Em outubro de 2024, 9 a cada 10 pessoas envolvidas no mercado financeiro (estatística meramente ilustrativa, mas próxima da realidade que vivenciei) receberam um link ou um PDF em seu WhatsApp com a reportagem da revista piauí que traçou um longo perfil de Daniel Vorcaro e expôs os negócios de alto risco do Banco Master.
À época, a distribuição dos CDBs (Certificados de Depósitos Bancários) do Master com prêmios irreais para investidores e comissões exageradas para vendedores já cheirava azedo nas mesas de distribuição de produtos da Faria Lima. A garantia pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos) estava no discurso de vendas de alguns, mas já se via que o negócio não parava de pé.
O Banco Central também já emitira, então, alertas e ofícios sobre a incapacidade do Master e seus coligados, como Will Bank, de arcar com os custos do que estavam armando.
Apesar disso tudo, foi naquele mesmo mês, outubro de 2024, que a agência de risco Fitch Ratings elevou a nota de classificação do Master de BBB para A-, ou seja, deu ao banco o sonhado grau de investimento.
Enquanto isso, o BRB (Banco de Brasília) recheava, a generosas colheradas, a carteira de seus fundos com títulos suspeitos do Master. Suas contas no período, entretanto, foram aprovadas “sem ressalvas” pela auditoria externa, EY (Ernst & Young).
Passei um bom tempo da semana passada analisando documentos que o BRB entregou à CVM, chamados Formulários de Referência. São documentos pelos quais as empresas detalham riscos, contratos e fatores que podem atrapalhar o desempenho de suas ações.
Folha Mercado
Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes.
Nessa papelada, me deparei com uma informação chamativa: em 2024, a EY recebeu R$ 4,5 milhões do BRB pelos serviços de auditoria. A reportagem sobre os valores e dados foi publicada no site Monitor do Mercado, na sexta-feira (6).
O valor chama mais a atenção quando vemos que, no exercício anterior, o pagamento fora de menos da metade desse valor: R$ 1,7 milhão. Ficando ainda mais interessante quando comparado com outros bancos públicos regionais, de maior porte, que costumam gastar algo na casa dos R$ 2 milhões.
Tudo isso me leva a questionar, novamente, como investidores se acostumaram a terceirizar o pensamento crítico, aceitando sem questionamento as notas de “rating” e balanços com o selo “ressalvas”.
Auditorias e agências de risco operam praticamente em oligopólios, sendo a esmagadora maioria das empresas na Bolsa auditadas por apenas quatro companhias, as chamadas Big Four. Além da EY, temos a PwC (PricewaterhouseCoopers), a Deloitte e a KPMG. Quanto às avaliações de risco de crédito, quando não são da Fitch, vêm da Moody’s ou da Standard & Poor’s (S&P).
Não digo que sejam irrelevantes. Certamente permitem evitar outros tantos problemas, que nem sequer vêm à tona, por serem corrigidos no percurso. Mas cabe questionar se estão cumprindo seu papel na sociedade. Agora que as investigações estão a todo vapor, o BRB anunciou que auditorias encontraram “achados relevantes” sobre o caso Master. E as notas de crédito do Master, aliás, foram rebaixadas. Tudo depois do leite derramado.
O caso entra para o hall da desconfiança do investidor, junto com a fraude da Americanas, os desvios da Petrobras e o colapso da chinesa Evergrande, todas com contas auditadas e aprovadas.
Na renda fixa ou na renda variável, confiar cegamente em números e carimbos é confortável até o dia em que o dinheiro evapora.
Fonte ==> Folha SP

