Poucos textos políticos contemporâneos são tão subestimados fora de seu país quanto o discurso de Ano-Novo do líder chinês, Xi Jinping. Tratado com frequência como peça protocolar ou exercício de propaganda, ele cumpre uma função muito mais precisa. É um momento anual de condensação estratégica, no qual o Partido Comunista explicita o que considera resolvido, o que está em disputa e quais conflitos já são vistos como inevitáveis, características essenciais para análise geopolítica em um sistema que privilegia continuidade, planejamento e sinalização indireta.
A fala que marcou a virada para 2026 carregou um peso especial porque fecha o décimo quarto plano quinquenal e inaugura o décimo quinto. Xi insistiu nos números de crescimento, no avanço tecnológico e na resiliência econômica não para convencer o mundo de que tudo vai bem, mas para estabelecer um ponto de partida político.
A mensagem foi a de que a China atravessou anos de pressão externa, desaceleração global e contenção tecnológica sem perder o controle do rumo. Esse pano de fundo ajuda a entender por que a questão de Taiwan apareceu no discurso de forma menos conciliatória e mais categórica.
China, terra do meio
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Xi Jinping abandonou uma parte fundamental da sua mensagem acerca da reunificação com a ilha: a palavra “pacífica”. Neste ano, o líder chinês preferiu falar sobre o tema sob uma perspectiva histórica “imparável”, parte da sua manifesta vontade de não empurrar a questão para o próximo líder.
Isso não significa uma ação militar imediata, então deixe o alarmismo para depois. Ainda assim, é fato que o Partido calibrou o enquadramento do problema, e Taiwan deixou de ser apresentada como tema sensível a negociações graduais para ser tratada como desfecho natural. É uma mudança relevante porque comprime o espaço da ambiguidade estratégica que, por décadas, permitiu a coexistência instável no Estreito.
Essa formulação é reforçada por uma leitura específica da história do pós-guerra. Ao evocar a ordem internacional construída em 1945, Xi sugeriu que questionar o status de Taiwan como parte inalienável do território chinês equivale a questionar os próprios fundamentos desse sistema. É uma inversão retórica sofisticada porque Pequim refuta o rótulo de potência revisionista, uma acusação frequentemente associada à Rússia e seus arroubos expansionistas, e se apresenta como defensora de uma ordem que estaria sendo corroída por intervenções seletivas e alianças militares oportunistas.
Nesse ponto, o Japão emerge como ator central. O deslocamento do tom, da memória histórica para o posicionamento estratégico, sinaliza que Pequim passou a tratar Tóquio não apenas como herdeira de um passado mal resolvido, mas como participante ativo da contenção regional liderada pelos Estados Unidos.
Diante das recentes rusgas com a premiê Sanae Takaichi, que em discurso na Dieta Nacional (o Parlamento japonês) atrelou a soberania taiwanesa à segurança nacional do Japão, a China não acredita mais que o envolvimento de Tóquio nesta questão seja apenas circunstancial. A mudança na forma de enxergar o papel do país vizinho em um princípio basilar da política doméstica altera o cálculo regional e eleva o risco militar no Leste Asiático.
Para o leitor brasileiro, esse discurso importa porque revela uma China que não se vê como potência em busca de acomodação, mas como ator disposto a redefinir limites e narrativas. Em um mundo cada vez mais condicionado pelas decisões tomadas em Pequim, entender o que Xi diz, e sobretudo como diz, deixou de ser curiosidade acadêmica e passou a ser requisito básico de leitura da realidade internacional.
Fonte ==> Folha SP


