Quando uma secretária pede ao presidente da República italiana que aprove o cardápio de um jantar oficial, ele dá o aval ao linguado à belle meunière, uma clássica receita francesa em que o peixe é temperado com sal e pimenta, levemente passado em farinha de trigo, grelhado na manteiga até dourar. Dorotea, sua filha e assessora direta, veta. Nada de manteiga, nem de medalhões de berinjela. Será peixe ao vapor e quinoa. “Ela quer me tornar um asceta”, reclama o presidente. Aceita mesmo assim.
Mariano De Santis – interpretado por Toni Servillo em A Graça, de Paolo Sorrentino, que chegou recentemente ao Mubi – é um jurista famoso que trocou os tribunais, os livros de Direito Penal e as aulas pelo Palácio Quirinale. Após sete anos como presidente da República, vive os últimos seis meses do mandato diante de dilemas que não se resolvem com jurisprudência: assinar ou vetar uma lei sobre eutanásia redigida pela própria filha e decidir se concede indulto a dois condenados por assassinato. Quando questionado se tomará as decisões, De Santis não responde. Nos corredores do palácio e do Congresso, seu apelido é “concreto armado”, um homem rígido no pensamento e imóvel na ideologia.
A dieta imposta por Dorotea é o avesso do apelido. Ela tenta aliviar um homem que o mundo político considera estanque. De Santis tem apenas um pulmão e o direito concedido pela filha, também jurista, a um cigarro por dia. Quando o acende, Sorrentino dá um close em um rosto que busca prazer, mas é atormentado por dúvidas, uma não existencial. Enquanto fuma pensa na esposa morta, que o teria traído com um amigo quatro décadas atrás. No vazio do Palácio, não se pode esquecer da metáfora de que, ao término de um mandato, nem o café que chega ao presidente está quente.
No Quirinale, a dieta é rígida. O presidente recebe um consommé, um líquido claro, quase frio, silencioso no prato. Tem aval para comer sempre quinoa. A comida institucional é tão austera que Coco Valori, crítica de arte e amiga de décadas, convidada para um jantar oficial, levanta-se da mesa antes de terminar. Sorrentino já usou a mesa como elemento de seus filmes.
Em A Grande Beleza (2013), que venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro na premiação de 2014, o cardeal Bellucci, candidato ao pontificato, recita receitas no jardim do Quirinale em vez de falar de Deus. Na festa de um colecionador, champagnes ganham taças. As festas ganham ao fundo o Coliseu. Em A Graça, tem outro significado.
Como escreveu José Geraldo Couto no Blog do Cinema do Instituto Moreira Salles, o título do filme não se refere apenas ao indulto presidencial ou ao perdão à traição matrimonial. Pode significar também “elegância e leveza de formas, do porte e dos movimentos” e ainda “comicidade, brincadeira, divertimento”. O drama íntimo de De Santis não é decidir a quem conceder o perdão. É encontrar a leveza que o apelido – de que ele não gosta – lhe nega.
Ao fim, De Santis volta ao apartamento onde viveu com a mulher e os dois filhos. Pede uma pizza. É a primeira refeição que escolhe sozinho, um gesto culinário que não passa pelo filtro de Dorotea, do protocolo, do cargo. Pai e filha e filho têm um diálogo on-line em que buscam preencher silêncios e compreender as razões de cada um.
Sorrentino quase não mostra Roma. A Grande Beleza exibia festas ao ar livre regadas à comida e bebida. A Graça confina o presidente perto do fim do mandato entre paredes de palácio, corredores, salas de reunião. Ao término, o peso institucional do Quirinale cede lugar à busca por leveza de um político e um homem nos seus últimos dias de poder e atormentado pela certeza da morte e pela incerteza do perdão.
Fonte ==> Casa Branca


