Em meio a idas e vindas do tarifaço americano, a China anunciou a sua balança comercial de 2025 com superávit recorde de US$ 1,2 trilhão. Outras boas notícias vieram de lá nos setores de transição energética, carros elétricos, inteligência artificial e desempenho acadêmico. Mas, uma notícia ficou devendo: pelo quarto ano consecutivo, o número de mortes bateu de longe o de nascimentos, e a taxa de fertilidade nunca esteve tão baixa.
Num rápido comparativo: em 2024, nasceram 9,5 milhões de chineses. Em 2025, foram 7,9 milhões, e a queda se acentua. O mundo vive a retração da natalidade a ponto de a ONU avisar que 63 países já atingiram o seu pico de crescimento populacional. Porém, o encolhimento na China é o caso mais desafiador.
Busca-se um “baby boom” a qualquer preço. O líder Xi Jinping compara ter um bebê a um ato patriótico. O ciclo menstrual das mulheres deve ser monitorado pelo sistema de saúde. Políticas de redução do aborto foram implantadas. O preço dos preservativos subiu 13%. E empresas de marketing subsidiadas oferecem casamentos em nightclubs.
É incrível ver esse pacote de medidas quando, por décadas, os chineses viveram sob a “lei do filho único”. Citando Wang Feng, expert em demografia e professor da Universidade da Califórnia, este talvez tenha sido o maior projeto de engenharia social da história. Uma política controlista de 1979, que durou até 2015, cujo objetivo primeiro era estabilizar a população em 1,2 bilhão de pessoas no ano 2000. Foi imposta como um “sacrifício coletivo” para garantir a modernização do país.
A população acha que deu certo, afinal, o país quadruplicou a renda per capita em 20 anos. Na vigência da lei, bebês do sexo masculino vingaram, enquanto bebês do sexo feminino apareceram em quantidade no mercado internacional de adoções. Só que agora os chineses em idade reprodutiva são instados a providenciar dois, três bebês, pelo mesmo regime que fez deles filhos únicos. Ter uma prole deixou de ser assunto para eles.
Esse comportamento restritivo não aparece só na China, mas em sociedades que envelhecem (o Brasil entre elas), em que os jovens encontram motivos para adiar, limitar ou suspender a procriação. O efeito global disso pode levar ao despovoamento de regiões inteiras, comprometendo dinâmicas sociais e econômicas importantes.
Um tema tão vital não merece ficar à mercê dos desinformados. Trump defende o seu natalismo de resultados: uma sociedade de velhos terá de recorrer à mão de obra imigrante, portanto, hora dos americanos parirem.
China, terra do meio
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Natalistas clássicos continuam culpando as feministas pela baixa fecundidade. Não veem que, com o fim do direito ao aborto nos EUA, mais mulheres recorrem à esterilização. E os neocontrolistas se juntam aos ambientalistas por um planeta com menos gente e mais recursos naturais. Há demógrafos de calibre pedindo que o despovoamento não vire a panaceia climática.
Faz falta um debate abrangente e urgente sobre o fenômeno, que comece por ouvir os jovens. Afinal, por que desconsideram o projeto de criar uma família? Como sentem o custo de vida, a insegurança profissional, as ambiguidades da licença parental, a carência de creches, a crítica sobre novos arranjos familiares, etc?
É o tal negócio: se o Estado entra no quarto de dormir, que respeite o sono de quem está dentro.
Fonte ==> Folha SP


