16 de junho de 2026

Clima de Orgulho conecta justiça climática, diversidade e defesa dos territórios em Porto Alegre

As conexões entre justiça climática, diversidade sexual e de gênero, defesa dos territórios e enfrentamento das desigualdades estiveram no centro da segunda edição do Clima de Orgulho, promovida pelo Coletivo Casca Socioambiental e pelo Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região (SindBancários). Realizada no Salão de Atos II da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre, a atividade contou com a participação da ativista indígena guarani, psicóloga e escritora Geni Núñez, que tratou sobre colonialidade, afetos, gênero e não-monogamia.

O evento partiu da compreensão de que as crises climáticas, sociais e políticas que marcam a atualidade não podem ser analisadas de forma isolada. Diretora de Cultura e Sustentabilidade do SindBancários e integrante do Coletiva Casca Socioambiental, Ana Berni Helebrandt, destacou que a proposta do encontro foi justamente aproximar agendas frequentemente tratadas como separadas. “Buscamos aproximar a luta ambiental e a luta do movimento LGBTQIAPN+, porque entendemos que não existe movimento ambiental sem movimento social. Assim como não existe movimento social sem compromisso com a defesa da vida e dos territórios. São faces da mesma luta.”

Segundo ela, o agravamento da crise climática, o aumento das desigualdades, a violência contra as diversidades, a precarização do trabalho e a fragilização dos vínculos comunitários fazem parte de uma mesma lógica social. “O Clima de Orgulho nasce justamente na compreensão de que essas violências estão profundamente vinculadas e de que também precisam estar vinculadas às nossas formas de resistência, organização e transformação”, acrescentou. A mediação do encontro foi realizada pelo integrante do Casca, do Coletivo Pró Catador e militante do Movimento Nacional de Catadoras e Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), Li Rassier.

Reflorestar os imaginários

Autora dos livros “Descolonizando afetos – Experimentações sobre outras formas de amar”, e “Felizes por enquanto – Escritos sobre outros mundos possíveis”, ao longo de sua fala, Geni Núñez articulou pesquisas históricas, experiências indígenas e reflexões sobre afetos para questionar concepções naturalizadas sobre amor, gênero e relações humanas

A escritora explicou que o amor romântico é uma construção histórica associada a valores específicos, como a permanência e a exclusividade. “O amor romântico é um tipo de amor historicamente situado que tem como fundamentos a ideia de perpetuidade e a ideia de fixidez.”

Segundo ela, a noção de que o amor verdadeiro deve durar para sempre e permanecer inalterado ao longo do tempo está relacionada a formas de organização social que ganharam força durante o processo de colonização.

Para Núñez, é preciso “reflorestar os imaginários” e reconhecer que o cuidado, a ternura, a solidariedade e o afeto existem para além dos modelos tradicionais de relacionamento. “Todas as formas de expressar carinho, ternura e amparo existem muito além desse lugar que o amor romântico ocupa hoje”, observou.

A palavra também é uma flecha

Um dos momentos centrais da palestra foi a reflexão sobre a produção de conhecimento e os impactos da colonização sobre os saberes indígenas. Núñez relatou que, ao pesquisar cartas jesuíticas dos séculos 16 e 17, encontrou registros que demonstram o interesse dos missionários em ensinar leitura e escrita aos povos indígenas apenas para reproduzir aquilo que era considerado verdadeiro pela igreja.

No entanto, segundo ela, os povos indígenas transformaram a escrita em instrumento de criação, resistência e luta. “Hoje, dentro dos nossos povos, a gente diz que a palavra também é uma flecha.”

A ativista relacionou essa reflexão aos espaços acadêmicos contemporâneos, observando que muitas vezes o conhecimento continua sendo valorizado quando reproduz fielmente autores e perspectivas europeias. Para ela, produzir conhecimento também significa criar, inventar e desafiar verdades estabelecidas.

Corpo-território e colonialidade

Ao abordar a relação entre território e identidade, Núñez lembrou que a colonização não se restringiu à ocupação física das terras indígenas, mas também procurou controlar modos de vida, formas de organização social e experiências de gênero.

Ela recordou que missionários como José de Anchieta consideravam impossível colonizar povos em movimento, defendendo a fixação das comunidades indígenas nas chamadas reduções. “Era necessário reduzir o território, mas também reduzir formas de pensar e existir.” A ativista relacionou esse processo histórico às tentativas contemporâneas de enquadrar pessoas em categorias rígidas de identidade, comportamento e pertencimento.
Segundo ela, a defesa dos territórios está diretamente ligada à defesa dos corpos e das múltiplas formas de existência.

Outro eixo da palestra foi a crítica à ideia de humanidade construída pela modernidade ocidental. Citando reflexões da antropóloga Graciela Chamorro, Núñez observou que muitas línguas indígenas não possuem uma tradução direta para a palavra “humano”, privilegiando conceitos relacionados ao pertencimento coletivo e à vida comunitária.

Conforme expôs, durante a colonização, a condição de humano passou a ser apresentada como algo que deveria ser alcançado por meio da civilização, da catequização e da assimilação dos valores europeus. “Diziam que nossos ancestrais só se tornariam humanos mediante o processo de civilização”, afirmou.

A escritora também questionou a associação entre civilização e superioridade moral. “Se durante tantos séculos disseram que nossos povos precisavam evoluir, progredir e se tornar mais humanos, quando olhamos para as guerras, os massacres e as violências vemos que isso tudo tem sido protagonizado pelos ditos civilizados. Talvez seja o momento dos civilizados se tornarem um pouco mais selvagens.”

Ao refletir sobre essa questão, Núñez recorreu a uma provocação do líder indígena Ailton Krenak. “A humanidade é um clube VIP e cabe muito pouca gente.” Para a escritora, as lutas indígenas, antirracistas, feministas e LGBTQIAPN+ não buscam apenas inclusão em estruturas historicamente excludentes, mas também a afirmação de outras formas de existir e de compreender a vida coletiva.

O evento partiu da compreensão de que as crises climáticas, sociais e políticas que marcam a atualidade não podem ser analisadas de forma isolada | Crédito: Camila Kila / Imprensa SindBancários

Ao longo da atividade, Núñez também questionou o uso da ideia de natureza como justificativa para exclusões e violências. De acordo com ela, conceitos aparentemente neutros frequentemente carregam valores religiosos, morais e políticos herdados do processo colonial. “Boa parte da violência da colonização não opera naquilo que é explicitamente ruim, mas sobretudo em nome do bem, do amor, do progresso, do desenvolvimento, da família, da tradição e da natureza.”

A pesquisadora lembrou que documentos históricos classificavam práticas indígenas como “pecados contra a natureza”, utilizando a noção de naturalidade para legitimar processos de dominação. Para ela, reconhecer a natureza como movimento, transformação e diversidade permite questionar visões rígidas sobre gênero, sexualidade e formas de existência.

Culpa, pecado e controle

Outro tema abordado por Núñez foi a utilização da culpa como instrumento de controle social. Segundo ela, o processo de colonização envolveu a introdução da ideia de pecado para povos que possuíam outras formas de compreender suas relações com o mundo.

A ativista observou que muitos registros históricos demonstram o esforço dos missionários para convencer os indígenas de que eram pecadores e necessitavam de confissão, arrependimento e perdão. “Antes da gente pedir perdão, talvez seja importante avaliar se concorda com o pecado”, afirmou.

Ela também criticou narrativas que invertem responsabilidades históricas, citando como exemplo manchetes que afirmam que indígenas invadem fazendas. “O que temos muitas vezes é justamente o contrário. A invasão foi feita pela fazenda”, argumentou.

Geni Núñez também defendeu a valorização das diferenças e das dissidências como formas de resistência ao que chamou de “sonho da monocultura”. Conforme apontou, a monocultura não se limita à produção agrícola, mas representa um projeto político e cultural que busca impor uma única forma de viver, amar, pensar e existir. “Enquanto houver uma única pessoa dissidente, é como se essa pessoa fosse um milhão. Porque ela testemunha que não houve um sucesso absoluto nesse grande projeto de implantação da monocultura”, afirmou.

A escritora ressaltou que as lutas indígenas, antirracistas, feministas, ambientais e LGBTQIAPN+ não dizem respeito apenas aos grupos diretamente atingidos pelas opressões. “Não é um problema do indígena, da pessoa negra ou da pessoa trans. É uma busca por um viver realmente coletivo”, disse.

Ao longo da palestra, Geni Núñez dialogou com diferentes referências indígenas, negras e anticoloniais. Além de Graciela Chamorro e Ailton Krenak, citou também o psicólogo e escritor João Nery, o intelectual quilombola Nego Bispo, e o pensador martinicano Frantz Fanon.

Também compartilhou ensinamentos recebidos de lideranças guarani, kaiowá e kalapalo, além dos mais velhos de seu povo, que descreveu como “bibliotecas vivas”. Ao encerrar a atividade, a ativista defendeu a construção de vínculos mais fortes entre pessoas, comunidades e territórios. “Precisamos pensar a qualidade dos vínculos que construímos com a terra, com o trabalho, com o descanso e com as pessoas. E preservar a possibilidade de continuar brincando, porque isso não deveria ser apenas coisa de criança.”

Monocultura, crise climática e desigualdades

Em entrevista ao Brasil de Fato RS e ao SindBancários, Geni Núñez aprofundou a relação entre crise climática, violência contra corpos dissidentes e exploração dos territórios. Segundo ela, esses fenômenos possuem raízes comuns e não podem ser compreendidos de forma isolada. “Tenho comentado no meu trabalho o quanto uma monocultura fortalece a outra. A mesma monocultura que violenta a diversidade da terra também se expressa na imposição de uma única religião, de uma única maneira de ter sexualidade e de uma única maneira de existir”, afirmou.

Para a ativista, a defesa da diversidade dos ecossistemas está diretamente ligada à defesa da diversidade cultural, linguística e das formas de vida. “Assim como o ecossistema de línguas indígenas fortalece outros ecossistemas, essa luta está conectada. Mesmo que os grupos não vivam exatamente as mesmas experiências, todos são afetados por essa lógica da monocultura”, observou.

Ao comentar os impactos das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, Núñez destacou a importância de distinguir os fenômenos naturais das decisões políticas que ampliam seus efeitos sobre a população. “Existe uma vulnerabilidade que nos constitui como pessoas, mas existe também uma precariedade imposta politicamente que aumenta muito mais o alcance e a gravidade desses fenômenos.”

Segundo ela, atribuir exclusivamente à natureza os efeitos de tragédias climáticas invisibiliza responsabilidades políticas, econômicas e sociais. “Colocar na conta da natureza algo que também tem impacto político, econômico e ideológico é uma maneira de praticar um certo negacionismo em relação ao alcance dessas violências”, disse.

Descolonizar os afetos também é defender a vida

Questionada sobre a relação entre a descolonização dos afetos e a crise climática, Núñez afirmou que os afetos não se restringem às relações interpessoais, mas envolvem também a forma como as pessoas se relacionam com os territórios, os rios, as florestas e a própria terra. “As relações envolvem não só as relações interpessoais, mas também a relação com a terra, com as florestas e com os rios.”

Para a escritora, não é possível discutir cuidado, afeto e transformação social sem garantir condições materiais de existência.“Se nós não tivermos direito à água, à alimentação, ao descanso e à moradia, não é possível descolonizar os afetos”, observou.

A ativista também relacionou a lógica da posse que marca a exploração dos territórios a diferentes formas de violência presentes na sociedade. “A mesma lógica da posse que faz um grupo achar que é dono do rio, dono da montanha ou dono da terra também aparece na violência doméstica e na LGBTfobia.”

Solidariedade e luta coletiva

Ao final da entrevista, Núñez frisou a importância da organização popular diante dos desafios sociais, ambientais e políticos contemporâneos. “Tudo que nossos povos e nossas comunidades conquistaram até hoje foi pela luta coletiva.”

Segundo ela, a solidariedade e a construção de alianças entre diferentes movimentos sociais são fundamentais para enfrentar as desigualdades e os impactos da crise climática. “Essas articulações podem se juntar cada vez mais, porque nós temos muitas semelhanças dentro das nossas diferenças que nos conectam.”

Ao comentar os impactos desproporcionais dos desastres climáticos sobre as mulheres, Núñez chamou atenção para a desigualdade na distribuição do trabalho de cuidado. “Boa parte desse trabalho no mundo é feito pelas mulheres, especialmente mulheres não brancas, trabalhadoras e precarizadas. Essa desigualdade faz com que o impacto das crises seja muito mais severo para essas comunidades”, pontuou.

Para ela, a superação dessas desigualdades passa necessariamente pela redistribuição das responsabilidades de cuidado. “Enquanto não houver uma coletivização desse cuidado, uma redistribuição desse cuidado, a mesma terra que está exaurida da exploração também é a terra do nosso corpo-território, que está esgotado desse tanto de acumulação de trabalho”, concluiu.



Fonte ==> Brasil de Fato

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