Muito antes de Brasil e Venezuela serem Estados, os Yanomami já viviam na floresta agora dividida por fronteiras. O território Guarani fica no Brasil, no Paraguai e na Argentina. O povo Aymara vive nos Andes, localizado na Bolívia, no Peru e no Chile.
Meu espanto foi imenso sobre minha própria ignorância quando entendi que o Caribe tem esse nome graças à etnia originária dos navegadores que circulavam, e circulam, pela América Central e do Sul, os caraíbas aqui do Xingu.
Na década de 1980, a articulação de povos indígenas, tão fundamental para a conquista de direitos, também não se delimitava pelas fronteiras dos Estados Nacionais.
Em 21 de agosto de 1988, a Rádio USP transmitiu um episódio do Programa de Índio no ritmo dos bons e atuais podcasts. A inconfundível voz de Ailton Krenak ancorou a conversa sobre o Terceiro Seminário de Rádio para Populações Indígenas, realizado em La Paz, na Bolívia.
Lá Fora
Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo
No episódio de 28 minutos, ouvimos que, em países andinos, muitas emissoras transmitiam nas línguas quéchua e aymara, mas difundiam técnicas agrícolas com uso de fertilizantes e agrotóxicos, incentivo a hábitos de consumo considerados modernos e reorganização de moradias. Falava-se na língua dos povos tradicionais na tentativa de impor uma lógica civilizatória, integracionista, voltada ao mercado.
Em Honduras, uma rádio voltada ao povo mesquito recebeu apoio dos Estados Unidos para chegar a comunidades na Nicarágua. Contrapropaganda no contexto de extrema tensão regional.
Apesar do alcance limitado, já que muitas comunidades não tinham energia elétrica nem dinheiro para comprar pilhas e ouvir rádio, a experiência brasileira foi reconhecida naquele seminário como singular. Programas pensados e feitos por lideranças indígenas tratavam de território, conflito e tiveram um papel de formação política, informação e construção de alianças.
A fita cassete deste programa é uma das 350 digitalizadas e disponíveis na recém-lançada plataforma Balaio de Memórias.
Iniciativa da organização indígena Irokê, o Balaio torna públicos registros e documentos do Núcleo de Cultura Indígena (NCI), produzidos entre as décadas de 1980 e 1990. São 150 fitas de vídeo, centenas de documentos, fotografias, cartas e publicações impressas das duas décadas de atuação do núcleo.
“Eu e a minha irmã, a gente cresceu acompanhando as assembleias, as reuniões e as articulações políticas indígenas”, me contou a historiadora Maíra Krenak, uma das idealizadoras e curadora do Balaio.
“Enquanto as lideranças discutiam estratégias, direitos, a gente estava por ali brincando, mas naquele ambiente de construção coletiva. Ao longo da minha trajetória como historiadora, fui compreendendo que aqueles registros não eram apenas lembrança pessoal, mas parte do processo coletivo que ajudou a moldar o movimento indígena no Brasil num momento decisivo da democratização. Sei que as lutas dos povos indígenas desde 1500 tiveram muitas formas, mas a gente consegue celebrar e honrar a partir desse pedaço, agora em um acervo disponível a indígenas e não-indígenas”, diz ela.
O acervo inclui registros das primeiras assembleias indígenas no Nordeste, encontros do povo Yanomami, depoimentos de lideranças durante o Encontro de Altamira e a construção da Aliança dos Povos da Floresta, reunindo indígenas e seringueiros.
Em dias de disputas territoriais acirradas, urgência climática e avanço de projetos extrativistas, democratizar memória é estratégia.
Fonte ==> Folha SP


