16 de junho de 2026

O efeito azarão – 16/06/2026 – Hélio Schwartsman

Jogador de futebol em uniforme amarelo levanta a bandeira de Cabo Verde acima da cabeça no campo de jogo. Ao fundo, outros jogadores e arquibancadas com público.

Você vibrou com as defesas de Vozinha no empate sem gols que a seleção de Cabo Verde arrancou da Espanha? Sorriu de satisfação ao saber que a fraca Austrália derrotou por 2 a 0 a mais robusta Turquia? Pois saiba que você não está só. O ímpeto de, em determinadas circunstâncias, torcer pelo competidor mais fraco, nos esportes, na política ou mesmo na vida, é um viés cognitivo inscrito em nossos cérebros e leva o sugestivo nome de efeito azarão (underdog effect).

O efeito azarão é especialmente intenso quando há pouco ou nada a perder com o desfecho. Um bom exemplo de situação de baixo custo é justamente assistir a uma partida de futebol pela TV sem ter colocado dinheiro num bolão. Mas, se você é um frequentador de bets, espero que tenha tido o bom senso de não apostar que Curaçao meteria sete gols na Alemanha. Quando há riscos reais envolvidos, não podemos nos dar ao luxo de ficar contra as probabilidades em nome do desejo meio metafísico de reequilibrar os pratos da balança da justiça universal.

O fenômeno é particularmente interessante na política, já que torcer e votar são atividades até certo ponto relacionadas e, nas democracias, candidatos que recebem mais votos são eleitos. É preciso cuidado, porém, para não superestimar o efeito azarão. Se ele fosse ubíquo, eleições seriam sempre vencidas por cabos Daciolos e padres Kelmons, o que, felizmente, não é o que ocorre. É que ao underdog effect contrapõe-se um outro viés, o efeito manada (bandwagon effect), que leva o eleitor a seguir aquilo que acredita ser o movimento da maioria. O desejo no comando aqui é o de pertencimento e conformidade social.

De um modo geral, o efeito manada prevalece sobre o azarão, mas situações de crise ou de fadiga com o statu quo podem aumentar dramaticamente as chances de candidatos que se vendem como o David que enfrenta o Golias. É mais perigoso encantar-se com o político antissistema do que torcer por Cabo Verde na Copa, ainda que as duas coisas tenham as mesmas raízes psicológicas.



Fonte ==> Folha SP

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