A Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) voltou, na sexta-feira (20), aos municípios de Itinga e Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, para uma nova vistoria no complexo de mineração de lítio do projeto Grota do Cirilo, operado pela multinacional canadense Sigma Lithium. A visita ocorreu em clima de tensão, já que parlamentares relataram ter sido alvo de intimidação em visita anterior e precisaram de escolta policial para garantir a fiscalização.
Segundo a deputada estadual Beatriz Cerqueira (PT), foram constatados indícios de crimes ambientais, além de abusos e tentativas de impedir a atuação do legislativo. A comissão buscava verificar as condições de segurança ambiental e humana no entorno do empreendimento, que vem sendo alvo de denúncias desde o início de sua operação.
Tentativa de impedir fiscalização
Logo na chegada ao complexo, a comitiva enfrentou resistência. Funcionários da empresa tentaram impedir o registro de imagens, alegando “espionagem industrial” e normas internas. Houve cerca de duas horas e meia de negociação, sem sucesso, segundo a ALMG. Para a parlamentar, a postura representa um desrespeito à função constitucional de fiscalização.
“Estamos cumprindo o papel de fiscalizar e nos tratam como se pudéssemos roubar segredos industriais”, afirmou Beatriz Cerqueira durante a visita.
Mesmo sem acesso às instalações internas, a comissão percorreu o entorno da mina, ouviu moradores e registrou denúncias que apontam para um possível novo crime ambiental ainda não formalmente apurado pelos órgãos competentes.
Rejeitos às margens do rio
Um dos principais pontos de preocupação são três grandes pilhas de rejeitos e estéril localizadas às margens do Rio Piauí, afluente do Rio Jequitinhonha. As estruturas seguem interditadas desde dezembro pela Superintendência Regional do Trabalho em Minas Gerais, que determinou 17 medidas urgentes a serem cumpridas pela empresa.
De acordo com relatos de moradores, parte de uma dessas pilhas teria desabado após as chuvas recentes, lançando material diretamente no leito do rio. Marcas do deslocamento dos rejeitos são visíveis em diferentes pontos da comunidade Piauí Poço Dantas, onde vivem cerca de 75 famílias, inclusive nas proximidades da Escola Municipal Nuno Murta.
“Nós estamos registrando um crime gravíssimo. Como deixaram essa pilha de rejeitos chegar na porta da casa das pessoas?”, questionou a deputada.
Cotidiano
Os impactos da mineração são sentidos no cotidiano dos moradores. As pilhas de rejeitos, que formam uma espécie de montanha artificial com vários níveis, alteraram drasticamente a paisagem local. Onde antes havia cerrado e vista para o rio, hoje predominam estruturas de mineração e sinais de contaminação.
Moradores relatam explosões frequentes no complexo. Durante a visita, sirenes soaram diversas vezes indicando detonações iminentes.
“Isso é porque vocês estão aqui. Se não, eles explodiam. Nós só queremos viver em paz”, disse a moradora Maura Ribeiro dos Santos, de 59 anos.
Além do medo constante, há danos estruturais nas casas. “Não tem um lugar na minha casa que não esteja rachando”, relatou Maria de Fátima Ribeiro dos Santos, de 62 anos.
Água imprópria e poluição do ar
Outro ponto crítico é a qualidade da água. Segundo moradores, o Rio Piauí passou a apresentar coloração esbranquiçada, semelhante a cimento, levantando suspeitas sobre contaminação e inviabilidade de uso para consumo humano, animais e irrigação.
Diante disso, a empresa passou a fornecer mensalmente cerca de mil litros de água para famílias da comunidade.
“Eles mandaram não beber mais água do rio, o que a gente sempre fez”, contou o agricultor Frontino Modesto, de 80 anos.
A poluição do ar também aparece como preocupação crescente. Moradores relatam a presença constante de um pó escuro que se deposita sobre casas e objetos, além do agravamento de problemas respiratórios.
Na visita à escola local, a deputada constatou que equipamentos de monitoramento da qualidade do ar instalados pela própria empresa estavam desligados. Para ela, o modelo de automonitoramento é problemático.
“É um absurdo que a própria empresa monitore a poluição que ela produz”, criticou.
Texto escrito com informações da ALMG.
Fonte ==> Brasil de Fato


