Uma regra aplicável aos últimos dois milênios humanos, se não mesmo mais, é a seguinte: quanto mais possível é o fim do mundo, menos pensamos nele.
A Idade Média foi aquele período de mil anos durante o qual todas as gerações estavam convencidas de que veriam o fim do mundo durante o seu tempo. Mas a possibilidade de o mundo acabar mesmo, não obstante a profecia bíblica, estava na prática reduzida à ínfima eventualidade de um asteroide de grandes dimensões bater de frente com a gente.
Nos últimos 80 anos, porém, acrescentamos à lista de possibilidades uma das mais perigosas: nós mesmos podemos ser o nosso “fim do mundo”, destruindo a civilização humana com uma catástrofe nuclear. E não é que esse temor não tenha ocupado as nossas mentes, mas até aí a regra se aplica.
Quando eu era criança havia, apesar de tudo, um quadro jurídico internacional que tentava controlar a proliferação nuclear e acordos bilaterais assinados entre os Estados Unidos e a URSS para garantir o controle recíproco do número e do tipo de armas que cada uma das superpotências poderia ter —os tratados Salt 1 (de limitação de armas estratégicas) e ABM (antimísseis balísticos), assinados em 1972, que por acaso foi o ano em que nasci.
Ainda assim, lembro-me de que, ainda nos anos 1980, em particular aqui na Europa, o receio de que pudesse haver uma guerra nuclear era constante. Apesar das inspeções e controles mútuos, ninguém poderia confiar demasiado num pedaço de papel.
Agora nem pedaço de papel temos —e isso não chega a ser tema. No dia 5 de fevereiro expirou o tratado Novo Start, herdeiro dos dois velhinhos acordos lá dos anos 1970 (Start é a sigla inglesa de Tratado de Redução de Armas Estratégicas). E a reação de Trump foi quase uma espécie de “e daí?”. “Se expirar, expirou”, disse o presidente dos EUA, acrescentando apenas: “Faremos um melhor tratado”.
Não partilho do otimismo. O acordo entre os EUA e a Rússia permitia manter controles mútuos em relação aos arsenais nucleares, às suas localizações e ao tipo de defesas que se poderiam usar para interceptar as armas nucleares dos outros.
Sem esses controles, a tentação será a de mudar as localizações das ogivas, desenvolver novos tipos de armas e mantê-las em segredo, e apostar em defesas que podem aumentar o nível de temeridade do lado que se sentir mais invulnerável, aumentando o risco para todos.
Lá Fora
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Quanto mais tempo passarmos sem esses acordos, mais a distância cresce e mais compensa a opacidade, sendo mais difícil voltar à mesa das negociações.
Em consequência, cada vez mais os restantes países, os não nucleares, começarão a perguntar-se por que razão devem continuar limitados pelas obrigações do Tratado de Não Proliferação Nuclear, em que basicamente prometem deixar as armas nucleares nas mãos das potências nucleares originais.
Israel, Índia, Paquistão e Coreia do Norte não estão nem aí para essa obrigação. E na Ucrânia devem pensar muitas vezes por que raio foram prescindir das suas armas nucleares em troca de garantias de segurança.
O debate entre elites já começou em muitos países do mundo, da Polônia à Coreia do Sul. Mas não chegou ao grande público. O que vale é que somos eternos.
Fonte ==> Folha SP


