18 de agosto de 2026

‘7 Mulheres e Um Mistério’ leva público à cena em SP – 18/08/2026 – Mise-en-scène

'7 Mulheres e Um Mistério' leva público à cena em SP - 18/08/2026 - Mise-en-scène

Na véspera de Natal, uma mansão isolada pela neve vira o cenário de um dilema simples de enunciar e péssimo de resolver: o dono da casa foi encontrado morto com uma faca nas costas, as linhas de telefone foram cortadas e o motor do carro foi sabotado. Sem sinal e sem polícia, resta às moradoras e funcionária encarar a verdade matemática da situação: a assassina é uma das sete mulheres da sala.

É essa a premissa de “7 Mulheres e Um Mistério – O Musical”, montagem que ocupa o 033 Rooftop, em São Paulo. A produção da WB Produções e Nosso Cultural, idealizada por Francisco Antonelli, pega o clássico “8 Femmes”, escrito pelo francês Robert Thomas nos anos 1960, e dá a ele uma versão inédita, autoral e cantada.

O texto já passou pelos palcos brasileiros em 1962 com Nathália Timberg e Dulcina de Moraes, virou filme musical de François Ozon em 2002 e ganhou versão italiana de Alessandro Genovesi em 2021. Desta vez, a adaptação, letras e canções originais têm a assinatura de Anna Toledo, sob a direção artística de Ricardo Grasson e Heitor Garcia e direção musical de Thiago Gimenes.

A grande virada aqui está no ritmo. Em vez de interromper a ação para cantar, as canções criadas por Toledo escancaram o que a polidez burguesa tenta esconder. O verniz social cai em solos e duetos cheios de ironia, aproximando o suspense policial do tom rasgado de uma novela mexicana ou comédia de costumes.

Essa dinâmica ganha força com a própria disposição do espaço. Sem a distância tradicional do palco, o público acompanha a investigação acomodado em mesas e sofás espalhados ao redor da cena, podendo inclusive degustar um menu temático francês assinado pelo chef Mário Azevedo.

A cenografia de Natália Lana aproveita a altura do local para criar tensão, usando o nível térreo como arena dos embates verbais e a grande escadaria para indicar o quarto da vítima no andar superior, enquanto a iluminação de Gabriele Souza, o som de Tocko Michelazzo e as coreografias de Keila Bueno e Victoria Ariante mantêm a movimentação ágil no formato de arena.

A engrenagem se sustenta no trabalho de um elenco afinado. Bruna Guerin destaca-se como a governanta “francesa” em composição debochada, ao lado de Stella Miranda no papel de Perfídia, a matriarca ácida e Paula Capovilla como a reprimida Augusta. O grupo se completa com Malu Rodrigues como a filha perfeita Bianca, Letícia Soares no papel da visitante Bete, Verónica Valenttino como a esposa desiludida e Laura Castro como a caçula Catarina. Entre alianças temporárias, álibis frágeis e acusações cruzadas, a união familiar desmorona a cada depoimento até que a última nota seja cantada e a verdade venha à tona.

Três perguntas para…

… Ricardo Grasson

De que maneira a direção trabalhou para que o espectador se sinta dentro da mansão e participante ativo da investigação?

A imersão é uma premissa do 033 Rooftop, e entendemos desde a etapa de decupagem que a plateia precisava fazer parte do espaço e da encenação. Pensamos cenografia, figurinos, luz e som em função dessa integração. Na história, tudo começa pelo fim: os personagens recepcionam os compradores do imóvel. O público já entra no teatro participando desse open house, totalmente inserido no ambiente. Aproveitamos uma passarela para direcionar a encenação de modo que as atrizes desçam, misturem-se às pessoas e interajam diretamente.

Com a dramaturgia da Anna Toledo pensada para esse formato, o espectador deixa de ser passivo e vira um agente ativo na trama. É Agatha Christie à la Mel Brooks: a resposta é muito gostosa e o público entra no clima assim que pisa no espaço.

O espetáculo reúne atrizes de formações e gerações muito diversas. Como foi o trabalho de regência coletiva para alinhar a afinação vocal ao rigor do timing cômico que a farsa exige?

Nossa pesquisa de direção buscou referências no realismo fantástico de diretores como Tim Burton, Wes Anderson e Guillermo del Toro, uma linguagem rápida e lúdica que se conecta muito bem com a plateia. No elenco, temos desde a Laura Castro, um fenômeno de 23 anos, até a Stella Miranda, outro fenômeno, de 77. Essa multiplicidade de trajetórias não é um ponto de atrito, mas de agregação.

Como todas as atrizes já possuem um enorme virtuosismo vocal, nosso objetivo foi ir além e explorar a veia cômica de cada uma pelo teatro de prosa. Comédia é tempo e rigor: antecipar ou atrasar um segundo altera completamente a piada. Trabalhamos esse ritmo em sala de ensaio dando liberdade ao elenco e construindo em formato coletivo até chegar ao alinhamento ideal.

Como funcionou a dinâmica de co-direção com Heitor Garcia e a articulação com a autora Anna Toledo e o diretor musical Thiago Gimenes?

Minha parceria de encenação com o Heitor completa dez anos. Trouxe do cinema a prática de manter uma mesma equipe criativa, o que dinamiza todo o processo. Para esta montagem, optamos pela comédia farsesca, que fica a um passo antes da caricatura. O espetáculo funciona como um relógio ou uma caixinha de música: luz, som, atores e cenografia operam em total sincronia para que o ritmo não caia e a plateia siga atenta.

Ter o texto, letras e músicas originais da Anna Toledo na largada representa metade do caminho andado. Como dizia Antunes Filho: tendo um bom texto e bons atores, se a direção não atrapalhar, o espetáculo será um sucesso. Unimos esse material a uma grande equipe para dar forma a esse suspense cômico, e ver o público se divertir na cena faz tudo valer a pena.

033 Rooftop – Av. Pres. Juscelino Kubitschek, 2.041, Vila Nova Conceição, região sul. Sexta, 20h. Sábado, 16h e 20h. Domingo, 15h e 19h. Até 4/10. Duração: 120 minutos (com intervalo de 15 minutos). Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 25 (meia-entrada plateia popular) em sympla.com.br e na bilheteria do Teatro Santander



Fonte ==> Folha SP

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