25 de janeiro de 2026

MST cobra que governo Lula destrave reforma agrária: ‘Não estamos satisfeitos com o que está acontecendo no campo’

“Nós não estamos satisfeitos com o andamento que está acontecendo no campo da reforma agrária, com a lentidão, com a morosidade, com a falta de recursos e com o ritmo do assentamento de novas famílias.”

A avaliação é de Márcio Santos, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e sintetiza o sentimento predominante entre militantes e lideranças do campo reunidos no 14º Encontro Nacional do movimento, realizado esta semana em Salvador (BA).

A crítica ocorre no mesmo momento em que o governo federal tenta reposicionar sua narrativa sobre o tema. Na última terça-feira (20), o ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, afirmou que 2026 concentrará a maior parte das desapropriações do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Segundo o ministro, foram viabilizados recursos orçamentários e extra-orçamentários, e 230 mil famílias já teriam sido incluídas no programa de reforma agrária, com previsão de outras 26 mil serem assentadas entre fevereiro e março.

Apesar dos anúncios, os números seguem distantes das expectativas históricas criadas em torno do retorno do petista ao Palácio do Planalto. Em mais de dois anos de governo, apenas 385 mil hectares foram incorporados ao programa, desempenho muito inferior ao registrado nos mandatos anteriores de Lula, quando cerca de 47 milhões de hectares foram destinados à reforma agrária entre 2003 e 2010.

No campo, a percepção é de que a pauta voltou à agenda institucional, mas sem a centralidade política necessária para enfrentar a estrutura fundiária concentrada do país.

Para Márcio Santos, o cenário é atravessado por uma conjuntura nacional e internacional adversa, marcada pela polarização política, pela força da extrema direita e pela necessidade do governo de priorizar a governabilidade em um Congresso fragmentado e hostil às pautas da classe trabalhadora. Ainda assim, ele afirma que a lentidão no assentamento de famílias acampadas, muitas há mais de uma década à espera de terra, não pode ser naturalizada.

A crítica é compartilhada por militantes de diferentes regiões do país. No extremo sul da Bahia, Douglas Rocha relata que há processos em curso para a criação de novos assentamentos, mas em um ritmo considerado insuficiente diante da demanda. “Temos muitos embates, mesmo com o governo estadual e federal do nosso lado, a conjuntura política não é tão simples”, comenta. Segundo ele, seis áreas estão em processo de liberação na região, incluindo o assentamento onde vive, mas os avanços dependem de negociações políticas constantes e enfrentam entraves burocráticos.

Douglas Rocha é militante do MST no Extremo Sul da Bahia

No Norte do país, a avaliação é ainda mais dura. Jucilene Barbosa, dirigente estadual do MST no Pará, afirma que a luta pela reforma agrária segue sendo uma disputa estrutural que ultrapassa fronteiras nacionais. Para ela, o enfrentamento ao imperialismo, à concentração de terras e às formas históricas de dominação continua sendo central para a construção de soberania popular, especialmente na Amazônia. “Vamos continuar lutando para fazer essa reforma agrária que a gente tanto almeja em todos os territórios, para conquistar uma democracia popular, justa e pela soberania [do país].”

Já a vereadora Marcela Menezes (PT), de Ribeirão das Neves (MG), chama atenção para os impactos urbanos da ausência de uma reforma agrária efetiva. Segundo ela, a expulsão de trabalhadores do campo, sem acesso à terra e a políticas de subsistência, alimenta o crescimento desordenado das periferias urbanas, aprofundando a insegurança alimentar, a violência e a precarização do trabalho. Embora reconheça avanços nas políticas de fortalecimento da agricultura familiar, como crédito e compras institucionais, ela afirma que a redistribuição de terras segue em ritmo incompatível com a gravidade do problema.

Marcela Menezes (PT) é vereadora em Ribeirão das Neves (MG)

“Tem muita terra vazia e degradada pelo agronegócio no país. Nesse momento de crise climática, a reforma agrária contribuiria para a recuperação dessas áreas degradadas, de agrofloresta, agroecologia, distribuindo renda, oportunidades e impedindo toda essa violência que o nosso povo sofre no ambiente urbano”, pondera.

No entanto, qualquer avanço estrutural esbarra diretamente na correlação de forças no Congresso Nacional. O líder indígena José Márcio, conhecido como Jacarandá, do povo Tupinambá de Olivença, no Sul da Bahia, e integrante da Teia dos Povos, avalia que a força da bancada ruralista e de setores conservadores impede a implementação de políticas fundamentais, como a reforma agrária e a demarcação de territórios indígenas. Segundo ele, mesmo com um governo federal alinhado às pautas populares, a ausência de maioria parlamentar limita a atuação de ministérios estratégicos e trava decisões fundamentais.

“Não adianta a Marina [Silva] ser ministra, se a bancada ruralista não a deixa trabalhar. Não adianta ter o governo Lula se a gente não colocar nossos representantes [no Congresso]. Muitas lideranças do campo morreram na luta, então é preciso repensar quem a gente vota, porque é a agricultura dos povos que manda comida para a cidade”, afirma.

Roseval Lino e Jacarandá Tupinambá durante o 14º Encontro Nacional do MST

Quem concorda com essa avaliação é Roseval Lino, militante do MST no sertão do Araripe (PE). Ele lembra que a bancada ruralista forma um dos blocos mais influentes do Congresso Nacional. Para o pernambucano, esse cenário ajuda a explicar por que medidas aprovadas pelo Executivo frequentemente são barradas ou esvaziadas no Legislativo, criando um gargalo permanente para o avanço da reforma agrária.

“Hoje a gente não busca só a reforma agrária clássica, que era a conquista da terra, a gente quer articular com pautas como a educação”, argumenta, se referindo à necessidade de reconstruir políticas públicas desmontadas nos últimos anos, como o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), e de fortalecer a agricultura familiar.

“A agricultura familiar é responsável por levar comida saudável à mesa dos brasileiros e sofre com falta de políticas públicas de incentivo, enquanto o agronegócio leva o veneno. Mas devemos cultivar a utopia de um mundo melhor.”

Em Rondônia, Zonalia Neres avalia que a reforma agrária está praticamente paralisada no governo Lula 3. Segundo ela, apesar da retomada de algumas políticas públicas, o acesso à terra não avançou de forma concreta nos territórios.

Zonália Neres é militante do MST em Rondônia

“[A reforma agrária] está parada no meu estado, na minha região, no país como um todo. O governo Lula tem [fortalecido] algumas políticas públicas, mas quando chega para nós é até difícil de acessar”, lamenta. Ainda assim, a militante afirma que a reeleição de Lula em 2026 é vista como estratégica diante do risco de retrocessos ainda maiores, mas ressalta que qualquer mudança real dependerá da intensificação da luta social.

Essa combinação entre apoio crítico e pressão política define a relação atual do MST com o governo federal. Márcio Santos explica que o movimento mantém uma relação de confiança política com o Executivo, mas rejeita qualquer lógica de subordinação ou complacência. Para ele, a reforma agrária precisa ser encarada como uma tarefa conjunta entre governo e movimentos sociais.

Márcio Santos integra a coorndeção nacional do MST

Ao projetar o debate para o futuro, Márcio deixa claro que o próximo ciclo político exigirá outro nível de compromisso. “Não ficaremos satisfeitos se não avançarmos nas pautas concretas do povo brasileiro, como reforma agrária, redução da jornada de trabalho, fim da escala 6×1, aumento real do salário mínimo e outras pautas urgentes”, alerta.

Para o MST, a reeleição de Lula é estratégica para o Brasil, para a América Latina e para o fortalecimento do multilateralismo. Mas, internamente, a cobrança será maior, não só nas mesas de negociação, mas também nas ruas e ocupações.

“Nós entendemos a conjuntura durante o terceiro mandato, mas no quarto mandato nós não vamos entender. Qualquer desculpa não vai ser mais suficiente. Vamos cobrar de forma mais contundente o próximo governo, para que a reforma agrária de fato deslanche no nosso país”, finaliza o coordenador nacional.



Fonte ==> Brasil de Fato

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