7 de janeiro de 2026

Por que a juventude deve defender a soberania da Venezuela?

“O espírito de rebeldia deve viver em cada um de nós para seguirmos avançando, para não estagnarmos, recordemos a sentença do nosso eterno comandante Bolívar: “Nada se fez quando ainda falta o que fazer”

Hugo Chávez

No dia 3 de janeiro de 2026, o mundo acordou perplexo com as ofensivas militares diretas dos Estados Unidos contra a República Bolivariana da Venezuela, que, de forma violenta, resultaram no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. Em comunicado oficial, o presidente do regime estadunidense, Donald Trump, anunciou que irá governar o país até ocorrer o que foi denominado por ele mesmo como “transição”. Esta tática, que parecia abandonada para a América Latina, pode estar inaugurando um novo cenário para a geopolítica local, atacando territórios que estão a cerca de 1200 quilômetros da fronteira com o Brasil – distância similar àquela entre São Paulo e Brasília. As ofensivas de Trump e o teor de seus discursos não somente confirmam a tese de que a prática imperialista nunca foi abandonada, como também reafirmam o novo desenho apresentado para a luta de classes em âmbito internacional.

É público que, desde o triunfo da Revolução Bolivariana com a vitória de Hugo Chávez para a presidência da Venezuela, sucessivos foram os ataques e tentativas de intervenções contra a soberania e a autodeterminação venezuelanas. Desde as sanções econômicas até os bloqueios políticos criminosos, que foram aplicados com intensidade a partir de 2014 e geraram um período de crise econômica profunda até 2017. Entretanto, ancorados na mobilização e organização popular, bem como no fortalecimento de seus sistemas de defesa militar, todas as tentativas de romper com a ordem democrática e de desestabilização econômica na Venezuela falharam sucessivamente. Não podemos esquecer que, recentemente, com o apoio dos mesmos Estados Unidos, o político de oposição aos governos socialistas Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional Venezuelana em 2019, autoproclamou-se presidente do país e buscou construir um governo paralelo até 2021, autorizando o confisco de bilhões de euros e dólares em reservas internacionais. Mesmo com a comprovação do erro tático da oposição venezuelana – após o deputado ser ignorado por seu próprio povo e destituído pela própria oposição do cargo de liderança –, as forças antirrevolucionárias venezuelanas seguiram tentando desestabilizar a atuação dos chavistas, utilizando-se de seu poder econômico para gerar instabilidade no país e não participando de eleições para gerar um discurso de “ditadura”.

Consulta Nacional e Popular da Juventude leva milhares de jovens às urnas venezuelanas – Crédito: Lucas Monteiro

Esta última eleição foi um marco no processo de disputas internas da Venezuela, pois, com o retorno da oposição à disputa pela presidência, entendia-se que fariam de tudo para retornar aos anos anteriores à revolução, restabelecendo a Venezuela como colônia dos EUA. Confirmando as preocupações, o sistema da justiça eleitoral da Venezuela sofreu ataques de hackers; urnas no interior do país eram vigiadas, e até mesmo sequestradas, por milícias pagas pela oposição; e o povo sofreu um forte ataque de propaganda externa com financiamento de diversos países do Norte global. Mesmo com todos os ataques, o povo de Chávez e Bolívar decidiu continuar com a revolução em curso e, para além disso, decidiu que era momento de radicalizar a democracia e avançar na participação popular por meio de sua forma própria de organização: as comunas populares.

Hoje, a Venezuela constrói uma experiência única na América Latina de transição ao socialismo, orientada pelo discurso “Golpe de Timón” (algo como “tomar o leme do barco”), no qual Chávez apresentou as bases para a construção do poder popular e para o fortalecimento das comunas. As comunas populares hoje na Venezuela, além de espaços de impulso à revolução bolivariana, também são espaços de cuidado e desenvolvimento local. Similares a conselhos de bairro, estes organismos vivos da Revolução intensificaram a democracia interna do país, aliados aos processos de consulta que ocorrem regularmente – algumas experiências, inclusive, assemelham-se ao Orçamento Participativo de Porto Alegre, que tornou-se referência para o mundo todo, conhecido por Hugo Chávez em sua visita à cidade durante o Fórum Social Mundial –, como, por exemplo, a Consulta Nacional e Popular da Juventude, que leva milhares de jovens às urnas venezuelanas para votar em projetos escolhidos por meio de assembleias comunais.

Crédito: Lucas Monteiro

O fato que precisa ser dito é: mesmo que ainda haja muitas contradições dentro do processo de construção do socialismo na Venezuela, é inegável a importância do que ocorre neste território. Recentemente, com a previsão de Maduro sobre o avanço da ofensiva externa contra o povo venezuelano, o presidente da Venezuela apontou que era necessário apostar na radicalização do processo revolucionário, declarando a necessidade de implementar um “governo de transição comunal ao socialismo”. O que será desse processo e se ele continuará em vigência, somente a história dirá. Entretanto, vale perceber como, em meio às ameaças externas e internas, a revolução bolivariana coloca todas as suas apostas no povo, sem fazer concessões ou abaixar a cabeça para as ameaças imperialistas, que podem avançar contra Cuba, Colômbia, Brasil e outros países da América Latina.

No Brasil, entre os variados posicionamentos da esquerda sobre a conjuntura venezuelana, os movimentos sociais afirmam há décadas o compromisso e a solidariedade com a Venezuela e seu povo, construindo relações sólidas por meio de cursos, brigadas de trabalho e articulações internacionais. Sobretudo, estudando e fortalecendo a forma de transição ao socialismo que vem ocorrendo ao longo dos anos. Portanto, para nós, as alegações de “antidemocrático” ou de “governo autoritário”, que eram empregadas ao tentar resumir um processo complexo e de intensa mobilização popular, não representavam e não representam o que vem sendo construído naquele país de economia dependente e de um povo altamente combativo. Por isso, fomos ao encontro de sua cultura política, altamente influenciada pela luta anti-imperialista e de libertação continental apresentada por Bolívar e Manuela Sáenz. Ainda que sempre tenhamos feito as ponderações e considerações necessárias sobre o processo que ocorre na Venezuela, para nós uma questão sempre esteve nítida: o avanço desta cultura política era uma demarcação intransigente à influência política e econômica dos EUA na América Latina, sabendo, assim, que seria atacada por aqueles que defendem os interesses do Império Norte-Americano e visam tornar o povo latino-americano subalterno a esses.

Crédito: Lucas Monteiro

Nestes últimos dias, para além de tecer análises sobre o que está ocorrendo agora na Venezuela, bem como resgatar nossos elogios ou críticas aos governos do Partido Socialista Unificado da Venezuela (PSUV), entendemos que é necessário avançar na construção de iniciativas de solidariedade ao povo venezuelano e sua soberania. É necessário condenar o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores, bem como afirmar que, mesmo tendo sido detido por forças estrangeiras, Maduro ainda é o presidente legítimo, escolhido pelo povo da Venezuela por meio de eleições que ocorreram em um cenário de extremas dificuldades, e precisa ser libertado urgentemente para retomar seu cargo. Precisamos repudiar com veemência qualquer outra forma de governo que tentar ser apresentada pela oposição interna ou pelas ameaças externas que agridem a Venezuela. Bem como é necessário defender e apostar no caráter popular e de mobilização que as comunas têm para defender seu próprio país, construindo bases de apoio internacional às organizações que constroem esse processo de resistência.

Entende-se hoje que, para além da defesa de Maduro ou da continuação da Revolução Bolivariana, condenar os ataques dos EUA é defender todo o território latino-americano. Assim como precisamos seguir firmes na defesa dos povos do Sul Global, das experiências socialistas e da resistência ao imperialismo. Para isso, convidamos todos que são comprometidos com a Soberania Nacional e Popular e com a autodeterminação latino-americana a manterem-se em constante mobilização, tanto nas ruas como nas redes sociais. Precisamos pressionar o governo Lula para que tome medidas mais efetivas, tanto de apoio à Venezuela, como também que se alie às denúncias protagonizadas pela presidência da Colômbia em organismos internacionais.

Crédito: Lucas Monteiro

Neste momento, precisamos estar em vigília permanente e atentos a cada movimentação que ocorre na Venezuela, compreendendo a forma de operação de Trump para com os processos de resistência que ocorrem pelo mundo, em especial em nosso continente. Ainda que possa parecer distante ocorrer algo similar no Brasil – mesmo que não seja improvável –, este ano que se inicia será um ano de grandes tensões até as eleições que ocorrerão em outubro. Precisamos continuar avançando em nosso discurso de soberania e na defesa do Brasil como país autônomo e alinhado aos projetos de desenvolvimento social pelo mundo, em especial com o Sul Global, apontando nossos inimigos e vencendo as amarras daqueles que desejam explorar nosso povo, roubar nossas riquezas, destruir nossos ideais e remontar um cenário de Guerra Fria.

*Levante Popular da Juventude do Rio Grande do Sul.

** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.



Fonte ==> Brasil de Fato

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