terrorista Hamas, o Ministério da Saúde local somou 71.667 óbitos decorrentes de ações do Estado judeu.

Israel, por sua vez, apontava para o fato de que a pasta era controlada pelos mesmos terroristas que cometeram o atroz ataque de 7 de outubro de 2023, quando 1.179 pessoas, a maioria judeus israelenses, foram massacradas. Logo, eram números eivados de suspeitas.

A comunidade internacional sempre considerou os dados do ministério confiáveis, mantendo a controvérsia aquecida, e o governo obscurantista do premiê Binyamin Netanyahu, numa defensiva agressiva.

Na semana passada, uma anônima autoridade militar israelense começou a ajustar esse arco narrativo. Chamou jornalistas de veículos consagrados do país, como os jornais Yedioth Ahronoth e Haaretz, e admitiu que a conta do Hamas estava certa.

Depois, as Forças de Defesa de Israel publicaram sua divisão do cálculo macabro: 25 mil combatentes e 25 mil civis. Outros 6.000 civis teriam morrido por ações do próprio Hamas, e 15 mil, de causas naturais. Dos terroristas só há a cômoda afirmação de que tombaram “71 mil mártires”.

A disputa de números é cínica e esperada na guerra, desconsiderando o principal, que é a magnitude da tragédia que ocorreu. Como indicam estudos internacionais, a mortandade pode ter ido bem além dos 3,5% da população local, em armas ou não.

Para os críticos de Israel, foi um genocídio. Há acusações formais nesse sentido na Corte Internacional de Justiça e no Tribunal Penal Internacional, que são descartadas por Tel Aviv como fóruns antissemitas —a cartada usual quando a atuação bélica do país é questionada.

Estado que teve sua fundação viabilizada por uma tragédia inominável, o Holocausto, Israel deveria ter optado pela transparência. O país tem argumentos para refutar a acusação de genocídio e foi a primeira vítima neste embate, mas precisa explicar os evidentes excessos no conflito.

O mesmo se aplica ao Hamas, cuja decantada prática de imiscuir sua infraestrutura terrorista entre a população que subjuga em Gaza proporcionou peças de propaganda prontas, como hospitais atingidos por mísseis.

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Fonte ==> Folha SP

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